Russell e o fraquejar da razão

      Que Russell se inscreva na tradição racionalista da filosofia e que por tal motivo tome emprestado o ceticismo tão-somente como um instrumento que lhe possibilitará dar conta de certos problemas concernentes à racionalidade (seus limites, seu funcionamento, sua natureza etc.) sem, no entanto, refutá-la, será admitido de pronto por nós. Tal verdade permitir-nos-á lançar luz à problemática da imagem do pensamento sob o prisma da filosofia da diferença. Acreditamos que uma tal filosofia é a única capaz de dar conta do problema da racionalidade sem cair nos velhos e enfadonhos disparates da tradição. Tal como Nietzsche (1844-1900) desconfiamos do valor da “razão a todo custo” e identificamos em Russell, mais especificamente em seu ceticismo paradoxal, a marca dessa desconfiança que, no entanto, se postará no nível do recalcado, como aquilo que se combate, que se deve combater. Russell se nega a levar adiante sua suspeita, ele ainda quer ser racionalista. E trataremos aqui dessa relação ambígua de Russell com o racionalismo, partindo da tese de que Russell será movido em suas investigações filosóficas por um racionalismo fraquejante.

      À Russell atribuímos uma vontade fundamental que o impele à crença, mesmo vacilante, na razão a todo custo. Russell é um romântico inveterado, ele está apaixonado pela Razão, e como sabemos, todo homem apaixonado pinta o objeto de sua paixão com as cores mais vivas e a orna com as mais belas pedras preciosas. Mas Russell será também o apaixonado que começa a duvidar das qualidades de sua musa. Ele começa a perguntar-se se a razão é mesmo capaz de servir ao progresso da humanidade, à liberdade e, como todo bom filósofo inglês, à felicidade dos homens (RUSSELL, 2010, p. 27).

Clique e continue a ler

Comunicação e Pós-modernidade: O Saber em Crise

 

Em pleno século XXI as sociedades de controle alcançam o nível de modelo societal par excellence e as tecnologias de informação, típicas desse modelo, alcançam o seu apogeu; capazes de chegar onde em outras décadas seria inimaginável, nos impressiona – ou talvez não mais impressionem, pois já nos habituamos a elas. Contudo, observa-se um fenômeno aparentemente contraditório: ao mesmo tempo em que graças a essas tecnologias alcançamos os saberes que tornaram-se alcançáveis por um grupo cada vez maior – a tal democratização do saber propiciada pelas tecnologias de informação -, a ignorância aparece como o símbolo da nossa época. Com o advento da internet, por exemplo, podemos ler sobre Filosofia, Sociologia, História, Geografia, Economia; fazer downloads de trabalhos acadêmicos dos mais variados e de diversas Universidades do Mundo; tudo muito prático, ao alcance da mão. É intrigante, e caberia aqui uma problematização mais enfática nessa área.

Tomemos como exemplo, nomes da literatura e da Filosofia. Tem-se, hoje, a possibilidade de comprar, seja em lojas virtuais, ou em livrarias, obras de Kafka, Marx, Freud, Nietzsche, Sartre, Platão, Deleuze, Foucault, entre tantos outros, por até menos que R$10 – nem todos, obviamente -, mas pouco se tem visto da potência crítica que tais autores liberam. Lê-se Sartre, mas não há quem “viva” Sartre. Com Marx ou Nietzsche – talvez mais com Nietzsche – sucede-se o mesmo. Há mais leitura, obviamente, mas leituras cada vez mais vazias. Para onde foi, então, a potência crítica desses pensadores? Por qual razão se lê mais nomes tão consagrados, mas não se vê as rupturas que esses autores provocam? Dizer que a culpa é dos próprios pensadores certamente não é a resposta.

