O Macaco de Zaratustra

Hoje, enquanto contemplava minha modesta coleção de livros, senti necessidade de revisitar algum texto de Nietzsche. Peguei logo o Zaratustra e o abri de maneira aleatória. Deparei-me com o capítulo intitulado De Passagem, e comecei a lê-lo, ao mesmo tempo em que me recordava da primeira vez que o havia lido. Notei tão logo me debrucei por sobre o escrito, que eu havia deixado algo passar na primeira vez em que o li – deixei passar o essencial. Livros como Zaratustra requerem sempre uma segunda, um terceira e até mesmo uma quarta leitura para que seja possível beber o máximo. Seria mesmo preciso que eu pegasse o livro e o lesse, mas livre do entusiasmo débil e da velocidade exacerbada com que os jovens de meu tempo costumam fazer toda e qualquer coisa: comer demasiado rápido prejudica a digestão. E passar rápido demais nos faz perder boa parte da paisagem.

O capítulo se inicia quando Zaratustra, ao chegar à porta de uma grande cidade, é surpreendido por um louco feroz, vituperando-se contra toda a cidade. Ele também buscava, em meio aos insultos que lançava, alertar Zaratustra do que ele iria encontrar caso entrasse em tal cidade. O povo da cidade o chamava de “macaco de Zaratustra”, porque “imitava um tanto a forma e a cadência de sua frase e se deliciava também em explorar o tesouro de sua sabedoria” [Assim Falava Zaratustra – pág. 159]. Dizia o louco à Zaratustra coisas do tipo: “Aqui corre sangue pútrido, pobre e espumoso, por todas as veias. Cospe sobre a grande cidade, que é o grande depósito onde se acumulam todos os detritos. Cospe sobre a cidade das almas deprimidas e dos peitos encovados, dos olhos penetrantes e dos dedos viscosos, sobre esta cidade de importunos e impertinentes, de escritorezinhos e de palradores, de ambiciosos exasperados, sobre a cidade onde se reúne o carcomido, cariado, lascivo, sombrio, putrefato, purulento, clandestino, cospe sobre a grande cidade e retorna sobre teus passos!” [Assim Falava Zaratustra – pág. 161]. Mas Zaratustra, depois de ouvi-lo por certo tempo, tomou uma atitude inusitada: tapou-lhe a boca e exigiu que se calasse. Para o desagrado do louco, Zaratustra o repreendeu, igualando-o à decadente cidade.

Por que Zaratustra não corroborou com o discurso enfurecido do louco? O que há entre o discurso de Zaratustra e o discurso do louco, que os distingue? Seria preciso retomar aquilo que Deleuze (1925 – 1995) tentará resolver em vários momentos (notadamente em seu livro Nietzsche e a Filosofia): o Sim e o Não de Zaratustra não são – eles são tipológica e topologicamente distintos – o mesmo Sim e o mesmo Não da canalha, do rebanho. O grande erro do louco é que o seu Não, por ser distinto do Não de Zaratustra, faz tão somente o trabalho do negativo. Ele só sabe negar. O Louco não afirma nada, apenas nega aquilo que o desagrada – ele nega aquilo que ele não é ao mesmo tempo em que nega a afirmação como qualidade da vontade de poder. Nesse sentido, o louco não se distingue do padre que odiando a vida a amaldiçoa. Em termos nietzscheanos, ele não cria nada acima e para além de si mesmo. Ele não é um afirmador – dionisíaco –, mas, antes, um negador patético e medíocre. Por conseguinte, ele também faz parte da canalha; isso permite que Zaratustra indague-lhe: “por que tens vivido tanto tempo à beira do pântano, a ponto de tu mesmo te converteres em rã e sapo?” [Assim Falava Zaratustra – pág. 161]. Eis o significado do simbolismo de Nietzsche.

