Platão e a Arte Mimética

Platão, em seu Livro X, por meio da ruptura entre conhecimento e arte, condena a arte por promover a mimese, que seria como postula Platão, a inversão dos pólos da verdade: enquanto a Filosofia é o conhecimento pautado no verdadeiro, a arte enquanto mimese pauta-se na aparência, elege simulacros da verdade; o imitador, diz Platão, está a três pontos afastado da verdade. Isso significa que a arte enquanto mimese produz o que tem aparência de verdadeiro – não presta contas com a Filosofia e com a verdade da qual a Filosofia é senhora absoluta; daí a recusa de Platão, posto que para o filósofo grego a verdade é o bem mais precioso e útil à sociedade e o bom cultivo da virtude.

Platão não reprime em absoluto a mimese. Mas já se trata de uma outra idéia de mimese que Platão advoga em nome de sua cidade ideal. O próprio Platão faz uso da mimese em seus escritos; ele simula, esconde-se por detrás de seus personagens – Platão que imita Sócrates, que fala através da personagem Sócrates -, como poderia ele negar a mimese? Seria dar um tiro no próprio pé. Trata-se de algo mais profundo o que Platão propõe para resolver o problema.  Citando Platão:

Mesmo assim, diga-se que, se a poesia imitativa voltada para o prazer tiver argumentos para provar que deve estar presente numa cidade bem governada, a receberemos com gosto, pois temos consciência do encantamento que sobre nós exerce; mas seria impiedade trair o que julgamos verdadeiro. Ou não te sentes também seduzido pela poesia, meu amigo, sobretudo quando a contemplas através de Homero?” [A República – Livro X, pág. 306-307]

Platão quer impor condições para a legitimidade da arte dentro da sua cidade ideal, condições essas oriundas de um caráter ético-político do qual a filosofia platônica é parte. Em suma, Platão faz com o a arte o que faz com a política: a submete ao saber filosófico, pois o verdadeiro só pode ser buscado e conquistado por meio da filosofia, e tal como o governante deve ser filósofo para governar segundo o que é verdadeiro e por isso mesmo bom e justo, o artista deve ser também filósofo para que a arte não seja tão-somente um simulacro, e sim, expressão de um saber verdadeiro garantido pela filosofia que se insere na arte para dar-lhe fundamento.

Estudiosos de Platão propõe uma divisão da mimese em duas categorias contrárias entre si: a “boa” mimese e a “má” mimese. A boa mimese seria precisamente aquela praticada por Platão, a mimese que está a favor do verdadeiro, que se submete ao saber científico-filosófico, que se torna serva da razão; enquanto a má mimese seria a dos imitadores (do poeta, do pintor e do escultor), a mimese que produz os simulacros de verdade, que afastam a arte do verdadeiro e a mergulham na ilusão, no sombrio mundo do falso. A arte não pode ficar alheia ao dualismo socrático-platônico: “verdade e mentira”, “bem e mal”, “justo e injusto”, entre outros. É preciso que a arte, como tudo na cidade perfeita idealizada por Platão, fale em nome do verdadeiro, queira, busque e encontre o verdadeiro.

A arte tem uma relação intrínseca com os sentimentos, com a parte irascível da alma. Ela (a arte) é o domínio da paixão e da emoção – compreendemos melhor o porquê da censura platônica da tragédia, onde os homens são tocados pelo sofrimento, pela dor, e Platão, ao contrário, elogia a dureza e a ausência de sensibilidade. Platão quer o verdadeiro, e para isso, para que o método dialético essencial à filosofia alcance o seu propósito último – conquiste o verdadeiro – é preciso que as paixões sejam expurgadas, que elas sejam submetidas a uma tirania promovida pela razão. A razão é a parte da alma que serve à empresa pelo verdadeiro. As paixões impossibilitam a empresa pelo verdadeiro. Platão mesmo deixará isso bem claro ao dizer:

Ora, o que contém material para muita e variada imitação é a parte irascível; ao passo que o caráter sensato e calmo, sempre igual a si mesmo, nem é fácil de imitar nem, quando se imita, é fácil de compreender, sobretudo num festival e perante homens de todas as proveniências, reunidos no teatro. Porquanto essa imitação seria um sofrimento que, para eles, é estranho.” [A República – Livro X, pág. 304]

E prossegue dizendo:

“- É evidente que desde logo que o poeta imitador não nasceu com inclinação  para essa disposição de alma, nem a sua arte foi moldada para lhe agradar, se quiser ser apreciado pela multidão, mas sim com tendência para o caráter arrebatado e variado, devido à facilidade que há em o imitar.” [A República – Livro X, pág. 304]

Concluímos, então, que Platão pretende inserir na arte os desvarios de seu idealismo radical. Como ele não poderia afastar-se de seu ideal de verdade, sendo ainda que sua cidade ideal teria como fundamento tudo o que é verdadeiro (para que se ter o que é bom e justo), não havia outra opção que não a de submeter a arte aos pressupostos de sua filosofia viciada na verdade – num certo ideal de verdade. Quando Platão se utiliza do exemplo da mesa, ele já deixará claro como a arte está afastada da Idéia, e como se sabe muito bem, a Idéia é a única coisa verdadeira, pois criada por Deus e sendo a própria coisa em si. Não nos espantemos, então, com os movimentos perniciosos que Platão faz ao pretender pensar a arte segundo sua lógica idealista. Submeter a arte à verdade segundo o conceito de verdade desenvolvido por Platão em sua filosofia, é tirar da arte tudo aquilo que a define como tal. Nietzsche já dirá, e com muito boa razão, que “temos a arte para não morrer de verdade”. A arte é uma aparência, sim, dirá Nietzsche, mas não porque ela estaria mentindo, escondendo alguma coisa que está no mundo, e sim, porque o próprio mundo é mera aparência. O mundo das aparências é o mundo real, não o mundo verdade do platonismo. Há também verdade na própria mentira – isso Platão não sabia.

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