Jean-Paul Février fala Sobre a Filosofia da Diferença e Sua Irredutibilidade em Relação a Um Ideal Orgíaco Pós-modernista

Prelúdio Poético-filosófico a Uma Mentira: o Traidor e a Consciência Feliz

Bom, resolvi contar-lhes uma mentira; a saber: esta entrevista que nunca acontece e que, no entanto existe, segundo uma certa lógica que é a do pensamento que ela mobiliza em sua mentira fundamental. Trata-se de uma brincadeira, de um jogo de verdades sombrias ou de um baile de máscaras onde, para a surpresa de qualquer curioso incauto, só há mascara por detrás de máscara, “o segredo é que não há segredo”. Há, igualmente, um quê de traição; e assim faz-se uma comédia: finjo ser quem não sou, ou antes, disfarço-me sob a máscara de um outro, de um estranho – um francês que não é francês, que nem mesmo escreve em francês, mas que fora aluno e orientando do Deleuze, escreveu um livro, consagrou-se como filósofo e viveu em Lyon (uma grande cidade francesa). A entrevista tem uma data que não passa de outra faceta da mentira e o entrevistador não passa de um disparate. Nada é o que aparenta ser, ou nada chega mesmo a ser – metamorfoses de Dioniso, o deus mascarado, o deus da multiplicidade. E aí este texto já se torna também uma tragédia. Eu, que vos escrevo, não sou mais do que minhas personagens fictícias; eu sou como eles, minha personalidade é uma máscara que não esconde uma essência, uma natureza, mas dá testemunho de uma verdade cintilante: não há essência ou natureza a ser revelada. Tudo o que há para ver encontra-se na superfície das máscaras sobrepostas, “o mais profundo é a pele”. Quem sou eu? Não importa! Só o devir conta, afinal.

 

 

Jean-Paul Février fala Sobre a Filosofia da Diferença e Sua Irredutibilidade em Relação a Um Ideal Orgíaco Pós-modernista1

 

 

Pierre: O senhor buscou sempre enfatizar que suas pesquisas giram em torno de um conceito como o de Diferença, tal como Deleuze, que foi também seu professor e orientador, o concebia. Todavia, alguns críticos vêem no senhor a marca de um desvio: haveria, aí, uma aproximação perigosa entre a filosofia da diferença e o pós-modernismo. A que se deve tal desvio (se é que se trata de um)?

Février: Sou sensível ao que você diz e dou, pelo menos até certo ponto, razão àqueles que me criticam por trazer a filosofia da diferença ao debate pós-moderno. Mas é injusto dizer que se trata de um desvio, pelo contrário, há certas exigências da própria filosofia da diferença que tornam inevitável essa aproximação. E mesmo assim, não é bem uma aproximação que aparece aí, mas uma confrontação radical (não entendo como isso não ficou claro em meu livro A Diferença e o Fundo Indiferenciado) que no fundo não passou de um protesto, de um grito contra o pós-modernismo, justamente ali onde ele corroía a filosofia da diferença. Tem-se comumente reivindicado uma “essência pós-modernista” que seria a da filosofia da diferença, quando, em bem da verdade, trata-se de mostrar como uma filosofia da diferença, tal como Deleuze a compreendia, aparece como uma resposta à parvoíce pós-moderna, à insolência e impudicícia típicas da forma de pensar dita pós-moderna. Se eu falo em Deleuze e em pós-modernidade, é apenas para evidenciar essa irredutibilidade e essa potência crítica e contestadora da “nova ordem”.

Pierre: Mas, então, seria impossível pensar a filosofia da diferença sem pensar a pós-modernidade, a relação por vezes obscura entre uma e outra forma de pensar?Ao que parece, a filosofia da diferença surge como um problema no interior do saber filosófico contemporâneo, que tem por objetivo desfazer a pós-modernidade, denunciando a sua inverossimilhança, seus perigos e conformismos.

Février: Sim, e você soube perceber uma coisa que muitos ainda não perceberam, e que outros só perceberam após um exercício austero de investigação, de visitação dos textos, de leitura e de ruminação, para falar à maneira de Nietzsche. Evidentemente, falo do caráter heterogêneo dessas duas formas de pensar. Não é, aí, a mesma coisa e você já parece ter percebido isso em seu ensaio sobre a crise pós-moderna. Quando confundimos a filosofia da diferença com o pós-modernismo, é o fim, a maldição… É assim que perdemos a própria filosofia da diferença. Ora, a filosofia da diferença já não é mais capaz de passar tranquila, sem responder às objeções que constantemente lhe são feitas, e que buscam, precisamente, denunciar o pós-modernismo como sendo aquilo que a anima – seria ele o seu coração? Certamente que não. E o pior é que não se presta a devida atenção ao caráter radicalmente anti-conformista do deleuzeanismo. Deleuze deixou muito claro que a filosofia, para ele, nada mais é que uma prática, uma certa prática que tem por função criar conceitos. Isso sem contar todas as questões ético-políticas que percorrem todas as suas obras e dão testemunho de um certo ativismo revolucionário. Não foi Foucault quem disse que O Anti-Édipo era um manual de ética e de política? E toda aquela discussão em torno do devir-revolucionário e da vontade desejante? Tudo isso é sintomático.

Pierre: Você diz que os críticos da filosofia da diferença não estão totalmente errados, que há, evidentemente, uma razão para suas suspeitas. Em que consistiria essa razão parcial que você atribui aos seus inimigos?

