Manifesto à uma Esquerda Porvir: o Porquê de minha Renegação do Marxismo do Ponto de Vista Histórico

      Perguntaram-me certa vez – com estupefação e ódio – o porquê de um homem como eu – anarquista, isto é, de esquerda -, detestar – falo, evidentemente, do leninismo, do trotskismo e do stalinismo – os marxistas; na hora, não ousei responder e simplesmente saí de cena tal qual um lorde inglês que se despede de seus amigos, quando percebe que é hora de partir. Não o fiz por uma única, porém suficiente, razão: abomino responder às questões que me colocam como que num tribunal da Razão. Não se tratava de uma pergunta inocente e/ou curiosa, de alguém que anseia saber algo que, com efeito, não sabe, mas de uma artimanha vingativa de um homem perverso e ressentido… Eu precisava, então, responder, tal como um réu responde às acusações que lhe são feitas por um advogado de acusação. Ele – advogado de acusação e, simultaneamente, juiz e júri -, ouvir-me-ia, mas tão-somente para decretar minha culpa – nada justifica, diria ele, uma tal repugnância e, assim, seria eu necessariamente culpado. Lembro-me de Kafka: a culpa é sempre indubitável.

      Imagino que para ele, eu não passava de um traidor do ideal revolucionário; um garoto burguês mascarado de revolucionário ou mesmo um burguês sem identidade fixa, que busca sua identidade num território que lhe seria estranho; um ardiloso inimigo infiltrado entre seus aliados para fazer frustrar a tão prometida revolução (que nunca vem, tal como o messias dos cristãos); um homem perigoso e de planos perversos etc. Os marxistas mais ortodoxos são paranoicos, assassinos, monstros terríveis com implacável fome de carne humana: devoram aos outros e a si mesmos. E quanto a mim? Uma presa saborosa! Se ele pudesse, executar-me-ia ali mesmo, com toda a frieza de um bom e obediente socialista científico – e ainda gritaria: “Viva a revolução!”.

      Ora, não entendo esse desconhecimento sobre a razão pela qual repugno os marxistas. Não é difícil de saber, a história o mostra muito bem: anarquistas foram torturados e mortos premeditada e sistematicamente pela esquerda marxista dita revolucionária. Se eu, por exemplo, vivesse na Rússia leninista, certamente seria preso, enviado à Sibéria como inimigo do povo, ou seria fuzilado por traição (o fuzilamento foi o destino, inclusive, de muitos marxistas acusados – por vezes sem razão – de traição e insurreição). Os marxistas pedem nosso apoio, nossa amizade, nosso consentimento, nosso respeito, ao mesmo tempo em que nos mataram impiedosamente, ao mesmo tempo em que nos trataram como cães vira-latas indignos de qualquer consideração. Não somos cães! E tampouco somos vossos amigos, senhores marxistas! Jamais seríamos amigos daqueles que nos matam e nos trucidam. Os marxistas têm sobre suas mãos o nosso sangue!

      E a insolência é tamanha, que se ofendem quando declinamos seus pedidos, quando nos recusamos a nos aliar a eles. Dizem que somos seus camaradas. Que piada! Ora, senhores marxistas, desde quando camaradas executam friamente os seus? Não sou aliado de meus algozes. É irrisório! Os anarquistas sonhavam com liberdade, com justiça, com uma sociedade porvir, e deram seu sangue pela revolução… Para quê? Para serem esmagados como formigas pelo exército vermelho. Enquanto eles [os marxistas] não tinham conquistado o controle da máquina estatal, éramos tratados como camaradas, como amigos e aliados, mas tão logo ascenderam ao poder, iniciaram-se as perseguições, os espetáculos públicos de morte que nem mesmo o suplício superaria em horror; as acusações infundadas de traição e assassinato; se nós fracassamos foi graças ao levante comunista contra nós. A revolução anarquista foi duramente rechaçada por aqueles que deveriam apoiá-la e prolongá-la.

