A poesia Alemã

Landscape, de Hesse

Há alguns dias, comecei a ler uma breve antologia que mostrava poucos dos milhares de poemas Alemães. Na capa, a dócil aquarela de Hesse que pintou a delicadeza das casas alemães em 1919.

Entretanto, a dor lancinante da segunda guerra mundial de ver uma pátria que já não existe mais, uma Alemanha dividida e diminuida. Brecht foi um dos que sobreviveu; fora banido pelos Nazistas, consideravam sua obra decadente. Brecht voltou à Alemanha em 1946, e neste período começou a escrever suas melhores obras. Com linguagem forte, ele desenvolveu um estilo peculiar misturando o lírico e o popular, a balada com o folclore, inspirado nas filosofias orientais e na doutrina do Marxismo.

Brecht dedicou um poema a nós, “os que viemos depois dele”

A aqueles que vêm depois de mim
Bertolt Brecht

“Realmente, eu vivo em tempos tenebrosos
A palavra sem malícia é tola. Uma testa lisa
Significa só insensibilidade. Aquele que ri,
Ri porque ainda não soube da tétrica nova

Que tempos são estes
Em que falar das árvores parece ser crime
Porque impede falar sobre as inquidades.
Aquele que lá atravessa a rua
Provavelmente já está fora do alcance
Dos amigos que estão na miséria

É verdade! Ainda ganho meu sustento.
Mas acreditem: Isto é mero acaso.
Nada que faço me autoriza
A comer até saciar minha fome.
Só por acaso eu fui poupado.
(E quando a sorte acabar, estarei perdido.)

Eles me dizem: Come e bebe e te alegra que tu o podes!

Mas como posso comer e beber se com isto eu tiro
Do faminto aquilo que como,
e se meu copo d’água
Faz falta a um sedento?
E ainda assim eu como e bebo

Eu também gostaria de ser sábio
Nos velhos livros dizem o que é ser sábio:
Manter-se alheio aos conflitos do mundo
E passar o breve tempo sem medo.
Agir sem violência,
Pegar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los;
Isto é sábio.
É o que não consigo!
Realmente, eu vivo em tempos tenebrosos.”

Tempos tenebrosos, de fato… pós segunda guerra mundial.

Outro poeta a ser citado é Gottfried Benn, ele era médico (e poeta, é claro), presenciou o sofrimento humano nas suas formas mais terríveis durante sua longa atuação na Santa Casa de Berlim. Sua poesia traduz um forte sentimento de compaixão e de revolta desprezada contra o trágico da vida e a imensa insensibilidade para com a natureza e da natureza.

Retirado do Poema “Fragmentos”:

“Crises de expressão e ataques de erótica:
é isto o homem de hoje,
por dentro um vácuo,
a continuidade da personalidade
é assegurada pelos ternos
que feitos com tecido bom,
podem durar dez anos.

O resto são fragmentos,
meios tons,
tentativas de melodias na casa vizinha,
spirituals de negros
ou Ave Maria.”

E por fim:

Aquarela no. 7 de Hesse

Aqui não há consolo
Gottfried Benn

“Ninguém será minha beira de estrada;
deixe que tuas flores murchem,
meu caminho ondeia e segue só.

Duas mão são conchas por demais pequenas,
um coração é um outeiro muito baixo
para nele repousar.

Sabe, eu vivo sempre na praia
e sob a chuva de flores que tomba do mar.
O Egito se encontra à minha frente
e a Ásia aponta.

Um de meus braços sempre está no fogo.
Meu sangue é cinza. Passando por seios e ossaturas
Sempre soluço para as Ilhas Tirenas:

Desaponta um vale com álamos brancos,
um Illiso com beiras de prados verdes,
Éden e Adão e uma terra
composta de niilismo e música.”

“Hier ist kein Trost”

Uma música que fiz para os poetas alemães pós-guerra.

9 thoughts on “A poesia Alemã

  1. Em um das minhas aulas extracurriculares da faculdade, eu estou vendo sobre o relato das crianças sobre o holocausto. Na aula atrasada, nós vimos alguns poemas e desenhos das crianças de um dos guetos. Muito interessante algumas poesias, que retratavam as condições e o que elas sentiam por estarem separadas de seus pais.

    Muito foda mesmo ^^

  2. Meus agradecimentos, Vittie. Várias vezes procurei essa tradução do poema “Àqueles que vêm depois de mim” (especificamente essa tradução), que conheci no início da adolescência, num quadro que um parente tinha, e nunca mais esqueci. Vou colocar no meu blog, espero que vocês não se importem. Você pode passar a referência bibliográfica dessa antologia?

    • Que maravilha poder ajudar-te a relembrar tal obra então!

      E não há problemas, podes postar onde quiser!🙂

      E eu não achei a referência bibliográfica aqui. :3

      • Oi Vittie. Que pena que você não se lembra dos dados do livro onde leu esta tradução… Nem da editora? Nem do nome do tradutor?

        Bom, o trecho postado aqui ajudou muito, acho que finalmente deu para reconstruir tudo, a partir da memória + outras traduções na web.

        Quando quiser revisitar o poema completo, está lá no blog, willkommen e danke!

  3. O que eu conseguir achar, mandar-te-ei, Ani. Por ora fica o meu agradecimento pelo contato e pela leitura.

    Retribuirei a visita.

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