Como a Pós-modernidade Destruiu o Humor: Do Rir do Poder ao Rir com o Poder

Crítica de Nietzsche à Pós-modernidade

Chegou o tempo para que o homem se fixe em um objetivo. Chegou o tempo para que o homem semeie o germe de sua mais elevada esperança. Para isso, seu solo é ainda bastante rico. Mas um dia pobre e árido será esse terreno e nele já não poderá germinar nenhuma grande árvore. […] é preciso ter ainda um caos dentro de si para gerar uma estrela que dança. Isso vos digo: tende ainda um caos dentro de vós. Ai, aproxima-se o tempo em que o homem já não conseguirá gerar estrela alguma. Aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, daquele que já não pode se desprezar a si mesmo. […] Já não se sente necessidade de ser pobre ou rico. São duas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas por demais penosas. Nenhum pastor e um só rebanho. Todos querem a mesma coisa, todos são iguais.” (NETZSCHE, p. 21-22)

 

Como a Pós-modernidade Destruiu o Humor: Do Rir do Poder ao Rir com o Poder


Livremos-nos, antes de darmos início ao tema, de um mal entendido capaz de dificultar a compreensão do que estará sendo dito: quando falo em poder, não me remeto a uma concepção dita tradicional ou jurídica de poder (o poder entendido como soberania, atrelado ao Estado) nem de uma concepção marxista (o poder entendido como possuindo um caráter unicamente repressivo). Trata-se, afinal, de evidenciar a leitura foucaultiana que faço do poder. Ora, como é sabido, o poder em Foucault não é aquilo que se encontraria concentrado no Estado como sendo o seu objeto e produto exclusivo; tampouco é tão-somente o efeito de uma repressão que incide sobre os indivíduos. Isso significa pensar o poder sob o ponto de vista de uma negatividade irremediável, o que não é verdade. Outro ponto: o poder também não é pensado como um objeto do qual um grupo de indivíduos (uma classe ou um partido) ou um único indivíduo (o patrão) teria posse, o que significaria, em outras palavras, pensar o poder como relacional; em suma: o poder é ação, possuindo também um caráter micrológico e positivo. Daí que Foucault permitir-se-á falar em termos de relações de poder (postura absolutamente nietzscheana) e não em termos de titulação (no caso do marxismo: a burguesia como sendo a classe titular do poder).

Escrevi esse primeiro parágrafo no intuito de dizer uma coisa bem simples (e é verdade, o simples nem sempre é fácil de perceber): não me compreendam como o intelectual lamuriento que insiste em repetir a velha e enfadonha choradeira marxista sobre como o poder é perverso, execrável, pernicioso, maquiavélico, malvado etc. Não! Não é isso! O que quero pensar aqui é em como, com o advento da pós-modernidade (1950, por convenção), o humor perdeu todo o seu caráter contestador e denunciador da ordem vigente para tornar-se aquilo de que o poder se serve para mergulhar os indivíduos num sono letárgico (o panem et circen pós-moderno: sexo alucinado, álcool desenfreado e farra contínua, por exemplo). Dizendo de modo mais sucinto: pensar a relação entre humor e poder no cenário pós-moderno a partir da ideia de uma despotencialização do riso.

O fantasma pós-moderno vagueia por todos os âmbitos, desde as ciências, as artes, a filosofia até chegar e engolir a vida quotidiana. Ele vagueia sutil, silencioso, sorrateiro, e não sabemos ao certo como reagir a ele: com um entusiasmo regado a funk, axé, pagode, psi, trance, Sex Shop, pornô e algumas drogas (tudo junto, pois a pós-modernidade é uma geléia onde se pode, ao mesmo tempo, ler Nietzsche e Augusto Cury sem medo de estar cometendo uma barbárie intelectual, em outras palavras: o vale tudo relativista); ou com uma nostalgia crescente dos tempos em que viver ainda valia a pena (saudade da solidez da modernidade onde ainda se podia crer no sentido das coisas: do amor, da amizade, da cultura, da ética, da política etc.). No final das contas, vemo-nos divididos entre pensar a pós-modernidade como a decadência ou a ascensão de um novo homem, de uma nova era para a humanidade saída das ruínas dos edifícios da modernidade.