Clique aqui e continue a leitura

Escritos Aforismáticos

Vida e Conhecimento

 

I

 

A vida como meio de conhecimento. Nietzsche acreditava que vida e conhecimento não constituíam pares opostos, mas uma unidade fundamental que caberia ao filósofo do futuro restituir, uma vez que a oposição – mais aceita, afirmada, com credulidade e orgulho, do que provada, diga-se de passagem -, havia sido imposta à vida, como instrumento para sua total negação. A história da filosofia é a história de terríveis golpes deferidos contra a vida, a história de incomensuráveis erros acerca do valor da vida; erros dos quais ainda não nos libertamos; para constarmos isto que vos digo basta observar como a canalha vê o pensador ou o estudante de filosofia: como um lunático, um fora de órbita, preso ao “mundo das ideias” (ideia capenga advinda de uma imagem distorcida do platonismo, que de modo algum se define pela distinção entre dois mundos, o aparente e o inteligível). A “vida contemplativa” – a do filósofo ou do cientista – seria como um adeus pomposo à vida – o filósofo como aquele que se recusa a viver para – para quê? – pensar. Pensar tornou-se um meio de negar a vida! O golpe de gênio dos filósofos foi terem descoberto como fazer do pensamento uma prática niilista par excellence.

Continue a leitura

Devir-poeta: Poemas Quebrados I

Dos Humildes

Lançaram-me à lama, impavidamente, com um sorriso cínico nos lábios!
Eles [todo mundo], com ódio e rancor, forçaram-me a esconder todos os meus tesouros;
disseram-me que eu não era o melhor, que eu… não… podia… ser: nunca!
Nada deve elevar-se acima dos porcos [deles]. É o que disseram também.

Há neles crueldade – e paixão – o bastante para fazer o mundo inteiro arder em chamas;
afirmo-vos: nem o próprio Deus seria capaz de empreender vingança mais sublime.
Ceifam vidas puras e belas e protestam: ímpios! diabólicos! maudites!
Os mais alegres morrem em suas fogueiras sob a marca da bruxaria e da imoralidade.

Eis o seu imperativo categórico: sejais o mais baixo e assim será o mais feliz,
ponha-se à humilhação diante do teu ideal [Deus], execre-se, mortifique-se.
Lambuze-se com as pútridas águas da moral dos exíguos
e afastai de ti todo sentimento de superioridade: ele é mau!

Torna-te pequeno,
torna-te rato,
torna-te inseto,
torna-te bicho.

(Raony F. Moraes)

Manifesto à uma Esquerda Porvir: o Porquê de minha Renegação do Marxismo do Ponto de Vista Histórico

      Perguntaram-me certa vez – com estupefação e ódio – o porquê de um homem como eu – anarquista, isto é, de esquerda -, detestar – falo, evidentemente, do leninismo, do trotskismo e do stalinismo – os marxistas; na hora, não ousei responder e simplesmente saí de cena tal qual um lorde inglês que se despede de seus amigos, quando percebe que é hora de partir. Não o fiz por uma única, porém suficiente, razão: abomino responder às questões que me colocam como que num tribunal da Razão. Não se tratava de uma pergunta inocente e/ou curiosa, de alguém que anseia saber algo que, com efeito, não sabe, mas de uma artimanha vingativa de um homem perverso e ressentido… Eu precisava, então, responder, tal como um réu responde às acusações que lhe são feitas por um advogado de acusação. Ele – advogado de acusação e, simultaneamente, juiz e júri -, ouvir-me-ia, mas tão-somente para decretar minha culpa – nada justifica, diria ele, uma tal repugnância e, assim, seria eu necessariamente culpado. Lembro-me de Kafka: a culpa é sempre indubitável.

      Imagino que para ele, eu não passava de um traidor do ideal revolucionário; um garoto burguês mascarado de revolucionário ou mesmo um burguês sem identidade fixa, que busca sua identidade num território que lhe seria estranho; um ardiloso inimigo infiltrado entre seus aliados para fazer frustrar a tão prometida revolução (que nunca vem, tal como o messias dos cristãos); um homem perigoso e de planos perversos etc. Os marxistas mais ortodoxos são paranoicos, assassinos, monstros terríveis com implacável fome de carne humana: devoram aos outros e a si mesmos. E quanto a mim? Uma presa saborosa! Se ele pudesse, executar-me-ia ali mesmo, com toda a frieza de um bom e obediente socialista científico – e ainda gritaria: “Viva a revolução!”.

