A Falência dos Sistemas e Crise do Saber na Pós-modernidade: Deleuze, Nietzsche e o Rizoma

É um sintoma de nossa época pensar que os sistemas faliram; fala-se, ora com entusiasmo, ora com melancolia, que a época dos grandes sistemas filosóficos já passou e que não retornará. Hoje já não contamos mais com filosofias sistemáticas tais como o cartesianismo, como o leibinizianismo ou como o hegelianismo. Ora, se por um lado, vê-se nessa falência uma possibilidade nova de criação filosófica, por outro, vê-se apenas a chegada de uma época de grande cansaço, de um incomensurável vazio – de niilismo. Comumente se parte de um radicalismo: é o fim das metanarrativas e o conhecimento perdeu o fundamento enquanto noção rigorosa e condição de possibilidade do conhecimento. Aparentemente, a impossibilidade do conhecimento não parece ter a ver com a impossibilidade dos sistemas. Todavia, crê-se que a produção de conhecimento se dá a partir da ideia clássica de sistema. É com dificuldade que se pensa numa filosofia assistemática e são escassos os exemplos na história da filosofia que tenham produzido tal filosofia. Poderíamos citar Nietzsche (1844-1900) como sendo o grande expoente dessa filosofia.

Afastemos de nós tal radicalismo! A filosofia francesa contemporânea tem seus pensadores que souberam sair desse impasse – tudo se passa como se houvesse, de um lado, as metanarrativas e do outro, o relativismo e/ou o subjetivismo. Deleuze (1925-1995) dirá, numa entrevista, que os sistemas não acabaram, é a ideia de sistema que mudou. Fazer sistema é, diz Deleuze, fazer rizoma. Deleuze não cai na armadilha pós-moderna. Mas também não se trata mais, para Deleuze, de pensar o conceito de sistema em termos clássicos, não há um retorno das/às antigas filosofias sistemáticas (embora os cinco volumes dos Mil Platôs apresentem todos os elementos de um tratado clássico de filosofia). É notório que Deleuze está numa relação de ruptura com a velha ideia sobre o que seria fazer filosofia (uma nova imagem do pensamento exige também uma nova prática filosófica). A própria noção deleuzeana de filosofia já é uma originalidade de seu sistema filosófico.

Dissemos que a filosofia nietzscheana é assistemática, mas será necessário agora precisar o sentido que atribuímos a essa assistematicidade. É bem conhecida a máxima na qual Nietzsche recusa a sistematicidade (NIETZSCHE, p. 20). Todavia, qual o grau ou o sentido dessa assistematicidade? Quando falamos em assistematicidade, o que estamos querendo dizer realmente é que o modo pelo qual Nietzsche concebe a sistematicidade distingui-se da sistematicidade clássica das filosofias que o precederam (notadamente o cartesianismo, o kantismo, o hegelianismo etc.). Tal é a razão pela qual Deleuze diz que não se lê Nietzsche como se lê os filósofos de tradição – um Descartes ou um Kant, ou ainda um Hegel. Então, quer dizer que Nietzsche é um filósofo sistemático? E se o é, em qual medida? A filosofia nietzscheana é uma filosofia fragmentária, o aforismo é um fragmento. A assistematicidade de Nietzsche consiste em não haver um liame necessário entre cada aforismo, ou mesmo entre cada livro. Objetar-se-á que há sim conexões fundamentais entre um livro e outro, por exemplo, o tema da moral, da genealogia da moral e de sua novidade metodológica, que aparece, pelo menos, em três livros1, mas aí já não se trata da mesma coisa. São intensidades que atravessam dois ou mais livros. Isso não testemunha em favor de uma “evolução”, de um “progresso”, mas de intensidades que estão em relação direta com os aforismos, mesmo os aforismos mais afastados – a distância entre um livro e outro, entre um primeiro e um quinto livro -; somente assim se compreende em que sentido Nietzsche não é sistemático. Os aforismos são coextensivos.

Deleuze situa-se na tradição nietzscheana, na qual aparece, quiçá pela primeira vez, uma ideia nova de sistema; a filosofia nietzscheana é rizomática e se o rizoma é um sistema, ele o é na medida de sua originalidade: um “sistema aberto” em oposição a um “sistema fechado”. Por que dizemos que o rizoma é um sistema aberto? Porque, diferentemente do sistema fechado, que nos submete à tirania da interioridade, ele permite-nos “pensar ao ar livre” – dito rigorosamente: garante-nos uma liberdade que é a da exterioridade, de uma relação essencial e positiva com o fora; é possível entrar e sair do rizoma, pois o rizoma é constituído de múltiplas entradas e saídas, de modo que não se pode dizer que há tão-somente uma única via de acesso à determinada filosofia. É esse o caso de Nietzsche: com ele, aprendemos que o aforismo é submetido a uma tal violência – anarquia coroada, como chamará Deleuze – que a lógica linear e desenvolvimentista dos sistemas fechados deixa de funcionar – ela se torna, é verdade, um empecilho à leitura do texto nietzscheano.

