Livre arbítrio?

Estou devendo esse texto pro Felipe há muito, muito tempo. E sempre que ele me cobrara arranjara algum jeito de esquivar-me. Entretanto há algo além de que nisso. Até mesmo como um desabafo, precisei colocar pra fora algo que há muito mais tempo me consumiu durante as aulas de análise comportamental e antropologia (lembrando que são aulas distintas) e se converteu numa grande resolução de idéias que, embora não tenham nada de “cientifico” se mostraram válidas, pelo menos para uma reflexão. Não são ideias totalmente inéditas (claro, pois, como defende a própria tese, sempre há algo, um motivo, um pensamento, algo em que se basear que nos anteceda) mas nos trazem a tona algo bem diferente daquilo descrito e defendido em nossa sociedade pelo senso comum. Então eu coloco que disposição a seguinte frase-chave que nos serve de base para todo o texto:

LIVRE ARBITRIO PARA QUE?

Em algum momento de sua vida vc acreditou possuir livre arbítrio? Você acredita que seje capaz de tomar suas decisões baseadas na sua própria vontade? Você acredita que é livre para escolher o que seria melhor para você? Que suas roupas, seu gosto, seu estilo e ate mesmo quem você é, são escolhas unicamente suas? Clique e leia

E depois de tantos anos…

…eu apenas lembro de uma garotinha no auge de seus quatro ou cinco anos parada entre os armários, em frente à porta, olhando estatelada para a cena. Entre gritos e sussurros ou gemidos de dor a palhaçada já estava feita e o circo já estava armado.
Ele pegou com tremenda força Anita e jogou a entre a porta do outro quarto e a cama. Ela tentou correr para o corredor mas foi puxada com força para o chão. Entre tremenda violência, arrancou-lhe a roupa e deu lhe um tapa na cara. Imobilizada, segurada pelos braços, foi forçada a se despir por inteiro enquanto tentava se soltar.
‘Me larga, animal!’ ‘Por favor, pare com isso!’ ‘Me deixe em paz José Afonso, por favor vá embora!’
Nada. Gritos em vão.
Ele tirou algo de dentro das calças que Amanda desconhecia e enfiou lhe, naquele lugar que mamãe dizia ser proibido mostrar para estranhos. Um gemido de dor ecoou pela casa vazia enquanto Amanda se recolheu rapidamente para dentro do quarto e trancou lhe a porta. De dentro do armário conseguia ouvir claramente mais gritos e o que parecia ser barulhos de tapas e esmurrões.
“Vadia, agora você vai ver do que você gosta, não é isso que você quer dos outros? Pois é isso o que vai ter de mim!” “Vadia, vagabunda, piranha, mulher de todos os homens.” “Cachorra, prostituta, safada, isso é pra você aprender a não se meter mais com cabra safado.” “E agora, você tá gostando também, está?’.

‘Papai sempre ficava assim quando bebia. E batia na mamãe e na gente. Hoje ele foi me bater mas mamãe não deixou e ficou assim: ‘Por minha culpa’, pensei.
Depois um silêncio profundo. E a escuridão do armário que me consumia por inteiro, tão pequena para suportar tamanha dor. A escuridão do armário é a minha dor. É fria ameaçadora, escura, profunda. Não consigo enxergar mais nada. Queria poder fazer algo por mamãe mas temo que papai faça isso comigo também. E me batesse daquele jeito e enfie aquele troço esquisito em mim.
Não sei quanto tempo fiquei presa no quarto e enfiada no armário mas temo que seja muito tempo. Escuto passos indo embora de casa e abrindo a porta dos fundos; o que seria meu último adeus de papai. Um adeus frio, sem desculpas ou explicações, apenas um adeus para nunca mais. Acho que demorou bastante para mamãe levantar também, tempo suficiente para toda a família (ou boa parte dela) chegar.
Nem sei quem me tirou de dentro do armário ou como saí de lá, só sei que depois de tanto tempo estou aqui. Sem pai, em outra cidade, com uma mãe violentada e abusada várias vezes por alguém que dizia a amar e era admirado por muitos (que acredito eu, desconheciam a situação).
Minha mãe também foi abusada e espancada pelos meus outros padrastos, na verdade por todos eles. Mamãe sempre foi submissa e tinha a incrível capacidade de escolher homens violentos para se relacionar sempre. Pareciam que eram os mesmos, só mudava o nome; a história sempre se repetia: no começo a tratavam bem mas depois de um tempo que vinham morando na nossa casa começavam as agressões.
Não sei se mamãe foi estuprada outras vezes mas sei que presenciei incontáveis cenas de agressão; física, verbal e moral. Chamavam mamãe de burra e vagabunda, mandavam a fazer o almoço e arrumar a casa entre chutes tapas e empurrões. Um deles inclusive chegou a trazer amantes para nossa casa com o pretexto que mamãe era a ‘culpada’ de tudo e que já que ela não sabia fazer, outras saberiam.
Mas desses eu não lembro. Quer dizer, não lembro muito.O que eu realmente lembro, e gostaria de lembrar mais, era de papai. Aquela cena nunca me saía da cabeça e por diversas vezes perguntei-me se era um sonho ou realmente teria acontecido. Lembro do cheiro, dos gritos, das imagens e da cena, com extrema nitidez. Com quinze anos escutei vovó falando com titia sobre um suposto ‘estupro’ que mamãe havia sofrido em 94 por parte ‘daquele canalha que nunca teve coragem de mostrar a cara de novo’. Aquele canalha era meu pai, eu sabia disso. Desde então me convenci que tudo isso era verdade.
Sabia que não tínhamos mudado de cidade sem motivo algum, mamãe não tinha para onde ir.
Nunca tinha. Acho que por isso que os caras batiam tanto nela, ela era dependente financeiramente e afetivamente. De todos. Mamãe me dizia ‘filha por favor estude para nunca ter que passar por essa humilhação.’ Eu estudei, quer dizer, estou estudando, né?
Mas o que mais me dói não é saber do quanto minha mãe sofreu ou ter presenciado e vivido tudo isso. O que mais me dói, é saber que papai nunca me amou. Ele foi embora sem se despedir, assim sem mais nem menos, quer dizer, ele tinha que ir, mas sequer se importou em dizer tchau. Em ME dizer tchau. Papai era bom para mim quando não bebia mas nunca me amava. Papai nunca me amou. E nem a minha mãe. A diferença é que minha mãe foi burra, otária e vagabunda (como foram as ultimas palavras pronunciadas por ele). Eu não. Eu encontrei minha própria maneira de diferenciar minha vida através disso. Acho que me tornei incapaz de amar as pessoas. Todas elas.’