Continue a leitura

Jean-Paul Février fala Sobre a Filosofia da Diferença e Sua Irredutibilidade em Relação a Um Ideal Orgíaco Pós-modernista

Prelúdio Poético-filosófico a Uma Mentira: o Traidor e a Consciência Feliz

Bom, resolvi contar-lhes uma mentira; a saber: esta entrevista que nunca acontece e que, no entanto existe, segundo uma certa lógica que é a do pensamento que ela mobiliza em sua mentira fundamental. Trata-se de uma brincadeira, de um jogo de verdades sombrias ou de um baile de máscaras onde, para a surpresa de qualquer curioso incauto, só há mascara por detrás de máscara, “o segredo é que não há segredo”. Há, igualmente, um quê de traição; e assim faz-se uma comédia: finjo ser quem não sou, ou antes, disfarço-me sob a máscara de um outro, de um estranho – um francês que não é francês, que nem mesmo escreve em francês, mas que fora aluno e orientando do Deleuze, escreveu um livro, consagrou-se como filósofo e viveu em Lyon (uma grande cidade francesa). A entrevista tem uma data que não passa de outra faceta da mentira e o entrevistador não passa de um disparate. Nada é o que aparenta ser, ou nada chega mesmo a ser – metamorfoses de Dioniso, o deus mascarado, o deus da multiplicidade. E aí este texto já se torna também uma tragédia. Eu, que vos escrevo, não sou mais do que minhas personagens fictícias; eu sou como eles, minha personalidade é uma máscara que não esconde uma essência, uma natureza, mas dá testemunho de uma verdade cintilante: não há essência ou natureza a ser revelada. Tudo o que há para ver encontra-se na superfície das máscaras sobrepostas, “o mais profundo é a pele”. Quem sou eu? Não importa! Só o devir conta, afinal.

 

 

Jean-Paul Février fala Sobre a Filosofia da Diferença e Sua Irredutibilidade em Relação a Um Ideal Orgíaco Pós-modernista1

 

 

Pierre: O senhor buscou sempre enfatizar que suas pesquisas giram em torno de um conceito como o de Diferença, tal como Deleuze, que foi também seu professor e orientador, o concebia. Todavia, alguns críticos vêem no senhor a marca de um desvio: haveria, aí, uma aproximação perigosa entre a filosofia da diferença e o pós-modernismo. A que se deve tal desvio (se é que se trata de um)?

Continue aqui!

A Falência dos Sistemas e Crise do Saber na Pós-modernidade: Deleuze, Nietzsche e o Rizoma

É um sintoma de nossa época pensar que os sistemas faliram; fala-se, ora com entusiasmo, ora com melancolia, que a época dos grandes sistemas filosóficos já passou e que não retornará. Hoje já não contamos mais com filosofias sistemáticas tais como o cartesianismo, como o leibinizianismo ou como o hegelianismo. Ora, se por um lado, vê-se nessa falência uma possibilidade nova de criação filosófica, por outro, vê-se apenas a chegada de uma época de grande cansaço, de um incomensurável vazio – de niilismo. Comumente se parte de um radicalismo: é o fim das metanarrativas e o conhecimento perdeu o fundamento enquanto noção rigorosa e condição de possibilidade do conhecimento. Aparentemente, a impossibilidade do conhecimento não parece ter a ver com a impossibilidade dos sistemas. Todavia, crê-se que a produção de conhecimento se dá a partir da ideia clássica de sistema. É com dificuldade que se pensa numa filosofia assistemática e são escassos os exemplos na história da filosofia que tenham produzido tal filosofia. Poderíamos citar Nietzsche (1844-1900) como sendo o grande expoente dessa filosofia.

Afastemos de nós tal radicalismo! A filosofia francesa contemporânea tem seus pensadores que souberam sair desse impasse – tudo se passa como se houvesse, de um lado, as metanarrativas e do outro, o relativismo e/ou o subjetivismo. Deleuze (1925-1995) dirá, numa entrevista, que os sistemas não acabaram, é a ideia de sistema que mudou. Fazer sistema é, diz Deleuze, fazer rizoma. Deleuze não cai na armadilha pós-moderna. Mas também não se trata mais, para Deleuze, de pensar o conceito de sistema em termos clássicos, não há um retorno das/às antigas filosofias sistemáticas (embora os cinco volumes dos Mil Platôs apresentem todos os elementos de um tratado clássico de filosofia). É notório que Deleuze está numa relação de ruptura com a velha ideia sobre o que seria fazer filosofia (uma nova imagem do pensamento exige também uma nova prática filosófica). A própria noção deleuzeana de filosofia já é uma originalidade de seu sistema filosófico.

Dissemos que a filosofia nietzscheana é assistemática, mas será necessário agora precisar o sentido que atribuímos a essa assistematicidade. Continue a leitura