Em meio a esse caotismo típico da pós-modernidade, o humor não escapa ileso, muito pelo contrário, meus caros! O humor também é engolido pela onda pós-moderna e sua porra-louquice elevada à enésima potência: uma nova maneira de rir caracterizada por uma indiferença absoluta. O motor dessa nova maneira de rir é um pensamento do tipo “que se dane o capitalismo selvagem e a repressão, o comunismo e o anarquismo, a política, a economia e todo o resto”; é o desmoronamento das metanarrativas descrito por Lyotard. Citando um trecho do livro O que é o Pós-moderno:

Desde a Grécia antiga, as filosofias são discursos globais, totalizantes, que procuram os primeiros princípios e os fins últimos para explicar ordenadamente o Universo, a Natureza, o Homem. A pós-modernidade entrou nessa: ela é a valsa do adeus ou o declínio das grandes filosofias explicativas, dos grandes textos esperançosos como o cristianismo (e sua fé na salvação), o Iluminismo (com sua crença na tecnociência e no progresso), o marxismo (com sua aposta numa sociedade comunista). Hoje, os discursos globais e totalizantes quase não atraem ninguém. Dá-se um adeus às ilusões.” (SANTOS, 1987)

Ora, o pós-modernismo “desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas, realidades” (SANTOS, 1987). É o que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman chamará de modernidade líquida. E não poderia ser diferente com o humor e o riso: todo o conteúdo crítico, subversivo, revolucionário do riso esvai-se em muita purpurina e músicas ridículas feitas em micro-computadores (as porcarias que se vê em programas como Zorra Total e Pânico na TV); e não podemos esquecer-nos das personagens extravagantes envolvidas por um ar de imbecilidade proposital (e são de fato imbecis e não apenas enquanto personagens) sabe-se lá porquê…

Deixem-me falar um pouco mais sobre os programas de humor. O Pânico na TV, por exemplo. Esse programa esdrúxulo oscila entre um erotismo promovido pela exibição contínua de belas mulheres seminuas (eis um bom momento para os libertinos me crucificarem e os liberais gritarem “seu moralista!”) e um falatório vazio que visa tão-somente alimentar as cabeças, igualmente vazias, dos seus telespectadores. E você que está lendo este texto, pôs-se a rir? Pois não deveria. Não há nada de engraçado nisso, ou ao menos não deveria haver. Pois a comédia de hoje será a tragédia de amanhã! Ouso fazer-me aqui de “vidente”, correndo o risco de ser linchado pelos macacos drogados pós-modernos que vêem nessa nova onda um grande barato. E que me chamem de pessimista!

Ah, outra coisa! Se você, caro leitor, é um pós-moderno e está bufando de ódio em razão das críticas que lanço mão neste texto, saiba do seguinte: que estou a rir, ou melhor, a gargalhar, de sua cólera!

Deleuze, filósofo que aprecio principalmente pelo fato de compor a linha de frente contra o pós-modernismo e o contágio niilista que ele promove, falava, na década de 60, em como se peca ao negligenciar a potência e o gênio cômicos de um autor. Essa potência e esse gênio dão testemunho do que, num determinado autor, pode-se chamar de sua eficácia anti-conformista1. Falemos de Kafka: sabemos muito bem o quão tenebroso é o universo kafkiano e o que constitui, nesse universo, o alvo de suas críticas. Mesmo assim, conta-se que quando Kafka lia O Processo, o público punha-se a rir. E isso de nada tem a ver com uma forma de depreciar a obra do autor. Ao contrário, é precisamente essa comicidade que expressa sua grandeza. Falemos de outro autor, agora filósofo: Nietzsche. Quem nunca riu ao ler alguma de suas obras não o leu verdadeiramente – permaneceu-se demasiado encoberto pelo espírito do sério, algo que o próprio autor denunciava2. Valho-me de um terceiro exemplo: Voltaire. Quem nunca leu seu romance Cândido ou o Otimismo e não riu da maneira trocista com que ele critica o otimismo filosófico, perdeu o essencial. É verdade que os acontecimentos envolvendo Cândido são terríveis e brutais, só que mesmo assim Voltaire nos provoca o riso e não o sentimento incômodo de quem está a ler páginas pouco ou nada agradáveis. Voltaire é um desses autores que fazem do riso uma arma contra o dogmatismo, contra o status quo. Com efeito, não se trata do mesmo humor, do mesmo riso, que se vê espetacularizado nos outdoors, nas campanhas publicitárias, na TV e na internet. E como poderia sê-lo, se o pós-modernismo, “sempre satírico, pasticheiro e sem esperança” (SANTOS, 1987), envenena tudo o que toca?