      Ora, mas o que se sabe tão bem nos tempos atuais, é que não há aliança possível entre anarquistas e marxistas. O que temos em comum? O inimigo, tão-somente o inimigo. Mas ter um inimigo em comum não basta para que sejamos amigos. Assim, oponho-me ao marxismo, e proponho uma relação com a teoria marxista que não consiste em tornar-se marxista – reitero: falo do leninismo, do stalinismo e do trotskismo. O marxismo esvaziou toda a sua força crítica e revolucionária? Com efeito, não. Mas há de se distinguir a teoria marxista – e o uso que dela se faz – de seus “representantes”, de seus idólatras e seguidores fanáticos. Afinal, já não acreditamos mais no antagonismo de classe, no reducionismo economicista e na ideia de revolução implicada na teoria marxista, ideia essa que já nos levou a muitos disparates.

      À noção de luta de classes opomos a noção de linhas de fuga (conceito deleuzeano utilizado para explicar processos sociais que escapam ao antagonismo de classe preconizado por Marx e pela teoria marxista); ao reducionismo economicista opomos toda sorte de fluxos econômicos, políticos, sociais e libidinais que são irredutíveis à lógica reducionista da economia, os fluxos se entrecruzam, se implicam mutuamente etc.; e, finalmente, à ideia de revolução, opomos a ideia de um devir-revolucionário que de modo algum tem a ver com as revoluções, com seu passado e seu futuro, liberto, então, da estultícia e do disparate. A nova situação política contemporânea – descrita pelos intelectuais contemporâneos, alguns marxistas, como Agamben, Negri e Hardt, como um regime biopolítico – exige-nos uma renovação de nosso aparato teórico-conceitual, bem como das práticas de resistência das quais nos valemos. Isso vale, igualmente, à nova situação na qual se encontra o capitalismo contemporâneo, situação que exige de nós uma nova crítica, adequada às novas configurações do capitalismo desterritorializado da sociedade pós-moderna.

5 thoughts on “Manifesto à uma Esquerda Porvir: o Porquê de minha Renegação do Marxismo do Ponto de Vista Histórico

  1. Não sei se é apenas eu, mas esse post me soa muito como um grito de ressentimento pelo passado. “Eles mataram aqueles que representavam o ideal que eu defendo, vamos odiá-los!”. Penso ser mais que necessário saber beber de todos os vasos (por mais antigos e desusados que eles sejam, pois contribuíram para o que somos, de alguma forma – por isso, ainda hoje, quem estuda psicologia, estuda Freud). Ficar olhando muito para o passado acaba obscurecendo a visão que temos do presente – isso aprendi com Nietzsche em “Da Utilidade e do Inconveniente da História para a Vida”.

    E ainda mais: qualquer fanatismo é penoso, até mesmo a do anarquismo. Ou para usarmos um exemplo mais bacana: lembra-se do caso dos dois jovens (superdotados, aliás) que planejaram um crime…baseados em Nietzsche e sua ideia de além-homem? “Não precisamos de culpa, o além-homem está além disso. Isso é criação da moral judaico-cristã! A culpa, a compaixão, o ressentimento, o altruísmo.” – eis como pensaram. Logo, qualquer fanatismo, e não apenas o fanatismo-marxista, é penoso, sanguinário e injusto.

    Não sei, talvez eu esteja vendo erradamente o que escreveste (mas sei não ter sido o único a pensar assim).

  2. Lendo aqui o comentário do Felipe, achei bem interessante, mas fiquei pensando… será que existe efetivamente justiça? Felipe citou a injustiça como algo ruim, ou como algo que se deseja evitar, a partir disso lembrei-me de um texto de Nietzsche ( autor que foi citado pelo Felipe no seu comentário ) que trata desse tema, ei-lo aqui:

