Asinum Academicae

Vai logo ali o acadêmico, uma espécie que se multiplica pelas fissuras dos rebocos dos apartamentos tal qual uma praga. Não possui alimentação própria, busca sempre restos de alimento de demais viventes para embasar sua nutrição. Não respira de modo algum, pois vive em ambientes fechados e fétidos, inalando o viciado ar de sua própria carniça.  Constantemente enfermo, busca profilaxias infindas para uma hipocondria que é o seu torturante tédio de não saber, tal como os ídolos e suas amáveis identidades, usar da cabeça.

Costumeiramente, em seus passos distraídos, que não repara os buracos por onde tropeça, cai e se levanta, vive num limbo onde as feridas de sua existência mais soam como injustiças e acusações vis do mundo contra si que, deveras preocupado com os problemas de maior importância do mundo e de soberba relevância ao estatuto da ordem do universo, prestam-lhe gracejos intelectuais de sua notória estultice. O acadêmico logo ali, na mesa do bar, refere-se aos infindáveis nomes e barbas das fotos preto-e-brancas que viu nos livros didáticos que, em sua magnitude de leitor assíduo dos signos em cujos oceanos turvos jamais tocou-lhe o fundo. Dizem que, de fato, as circunstâncias para a prosperidade desse espécime jamais se referem a qualidade: ser bom é ser, pois, bem falado. Na maior das indolências, e nos recônditos dos estudos ciceronianos, faz-se o acadêmico um organismo que se propaga de modo viral nas ações de valor.

Ah sim, o acadêmico! Tão deveras apreciado pela gama nacional, pelo retrato do estudo e da dedicação na sua imagem repleta de brochuras e enciclopédias, com as mãos à cabeça com o semblante pensativo de modo que nem mesmo o mais habilidoso Rodin seria capaz de dar-lhe a graciosidade e intelectualidade ao copiá-lo. Ora, e se por um momento, num súbito instante de mudança nas condições climáticas do sonhar, a bolha estourasse? Ora ora, acadêmico, será que és capaz de resistir ao frio e a secura do inverno tão distante do mofo de ser parasita de quem empunha a pena com as mãos gélidas do encarar o gelo? Venha, pois, fugir da bolha, por um instante, passear no gelo do existir, e perguntarás a quantas andas teu imperativo em Cantar. Se manejares tão bem a dor quanto manejas os artigos, pode ser que saibas, um dia, o que foi o vivido.

Crítica aos Arrogantes

Dizia-se por aí, através de linhas virulentas, que alguém precisa arrogar o que lhe é próprio para ser o que se é. Como se ser o que é fosse algum tipo de requisição necessária a qualquer princípio de identidade: dizer o que se é só pode ser um enganar-se duas vezes. Não há, como os nobres e senhores, detentores dos sumos valores que não dependam da corja escrava e servil, não há senhor sem escravo e não há escravo sem senhor, só existe um fluxo entre o qual o chicote e o pelourinho são tão íntimos e próximos como a unha e a carne. Resumir ou pretender compactar a individualidade de qualquer um é reduzir à condição servil, à condição escrava, isto é: escrava de sua própria ontologia. Assim sendo, a que finalidade serve escravos e senhores quando se equiparam em sua ontologia?

A identidade, a condição de existência do “ser” não pode nunca fundamentar-se numa tentativa frustrada de equiparação por um princípio, de fato, escravo: a busca por um regimento verdadeiro e absoluto que jamais pode ser abalado. Um cartesianismo maquiado com ares dialéticos, com uma roupa justa, adequada, bastante galante através de um rigor primoroso através de origens etimológicas, entretanto, no reino da realidade aparente, não se cabe a um sujeito uma demonstração daquilo que por si só já é arte. A arte de manifestar a identidade através da linguagem é o promover da metáfora de uma metonímia. As condições do falar, do exprimir e do afirmar-se enquanto individualidade são tão artificiais quanto às roupas dos homens e, portanto, pretender usar-se de fundamento a etimologia de um falar é tão fantasioso quanto que “estar envolvido pela bile” ao ponto de não distinguir o sonho da vigília. A identidade prevalece a todos e seu conflito promove necessariamente a moralidade entre o senhor e escravo, jamais o contrário. Portanto, a condição que “arroga” não é tampouco nenhuma das apresentadas: não se arroga o que nos é próprio e é indiferente o promover linguístico do que se faz aparente.

Tentar aproximar-se a todos ao ramo ontológico, isto é, das mais diversas manifestações conflitantes que se espraiam, afunilar-lhes através de um discurso que promove a submissão dos valores como que escravos e senhores não fossem no fim ambos uma tentativa de apresentação de valores sem necessariamente transvalorá-los é, pois, deveras crucificação da própria vida. Pretensa arrogância daquele que leva para si o peso de medir e de apreciar.