Février: Trata-se do seguinte, Deleuze vai operar certas perspectivas que a pós-modernidade soube utilizar muito bem para os seus fins niilistas. Falo de noções fundamentais como as de “diluição da identidade”, “esvaziamento do Ser”, “anti-sistêmico”, “morte do Eu”, “superação das dicotomias e dos dualismos” etc. Mas tais perspectivas, quando empregadas por Deleuze, só se confundem com as apropriações feitas pelo pós-modernismo no momento em que não compreendemos o que Deleuze quer dizer rigorosamente quando ele as utiliza; é em outro sentido que ele as toma, sempre; não para conjurar novos conformismos, não para erigir um estado de cansaço, de tédio, de vazio (i.e niilismo), mas para dar à filosofia, à política, à ética, em suma, à vida, novas potências revolucionárias, anárquicas, voadoras e ferozes. É sabido que a fonte da qual Deleuze extrairá sua ideia de um Eu dissolvido é Nietzsche. A morte de Deus, como o mostrará Deleuze, e antes dele Klossowski, é a morte do Eu, de modo que não se poderá falar de uma substituição: Deus morreu e agora o homem ocupará o seu lugar. Essa é a atitude niilista por excelência e que Nietzsche conceberá sob a forma do que ele tão bem chama de cientificismo. Não há Deus e tampouco um Eu atribuído ou atribuível sob o qual Deus exerceria seu rigor, sua Lei. E a consequência disso não é um relativismo, isto é, um niilismo, mas toda uma nova criação estética, ética e política. A ideia de uma transvaloração de todos os valores perderia todo o sentido se Nietzsche fosse um apologista do relativismo. E o problema é justamente esse: o pós-modernismo entendeu muito mal a ideia de destruição, eles generalizaram a destruição, mas se esqueceram de sua irmã: a criação. O pós-modernismo se satisfaz em destruir sem, no entanto, colocar algo no lugar daquilo que foi destruído, totalmente o contrário de uma transvaloração de todos os valores. Outra coisa, nós perdemos o Eu, mas ganhamos as singularidades pré-individuais. Embora elas não passem pelo crivo de um Eu, elas remetem a um processo de individuação (que também e pelas mesmas razões não passa pela figura de um Eu). Nesse sentido, Deleuze é, para nós, o que Duns Scott foi para seus contemporâneos: um “Dr. Sutil”.

Pierre: A senha para se objetar as críticas que identificam a filosofia da diferença com o pós-modernismo seria, nesse sentido, Nietzsche?

Février: Sim, de certo modo, sim, você tem razão. Mas se Nietzsche é a senha, Espinoza, Bergson e até mesmo Duns Scott também são. O conceito de hecceidade entendido como um modo de individuação sem sujeito é um conceito que Deleuze foi buscar no filósofo escolástico. Tal conceito permitiu que ele pensasse uma realidade constituída de elementos disparatados, quase – e eu enfatizo este quase – como um atomismo; a diferença fundamental é a de que tais partículas disparatadas que constituem o real se relacionam ou se comunicam, sendo tal comunicação o próprio devir das “coisas”. Deleuze é um filósofo que gosta de dar sentidos novos a palavras velhas. Se não se toma esse cuidado, cai-se no pós-modernismo e em todas as suas quimeras. A filosofia da diferença possui suas regras especiais e específicas, seu rigor, suas consequências próprias, e isso de modo algum deve ser negligenciado.

Pierre: E quanto à Nietzsche e o conceito de genealogia, não seria esse conceito crucial para se salvar a filosofia da diferença do pós-modernismo?

Février: Sim, o método genealógico inaugurado por Nietzsche é fundamental. Aquilo que Deleuze chama de “nova profundidade”, quando se refere à substituição da lógica por uma axiologia e uma hermenêutica, substituição que é operada por Nietzsche e que será o coração da sua genealogia, é onde se deve ver uma grande oportunidade para se pensar o que significa “ser deleuzeano”. Ora, “ser deleuzeano” nada tem a ver com assumir um relativismo torpe, estúpido, risível entre outros princípios estranhos do pós-modernismo… Deleuze é um perspectivista e de modo algum o perspectivismo é um relativismo. Se o tomássemos como sinônimos, então, deveríamos dizer que Nietzsche fora um idiota que tentou reinventar a roda e não é esse o caso, tanto em Nietzsche como em Deleuze, principalmente em Deleuze que vai levar o perspectivismo às suas últimas consequências. Os conceitos de sentido e de valor serão essenciais para Deleuze. É essa grande insistência nietzscheana nas noções de sentido e de valor que nos dará armas contra aqueles que tentam despotencializar a filosofia da diferença, que a qualificam como um produto ou um princípio do que se dá, frequentemente, o nome de pós-modernidade.

Pierre: Muito obrigado por sua contribuição, senhor Février. Estou certo de que essa entrevista esclarecerá pontos importantes da filosofia da diferença, sobretudo em se tratando de sua resistência a uma barbárie pós-modernista.

Février: Ora, estou sempre à disposição!

Nota:

1: Entrevista com o filósofo francês Jean-Paul Février (1943- 2005) concedida a uma revista francesa de filosofia chamada La Philosophie no dia 25 de janeiro de 1999, em Lyon; na ocasião da entrevista, o entrevistador era Pierre Badiau (1947-2010) filósofo e editor da revista, além de amigo de Février.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s