Desconcertos #2

“e se ainda quero pensar sobre o que fui e fomos e foi e será é porque ainda não entendi direito o que aconteceu ainda não tive a força necessária para dizer que é isso porque não há outra maneira não há outro meio de entender de sentir e já nem sei mais o que sentir quando me lembro de você e me faço companhia sua ao lado de minhas memórias que agora me habitam qual um órgão e se aceito ou não é questão que independe de mim há muito tempo o cativeiro que me senti colocado desde o início já diz o quão fraco fui desde então e fiz de tudo para que minhas correntes não se quebrassem de você não queria e não pude mais fazer nada senão aceitar agora o que aconteceu o que eu fiz o que eu quis fazer o que meu amor fez fazer meu último grande ato de amor foi o sacrifício maior de minha vida até hoje e foi sua ausência o maior peso que até agora tive que suportar e não aceito mais e aceito tudo porque quis e assim fiz e assim tenho que aceitar por razões que perpassam todo o campo do alegre substância essencial do campo de imanência porque tudo o que fiz foi para que sua alegria também fosse real e para que também eu pudesse crescer sabe-se lá para onde… sim meu último ato de amor minha maior morte e agora temo não ser capaz de ultrapassar a ordem que suas lembranças estabeleceram em mim, mas não deixarei que a consciência desse novo órgão domine minha direção minha vida minhas intensidades ainda que em mim todas as intensidades provenham do sentimento que você criou em mim e ainda que eu pense não amar mais você sua pessoa sua face seu corpo seu cheiro eu imagino que você para sempre será a primeira pessoa a me fazer aberto abertura exterioridade tétrica chão solo lama e sujeira limpeza da realidade”

01:07-09:32

Desconcertos #1

“e então teve aquela vez em que ela estava na webcam e todos na sala falavam alto e por vezes eu te chamava você aparecia e ria gritava pulava atrás de mim fazia de tudo para que ela na webcam pudesse te ver e teve então uma vez que quando você veio depois de tanto dizer coisas para ela que nos ouvia lá de longe bem longe mesmo mas onde já estive uma vez por alguns dias que me fizeram no alegre e então você fez arco-íris eu na cadeira você arco-íris e eu me sentia alegre me fazia rir mas não via o que você era não via ninguém via nem ninguém veria não dava você não dexa nem dexaria porque as coisas são melhores quando estamos na superfície não são os gregos que são profundos na superfície? acho que isso é nietzsche com certeza é nietzsche ninguém mais diria isso desse jeito também ele me ensinou que amar alguém é aceitar alegremente as diferenças até mesmo as que existem em si sendo então uma condição sine qua non há sequer amor a si mesmo porque nós somos múltiplos heterogêneos a nós mesmos tal qual eu e você éramos um do outro mas não deu certo e você era arco-íris e eu era caminho uma travessia na qual você se sentia cego e desolado quem sabe? não sei pode ser que assim seja e por isso não foi o que devia ser o que mais é nesse mundo de não e não porque a gente queria sins e mais sins mas nada de pecados ou talvez muitos pecados porque pecado é moral e moral não está no amor amor é tudo o que acontece além do bem e do mal porque o amor faz isso ele desmoraliza a moral e as ações e os corpos e os órgãos tira a ordem de tudo quebra mistura mas todo rizoma tem princípios arbóreos em si assim como a árvore tem princípios rizomáticos ou seja tudo é e não é rosa sabia bem disso quando falou isso várias e várias vezes no grande sertão onde morava assim como dizer que se convive com o que se nega ou o que se nega se convive a ordem não muda negou conviveu eis a mensagem toda eis tudo virar a página é difícil seguir em frente é difícil mas a vida é sobe e desce, esquenta e esfria qualquer bosta assim.”

Breves considerações da estética impressionista em Adelino Magalhães

INTRODUÇÃO

A reduzidíssima fortuna crítica acerca de Adelino Magalhães, desde Eugênio Gomes e Xavier Placer até Sonia Brayner, sói encaixá-lo como o terceiro escritor brasileiro de linha impressionista, precedido por, cronologicamente, Raul Pompeia e Graça Aranha, e, de longe, quem a levou aos seus maiores momentos, sendo, por quem o estuda, um dos autores mais inesperados e inusitados dentro da literatura brasileira do início do século XX. Pretende-se com o trabalho fazer um apanhado bastante superficial da estética de Adelino Magalhães, tendo como base um conto curto, chamado “O ventre da Maroca Cabe-Tudo”, com a consciência de que, nem de longe, se chegará a uma palavra final sobre o autor.