Zaratustra, num dado momento, dirá algo esclarecedor: “só do amor há de surgir meu desdém e minha ave anunciadora; não do pântano” [Assim Falava Zaratustra – pág. 161]. Quando Zaratustra fala de amor, certamente que não se trata do amor no sentido cristão – é outra coisa mais profunda, o que pode-se notar quando Nietzsche, em diversos momentos, falará em amar como um outro amor. Quer dizer que o desdém (ou a negação) de Zaratustra vem depois da afirmação (como dirá Deleuze, a negação é apenas um “luxo” propiciado pela afirmação), que é justamente o amor àquilo que se cria. A negação do louco é o puro ódio, é a negação perversa (a negação que se faz primeira e que se encerra em si mesma). Não há aí uma negação que tem sua natureza na afirmação de algo superior, na criação de algo acima e além de si mesmo, como no caso do Zaratustra. Não é fortuitamente que o povo batizará o louco de “macaco de Zaratustra”; acontece que ele tenta ser como Zaratustra, mas não aprendeu ainda suas lições, não aprendeu que para negar é preciso, primeiramente, afirmar, e que o ódio é apenas aquilo que consome os espíritos livres. O louco aprendeu apenas a caluniar, a sentir repugnância por aquilo que a ele se opõem e não é isso que Zaratustra ensina, por isso que “ainda que tivesse mil vezes razão a palavra de Zaratustra, tu sempre a tirarias, usando minhas próprias palavras” [Assim Falava Zaratustra – pág. 161].

O que motiva o louco é a vontade ou o instinto de vingança, mas a vingança nada mais é do que a consequência da alma tomada pelo ressentimento (lembremo-nos, acerca da Genealogia da Moral, o que Nietzsche assinala como sendo a vingança escrava contra os senhores). Quando Zaratustra o taxa de “suíno grunhidor”, ele está caracterizando a figura do homem do ressentimento: “primeiro, quem foi que te fez grunhir? Não te adularam o bastante. Por isso sentaste ao lado dessas imundícies, a fim de teres numerosas razões de vingança” [Assim Falava Zaratustra – pág. 161]. O louco caluniou toda a cidade porque não foi ouvido, porque não foi adorado por aqueles que ele esperava que o adorassem. O louco, assim, passa a ser o homem da reação, que antes de repugnar por ter criado e afirmado, sente repugnância por não ter sido aceito, acolhido pelo populacho. O “suíno grunhidor” é o animal do ressentimento. O ensinamento final de Zaratustra é essencial para se compreender isso. Quando Zaratustra diz que “onde já não se pode amar, deve-se passar” [Assim Falava Zaratustra – pág. 162], ele está dizendo que aquilo que não amamos não tem o direito nem mesmo ao nosso ódio (que nada mais seria que a postura do homem do ressentimento). Devemos, então, “passar” por aquilo que não amamos, e devemos “parar” apenas onde de fato amamos, tal como Zaratustra o fez quando, logo depois de ter falado com o louco, passou adiante, rumo a sua caverna, sem pronunciar uma só palavra contra aquela cidade que ele repugnava.

Nietzsche quer afastar o homem do ressentimento de sua filosofia. Se a característica mais evidente da filosofia nietzscheana é a de ter dado primazia à afirmação e à criação (o aspecto dionisíaco), em detrimento da negação, do ressentimento, do niilismo, é preciso que se coloque à vista aquilo que distingue uma postura da outra. Nietzsche não poderia permitir que sua filosofia se confundisse com o pensamento do rebanho, daquilo que ele mesmo tem repugnância, e através de Zaratustra, do simbolismo que se encontra em Zaratustra, seu personagem conceitual mais célebre, ele nos alertará para essa diferença. Este é, de longe, um dos capítulos mais importantes para se compreender a filosofia nietzscheana sem transformá-la num mugido de rebanho.

6 thoughts on “O Macaco de Zaratustra

  1. A cada vez que alguém menciona este livro, sinto-me na obrigação de lê-lo o quanto antes. Não só por ser do Nit, mas também por toda essa riqueza de possíveis interpretações, de meados ou de fios que podem ser ligados uns aos outros, ou a qualquer outro tipo de entrada, de novas idéias, de novas interpretações. Essa… é com certeza uma das maiores “graças” da Arte.

  2. Muito bom seu texto, excelente para fazer justiça a Nietzsche, para não o tomarmos por outro, como ele disse em Ecce Homo. A filosofia de Nietzsche é ativa, não reativa. Afirmação acima de tudo, que fique longe o ressentimento.

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