Pode-se abrir um livro de Nietzsche ao acaso e mesmo assim não correr o risco de estar cometendo algum tipo de falta para com o autor. Cada aforismo, enquanto fragmento, adquire uma certa autonomia em relação ao restante do livro. É claro que se pode – e deve – conectar um aforismo a outro, mas tal ligação ocorre ao acaso, ela é contingente. Questão de agenciamento, de maquinação, não de interpretação. Jamais se perguntará o que um aforismo quer dizer ou o que ele significa (ausente de significante tanto quanto de significado), mas como ele funciona, como ele se liga a uma outra máquina e faz então com que algo de novo passe entre os pólos (DELEUZE, 2006, pp. 323-324). Ora, como diz Deleuze, “qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo” (DELEUZE & GUATTARI, 1995, p. 15). Um aforismo é um tal ponto – ou um conjunto móvel de pontos -, que não tem um sentido em si mesmo, de acordo com uma progressão, mas que depende de forças que vem de fora, que o subjugam e que o põem em movimento, que o animam; “um aforismo é um jogo de forças, um estado de forças sempre exteriores umas às outras” (DELEUZE, 2006, p. 323). Segundo Deleuze, um aforismo é uma “máquina de produção de sentidos”; uma máquina conecta-se, só e somente só, a uma outra máquina – agenciamentos maquínicos que enquanto tais fazem com que alguma coisa passe. Assim o aforismo se caracterizará por duas relações essenciais: relação com a exterioridade e relação com o intensivo. O aforismo enquanto campo intensivo. Pode-se entrar na obra de Nietzsche por qualquer lado, “um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo” (DELEUZE & GUATTARI, 1995), nova imagem do pensamento ou pensamento sem imagem.

Não nos interessa a questão concernente à suposta “morte” dos sistemas. É verdade que tal morte é um sintoma da crise do saber na pós-modernidade, mas para nós, essa morte, tal como ela é concebida no interior do discurso pós-modernista constitui um falso problema, uma questão não apenas inútil mas inverossímil. Nem relativismo nem subjetivismo, e sim rizoma. Fazer sistema é fazer rizoma. Não é por acaso que para alguns Deleuze foi o filósofo que soube prever alguns impasses da pós-modernidade e construir uma filosofia capaz de superá-los antes mesmo de eles se colocarem explicitamente (minha tese é a de que Deleuze não é um pós-moderno e que se localiza num ponto contrário à pós-modernidade e seu niilismo transvestido de liberdade). O rizoma é uma resposta à parvoíce pós-moderna, com seu niilismo, com seu gosto perverso pela pura destruição, “não há boa destruição sem amor”. Nietzsche é o filósofo do rizoma, o nômade, que fala por aforismos, em outras palavras, por intensidades. Já Descartes, in exemplo, é o grande filósofo da interioridade. Nele não há rizoma, mas árvore – a grande inimiga do rizoma, a imagem moral ou dogmática do pensamento. Se pensarmos no cogito cartesiano como o fundamento do qual se parte e em torno do qual se constrói toda a filosofia cartesiana, não há rizoma e seria forçoso dizermos que o há. O cogito será sempre o tronco, ou a raiz. Não se pode fazer com Descartes o que se faz com Nietzsche: em Descartes há um começo bem como um fim; há também a ideia de fundamento, contrária ao rizoma2; existe um método a ser seguido rigorosamente de acordo com uma linha evolutiva – por exemplo, vai-se da dúvida à certeza, a uma única certeza que fundaria todas as conclusões posteriores: “penso, logo existo”.

Não é contra a ideia de sistema que se luta, mas contra uma certa ideia de sistema marcada por certos perigos, prejuízos, empecilhos ao próprio exercício do pensamento e à criação filosófica. Mil Platôs (1980) constitui um sistema intensivo. Cada platô designa não capítulos, mas “zonas de intensidade contínua”; eles [os platôs] fazem ou não passar alguma coisa, de acordo com seus fluxos, corte-fluxos, conexões e desligamentos. Compreende-se assim o porquê de se deixar de lado o problema da “morte dos sistemas”. Não é isso que importa. Importa, sim: o sistema e seu devir. À questão “Os sistemas faliram?”, respondemos: “vocês estão fazendo a pergunta errada, vocês não sabem bem qual é o problema e por isso se debatem numa questão inócua”. Evitamos os falsos problemas. Ora, deve-se indagar em que medida um determinado problema é interessante. O rizoma opõe-se à árvore, e assim se instaura uma nova forma de pensamento. E não é essa a tarefa atual da filosofia? A de explorar novos modos de pensamento, novos ideias sobre o que significa pensar?

Notas:

1: Seria interessante observar como o tema da moral e do método genealógico aparecem no livro Humano, Demasiado Humano, em A Gaia Ciência e em A Genealogia da Moral. Nesses três livros – inscritos numa série cronológica –, encontramos elementos constitutivos da originalidade de Nietzsche no que tange à genealogia da moral.

2: DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix in “Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 1”, p. 37. “Fazer tabula rasa, partir ou repartir do zero, buscar um começo, ou um fundamento, implicam uma falsa concepção da viagem ou do movimento (metódico, pedagógico, iniciático, simbólico…). (…) partir do meio, pelo meio, entrar e sair, não começar nem terminar. Mas ainda, é a literatura americana, e já inglesa, que manifestaram esse sentido rizomático, souberam mover-se entre as coisas, instaurar uma lógica do E, reverter a ontologia, destituir o fundamento, anular fim e começo. Elas souberam fazer uma pragmática. É que o meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade.”

Referências Bibliográficas:

DELEUZE, Gilles. A Ilha Deserta: e Outros Textos. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2006

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil Platôs:Capitalismo e Esquizofrenia vol. 1. São Paulo: Ed. 34 Ltda., 1995

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Ed. Escala.

3 thoughts on “A Falência dos Sistemas e Crise do Saber na Pós-modernidade: Deleuze, Nietzsche e o Rizoma

  1. Muito bom o Texto, Rico. Devo parabenizá-lo por ter mostrado argumentos realmente firmes.
    Concordo que há realmente a mudança, a forma diferente do saber pós-modernista.
    É o mesmo quando vemos uma criança e um adulto. Eles continuam sendo seres humanos, apesar dos conceitos, formas e fisiologias terem mudado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s