Falemos de um humor conformista par excellence, que ao invés de introduzir no pensamento uma positividade e uma atividade, introduzi-lhe-á uma imobilidade, uma apatia, um fastio, um profundo desprezo pelo querer. Tem-se a impressão de sair do lugar, mas é tão-somente o efeito do simulacro pós-moderno – no final das contas apenas flutuamos entre micro chips, vibradores, imagens, signos que vêm de todos os lados, propagandas, embalagens comerciais, novelas, futebol, cerveja, cifras, dígitos, cartões de crédito etc. Os pós-modernistas “querem rir levianamente de tudo” (SANTOS, 1987), e não há nada tão venenoso quanto o riso mal empregado, o riso irrefletido; o riso que se ri por rir (o riso pelo riso, a marca do niilismo no humor!). Que se ria! Ora, nada há de mal nisso. Mas perguntemos antes qual a natureza desse riso. Seria o efeito de um devir-ativo das forças ou de um devir-reativo (pergunta de inspiração nietzscheana)? Que digam “vejam, ele quer acabar com o humor”, sei bem que estarão todos errados. Como poderia eu acabar com algo que já foi acabado? A pós-modernidade já fez o trabalho! Será que não percebem? Ai! Esses pós-modernistas, sempre desatentos. Nem imaginam que estão a pisar em cadáveres!

 

Referências Bibliográficas:

 

DELEUZE, Gilles. A Ilha Deserta: e Outros Textos. São Paulo: Ed. Iluminuras Ltda., 2006

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. São Paulo: Ed. Escala. 2ª edição.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2ª Edição, 2008

SANTOS, Jair Ferreira. O que é pós-moderno. Ed. Brasiliense, 1987

 

Notas:

1: Arriscamo-nos de duas maneiras a ignorar um grande autor. Por exemplo, ao desconhecer sua lógica profunda ou o caráter sistemático de sua obra. (Falamos, então, de suas, “incoerências”, como se elas nos dessem um prazer superior) Ou, de outro modo, ao ignorar sua potência e seu gênio cômicos, de onde a obra retira geralmente o máximo de sua eficácia anticonformista. (Preferimos falar das angústias e do aspecto trágico.) Na verdade, não se pode admirar Kafka sem rirmos ao lê-lo. Estas duas regras valem eminentemente para Rousseau. (DELEUZE, Gilles in “A Ilha Deserta: e Outros Textos”. São Paulo: Ed. Iluminuras Ltda., 2006, pág. 71)

2: 327 – Tomar a sério – O intelecto da maioria das pessoas é uma máquina pesada, sombria e rangente, difícil de pôr em movimento. Quando querem trabalhar com ela e pensar bem, chamam a isto “tomar a coisa a sério”… Oh! Como deve ser difícil para eles o pensar bem! Em se tratando disso a graciosa besta humana perde todo o seu bom humor, ao que parece: torna-se “séria”! “E onde se ri, onde se diverte, o pensamento não vale grande coisa”, tal é o preconceito desse grave animal a respeito de qualquer “gaia ciência”. Pois bem! Mostremos-lhe que se trata de um preconceito! (NIETZSCHE, Friedrich in “A Gaia Ciência”. São Paulo: Ed. Martin Claret. 2ª edição, 2008, pág. 167)

2 thoughts on “Como a Pós-modernidade Destruiu o Humor: Do Rir do Poder ao Rir com o Poder

  1. O riso…ainda farei, quem sabe, um estudo acerca de como ele age em meio aos pós-modernos, meus ratos decadentes.

    Uma coisa é interessante: é comprovado, antropologicamente, que o riso é contagiante: houve um episódio em que uma vila ou bairro, não me lembro, inteiro se pôs a rir sem motivo algum, justamente porque algumas pessoas começaram a rir do nada. Ou seja, a partir de tal referência, temos a seguinte conclusão: o riso tolo foi contagiado pela massa que assiste ao programa para todos, influenciando-os a assistir ao programa; difícil e tortuoso o fugir de tal, uma vez que, numa visão, não totalmente, behaviorista, nós somos seres, não totalmente, manipuláveis pelo meio: se o imbecil reina no meio, acabamos por interiorizar o pouco do imbecil; tortuoso e dificílimo o não se influenciar: precisa-se de uma boa mente.

    Bom post, boa crítica.

  2. Porém, eu espero que você não esteja generalizando, pois há um tipo de comédia que é bastante denunciador e que traz à tona a risada pela verdade, tal qual é o caso do, já falecido, George Carlin e, do meu querido, Adult Swim.

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