A ESTÉTICA IMPRESSIONISTA

Não caberão aqui no trabalho as diversas influências que teve Adelino dos impressionistas europeus, tanto da pintura quanto da literatura, desde Joyce até Proust. No caso, remetemos ao estudo de Eugênio Gomes que abre a edição da obra completa pela Aguilar Editôra (1963), que trata, extensivamente, da influência de Joyce na escrita de Adelino. No entanto, vale a pena falar de um estilo literário que precedeu o Impressionismo e que foi de grande serventia para todos os seus três autores, o Simbolismo. Clique e continue a leitura

O trabalho poético na era de sua pós-contemporaneidade técnica

“M.D. diz não tire o pau da boca…”

Agora que estou fora, pronuncio-me:

A partir do trabalho de um poeta pós-contemporâneo, referida como M.F., traçaremos uma linha acerca do que mudou e como mudou o trabalho poético a partir do século XX, levando em conta os diversos aspectos políticos e bélicos que permitiram tal mudança, sem fazer, no entanto, qualquer tipo de juízo de valor acerca destes, e, outrossim, levando em conta o ineditismo que esse século trouxe para a história da humanidade, a tecnologia e, por extensão, a alta velocidade, a luz elétrica (lembremo-nos de como esta foi alvo dos escritores e pintores impressionistas) e, mais recentemente, a rede de internet. Com isto, desejamos ser capazes de criar uma discussão saudável acerca do papel que a poesia de hoje em dia ocupa e se impôs a si mesma, se ela, tal qual a filosofia, sujeitou-se quase totalmente à ciência ou se ainda é possível manter alguma autonomia.

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Algumas considerações #8

A moral

Afinal, é de se perguntar: até onde nos levou a ideia de falta de moral dos últimos dois séculos? Que tipo de arte pôde ela criar, de modo que possuísse a grandeza de que tanto se ouve falar haver nos tempos antigos, mas que até o século XIX sobrevivia? Assusta saber que o nosso tempo não poderá produzir obras que tenham o intento de alçar-se à eternidade — assusta saber que há tantos “poucos singular” que possuem tal ideia no espírito, que buscam uma obra que não seja pura representação de alguma ideia ou de alguma realidade, mas que seja algo além, afinal de contas, não importa alcançar o objetivo, importa tê-lo na vista, apoiando-se folguedamente na figura do homem com mão num absurdo sensitivo. A filosofia é tão repetitiva que chega a cansar por vezes, i.e., para quem deseja mudanças que soem extremadas: Nietzsche não desejou destruir a moral, não foi para isso que direcionou seu martelo, mas quis fazer um uso diferenciado da moral, uso anômalo do estilo asceta de vida: mudam-se os fins, mas os meios ainda são mantidos. Se há obra, seu horizonte deve ser o da mais pura fisicidade, a afirmação suprema da realidade humana em multivariadas formas: não há metafísica, o azul fugaz do sonho é ainda o mais físico que há, porque existe e é humano. Desse modo, fazer uso de uma linguagem metafísica, hoje, é tentar encontrar um modo mais físico e justo de expressar. — Ouvir Bach é ter à sua frente, sinestesicamente, a maior representação de deus: por isso que este senhor deve muito àquele, pois foi apenas através de Bach que deus passou de fato a existir. E, ainda nessa forma, pôde o alemão, muito sabiamente, dar-lhe o lúdico que os escritores não souberam dar. — O ateísmo de hoje criará jamais obra alguma que alcance o pus do dedo encravado de Agostinho de Hipona, porque a seriedade e  disciplina deste, por conta da própria moral que teve, foi capaz, também, de moldar um espírito que soubesse resignar. É de se crer que o verdadeiro ateísmo exista em Epicuro e, consequentemente, em seu maior discípulo, Lucrécio.