    “Todos os juízos acerca do valor da vida se desenvolveram ilogicamente e são, por isso, injustos. A impureza do juízo encontra-se, em primeiro lugar, na maneira como o material se apresenta, isto é, muito incompleto; em segundo lugar, na maneira como é efetuada a respectiva soma; e, em terceiro lugar, no fato de cada um dos fragmentos do material ser, por seu lado, resultado de um conhecimento impuro e isto, na verdade, de forma absolutamente necessária. Nenhum conhecimento obtido pela experiência acerca, por exemplo, de uma pessoa, por muito perto que esta esteja de nós, pode ser completo, de modo que nós tenhamos um direito lógico a uma avaliação global da mesma. Todas as estimativas são precipitadas e têm de o ser.
    No fim de contas, a medida, com a qual nós medimos, ou seja, o nosso ser, não é uma grandeza invariável; nós temos estados de espírito e oscilações, e, não obstante, deveríamos conhecer-nos a nós próprios como uma medida fixa para podermos avaliar justamente a relação de qualquer coisa conosco. Talvez se conclua de tudo isto que não se deveria julgar de todo em todo; mas se se pudesse sequer viver sem avaliar, sem ter antipatia nem simpatia!… Pois toda a aversão está ligada a uma estimativa, tal qual como toda a inclinação. Uma tendência no sentido de qualquer coisa, ou para longe de qualquer coisa, sem um sentimento de que se quer o proveitoso e se evita o prejudicial, uma tendência sem uma espécie de estimativa diferenciadora quanto ao valor do objetivo não existe no ser humano. Nós somos de antemão seres ilógicos e, por isso, injustos, e podemos reconhecê-lo: esta é uma das maiores e mais insolúveis desarmonias da existência.”

    • Boa citação de “Humano, demasiado humano”. Mas em momento algum eu falei sobre justiça e injustiça (falei ali só numa pequena parte do comentário, mas não num sentido muito amplo, apenas como algo para intensificar o que eu quis dizer no comentário inteiro). O que eu falei: sobre o aparente ressentimento que há no texto do Rico e fanatismo. Falando sobre justiça: eu diria que depende do ponto de vista. Para o Rico, houve injustiça; para os guerreiros vermelhos, não. Não cabe a mim fazer juízo de valor quanto a isso, ainda mais por eu ser apolítico, assim como você. Acho que essa citação serve mais ao texto do RIco.

  3. Ressentimento? Certamente não. Inclusive, não nego a teoria marxista em bloco, como mesmo esclareci neste ponto do texto:

    “Assim, oponho-me ao marxismo, e proponho uma relação com a teoria marxista que não consiste em tornar-se marxista – reitero: falo do leninismo, do stalinismo e do trotskismo. O marxismo esvaziou toda a sua força crítica e revolucionária? Com efeito, não. Mas há de se distinguir a teoria marxista – e o uso que dela se faz – de seus “representantes”, de seus idólatras e seguidores fanáticos.”

    O fato é que as coisas precisam ser postas em seu devido lugar. Nietzsche, num aforismo do “Gaia Ciência” (umap ena eu não estar com o livro aqui), fala contra os mediadores, que visam estabelecer igualdades e consensos. Pelo contrário, Nietzsche esclarece que se trata de ampliar as distâncias, os abismos, de tornar possíveis as boas oposições. É moda atualmente querer que todos sejamos amigos, companheiros etc. E assim passamos por cima de todas as diferenças, de todos os conflitos. Sou contrário a esse movimento moral contemporâneo. Acontece também que não sou, como vocês, apolítico e sustento uma perspectiva política amplamente. Não se trata apenas de “injustiças cometidas no passado”, um marxista ortodoxo, hoje, não é diferente de um marxista ortodoxo de ontem. Tenho um colega marxista e, curiosamente, ele tentou justificar a postura do exército vermelho. Ora, eu não professo um “fanatismo anarquista”, inclusive, tenho severas críticas a fazer ao anarquismo, pois há neles insuficiências, dogmatismos e disparates, tanto quanto em qualquer outra teoria político-social. A minha concepção de revolução já é uma heterodoxia dentro do movimento. Não é à toa que por muitos anarquistas sou considerado um político perigoso. Enlenquei diversos inimigos devido à minha postura crítica diante do anarquismo, que considero necessária.

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