Manifesto à uma Esquerda Porvir: o Porquê de minha Renegação do Marxismo do Ponto de Vista Histórico

      Perguntaram-me certa vez – com estupefação e ódio – o porquê de um homem como eu – anarquista, isto é, de esquerda -, detestar – falo, evidentemente, do leninismo, do trotskismo e do stalinismo – os marxistas; na hora, não ousei responder e simplesmente saí de cena tal qual um lorde inglês que se despede de seus amigos, quando percebe que é hora de partir. Não o fiz por uma única, porém suficiente, razão: abomino responder às questões que me colocam como que num tribunal da Razão. Não se tratava de uma pergunta inocente e/ou curiosa, de alguém que anseia saber algo que, com efeito, não sabe, mas de uma artimanha vingativa de um homem perverso e ressentido… Eu precisava, então, responder, tal como um réu responde às acusações que lhe são feitas por um advogado de acusação. Ele – advogado de acusação e, simultaneamente, juiz e júri -, ouvir-me-ia, mas tão-somente para decretar minha culpa – nada justifica, diria ele, uma tal repugnância e, assim, seria eu necessariamente culpado. Lembro-me de Kafka: a culpa é sempre indubitável.

      Imagino que para ele, eu não passava de um traidor do ideal revolucionário; um garoto burguês mascarado de revolucionário ou mesmo um burguês sem identidade fixa, que busca sua identidade num território que lhe seria estranho; um ardiloso inimigo infiltrado entre seus aliados para fazer frustrar a tão prometida revolução (que nunca vem, tal como o messias dos cristãos); um homem perigoso e de planos perversos etc. Os marxistas mais ortodoxos são paranoicos, assassinos, monstros terríveis com implacável fome de carne humana: devoram aos outros e a si mesmos. E quanto a mim? Uma presa saborosa! Se ele pudesse, executar-me-ia ali mesmo, com toda a frieza de um bom e obediente socialista científico – e ainda gritaria: “Viva a revolução!”.

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Igreja e Estado

Dentre as teses mais difundidas no nicho anarquista encontra-se aquela, oriunda do pensador anarquista Mikhail Bakunin (1814 – 1876), talvez a mais polêmica: um certo ateísmo político,  que tem como axioma a idéia de  conciliação entre poder eclesiástico e poder estatal; uma unidade própria. Não me compete refletir acerca de todas as implicações que tal axioma produz, seria um tema para uma outra postagem – ter-se-ia que escrever todo um tratado para explicitá-la. Mas me vale, como crítico anarquista, indagar: até que ponto Bakunin está certo – se é que está certo – ao pensar uma unidade entre poderes tão distintos – embora possam servir a um mesmo fim, que seria a opressão -, como o é o poder estatal e o eclesiástico?

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