Pensamentos aleatórios #59

[Há exatos dois meses não posto aqui, me sinto um estranho.]

Protelei absurdamente este texto. Peço que me entenda, filhote, eu estava estudando.

Eu ando observando as pessoas a minha volta, uma delas me chama a atenção.

Não pense que vou falar das moças bonitas que existem na minha sala, não seria capaz de descrever a visão do paraíso; nem que vou comentar que o número de casais desfeitos durante o ano de cursinho é alarmante.

Falarei de um aluno que ora ou outra invade a classe; chamaremos ele pelo codinome “golfinho”, claramente por causa de sua voz que se destaca da maioria por sua voz a lá “espanta tubarões”.

“Mas afinal, o que ele fez, Cure?”


Nada, ele só consegue ser a pessoa mais indiscritívelmente burra que eu já vi querendo ser bacharel em direito na minha vida; o homem não sabe argumentar, o homem não sabe ser polido – Ele falava de uma tia que é médica e ocasionalmente se via numa situação difícil envolvendo objetos inusitados em cavidades inadequadas. – tudo seria apenas inconveniente  se uma garota que estava comendo não pedisse pelo fim daquele martírio.

Mas não, nosso amigo cetáceo e sua capacidade de emudecer toda roda ao chegar e disparar seus comentários inúteis continua sua retórica sem fim, falando sem parar da pobre tia. Num ato de desespero e altruísmo peço com toda a gentileza do mundo para o homem parar de falar daquele assunto tão irritante, recebendo em troca um esguicho de água de raiva para o alto seguido de “Se não quer ouvir sai daqui!”.

Realmente, me senti até humilhado com essa argumentação, fui para um canto com lágrimas nos olhos.

Uma semana depois estou lendo meu livro quando volta a tal criatura bufando e falando que odeia geografia e história – matérias de humanas em geral (mas espere, humanas é uma área dentro do bacharelado em advocacia) e que DECORAVA a parte de história e geografia. Lia 4 vezes todas as frentes (frentes são as divisões da matéria) todos os dias.

Nesse momento eu me vejo num filme dramático:

“Como uma pessoa da área de humanas não gosta de humanas?” – É a mesma coisa que uma pessoa da área de matemática odiar provar teoremas, um médico que odeia biologia e um engenheiro que odeia cálculo.

Eu levantaria e diria para ele o quão lamentável seria o futuro da empreitada pela faculdade de direito do Largo São Francisco, comentário este seguido de uma bica no peito por que cetáceo algum estava lá para fazer justiça com as próprias nadadeiras (?). Permaneci quieto e guardei esse pensamento para mim.

Isso aconteceu alguns dias atrás, mas hoje me deparo com um texto de Richard Feynman (ou em português) falando da péssimas qualidade do ensino Superior (Feynman tem sorte de não ser professor do ensino Fundamental, é o que eu acho…), onde estudantes eram literalmente adestrados para repetir conceitos:

“Os números têm Erros – ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais – muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo de ‘resultados’ experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém jogou tal bola, ou jamais teriam obtido tais resultados!”

E me lembro do comentário de uma amiga que também quer ser médica que bioquímica era muito chato.

Mas essa amiga esquece que é por meio da bioquímica que se explica por exemplo como você produz lactase para quebrar lactose no seu organismo:

O decorado:

“A Lactose Entra no seu corpo e ele começa a produzir lactase. Ao acabar a lactose a produção de lactase também para.”

A explicação:

Existem genes estruturais responsáveis pela produção de enzimas para a quebra da lactose, cito o Gene Operador e o Gene regulador.

O Gene Operador que controla a produção de determinada substância (a Lactase). Esse operador é controlado por um outro gene que é o Gene Regulador, gene este que tem como objetivo parar as reações de produção comandadas pelo Operador; como o Operador não pode parar diretamente o Regulador ele utiliza uma substância intermediária chamada Repressor.

Quando determinado Indutor (exemplo: Lactose) entra no sistema ele reage com o Repressor, que não pode parar a produção de Lactase e o processo acontece normalmente.

Ou, se você prefere:

Você precisa estudar (Operador) mas seu amigo (Regulador) não te deixa estudar porque te convida para ir à várias festas (Repressor). Ao chegar o período das provas (Indutor)  as festas cessam por um tempo e você pode voltar a estudar.

Ou das definições do funcionamento da bexiga natatória nos peixes:

O decorado:

“Ao subir a bexiga natatória incha e o peixe se livra dos gases se estabilizar em relação a pressão externa e o oposto para a descida”

A explicação:

Quanto maior a pressão mais dissolvidos os gases podem ficar num mesmo volume, portanto, quanto mais fundo um peixe desce mais o gás pode ser ‘espremido’ no sangue; assim o peixe pode regular sua pressão interna igualando-a a externa e não virar um enlatado ao descer para o fundo do mar. Na subida a pressão externa diminui e a solubilidade dos gases diminui, assim o sangue consegue comprimir menos os gases e eles conseguem ir facilmente da circulação até a bexiga – o que evita que um peixe ao ser puxado pra cima rapidamente  exploda por que a sua pressão interna é muito mais alta que a externa.

Ora…Ora…Ora…

Decorando viramos meros repetidores de fórmulas, de definições, de frases feitas. Onde estão as escolas libertárias do Brasil? Serão todas banidas como no governo de Artur Bernardes ou irão perseverar como em Summerhill?

Somente com uma escola que estimula os alunos a raciocinar, aprender por indução, a contestar modelos e a ter sua própria opinião  irão impedir que eu ouça um aspirante a advogado dizendo que odeia a matéria de humanas.

One thought on “Pensamentos aleatórios #59

  1. É interessante notar nisso que a pessoa que deseja algo nem sempre está apta para tal. Como pode uma pessoa da área de humanas querer cursar direito? Simples: dinheiro, pressão social, dinheiro, pais, dinheiro etc.. O motivador é sempre maior que o desejo, afinal, ter dinheiro é mais importante do que subir o próprio sonho, ter dinheiro é mais importante que tudo. Quem faz seu primeiro milhão antes dos trinta, é considerado um homem de sucesso (li isso em uma revista). Então, ora essa, nada mais justo que um estudante de direito que odeia história e geografia! Nada mais justo que um estudante de engenharia química que não gosta de química e/ou física!

    Ainda bem que ainda há uma certa porcentagem de pessoas que fazem o que sonham.

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