Algumas considerações #7

A positividade do inconsciente

Botar o inconsciente como antro dos recalques e qualquer outro tipo de falha do inconsciente não só é errado como também é reducionista, pois ele nunca se definiria apenas por tais afetos. É preciso antes de tudo perguntar se tais “recalques” e “falhas” são, de fato, algo pertencente ao negativo, pois não é porque há um fonestema “n” que podemos afirmar ser pertencente ao negativo. Continue

O Macaco de Zaratustra

Hoje, enquanto contemplava minha modesta coleção de livros, senti necessidade de revisitar algum texto de Nietzsche. Peguei logo o Zaratustra e o abri de maneira aleatória. Deparei-me com o capítulo intitulado De Passagem, e comecei a lê-lo, ao mesmo tempo em que me recordava da primeira vez que o havia lido. Notei tão logo me debrucei por sobre o escrito, que eu havia deixado algo passar na primeira vez em que o li – deixei passar o essencial. Livros como Zaratustra requerem sempre uma segunda, um terceira e até mesmo uma quarta leitura para que seja possível beber o máximo. Seria mesmo preciso que eu pegasse o livro e o lesse, mas livre do entusiasmo débil e da velocidade exacerbada com que os jovens de meu tempo costumam fazer toda e qualquer coisa: comer demasiado rápido prejudica a digestão. E passar rápido demais nos faz perder boa parte da paisagem.

O capítulo se inicia quando Zaratustra, ao chegar à porta de uma grande cidade, é surpreendido por um louco feroz, vituperando-se contra toda a cidade. Ele também buscava, em meio aos insultos que lançava, alertar Zaratustra do que ele iria encontrar caso entrasse em tal cidade. O povo da cidade o chamava de “macaco de Zaratustra”, porque “imitava um tanto a forma e a cadência de sua frase e se deliciava também em explorar o tesouro de sua sabedoria” [Assim Falava Zaratustra – pág. 159]. Dizia o louco à Zaratustra coisas do tipo: “Aqui corre sangue pútrido, pobre e espumoso, por todas as veias. Cospe sobre a grande cidade, que é o grande depósito onde se acumulam todos os detritos. Cospe sobre a cidade das almas deprimidas e dos peitos encovados, dos olhos penetrantes e dos dedos viscosos, sobre esta cidade de importunos e impertinentes, de escritorezinhos e de palradores, de ambiciosos exasperados, sobre a cidade onde se reúne o carcomido, cariado, lascivo, sombrio, putrefato, purulento, clandestino, cospe sobre a grande cidade e retorna sobre teus passos!” [Assim Falava Zaratustra – pág. 161]. Mas Zaratustra, depois de ouvi-lo por certo tempo, tomou uma atitude inusitada: tapou-lhe a boca e exigiu que se calasse. Para o desagrado do louco, Zaratustra o repreendeu, igualando-o à decadente cidade.

Por que Zaratustra não corroborou com o discurso enfurecido do louco? Clique e continue