Escritos Aforismáticos

Vida e Conhecimento

 

I

 

A vida como meio de conhecimento. Nietzsche acreditava que vida e conhecimento não constituíam pares opostos, mas uma unidade fundamental que caberia ao filósofo do futuro restituir, uma vez que a oposição – mais aceita, afirmada, com credulidade e orgulho, do que provada, diga-se de passagem -, havia sido imposta à vida, como instrumento para sua total negação. A história da filosofia é a história de terríveis golpes deferidos contra a vida, a história de incomensuráveis erros acerca do valor da vida; erros dos quais ainda não nos libertamos; para constarmos isto que vos digo basta observar como a canalha vê o pensador ou o estudante de filosofia: como um lunático, um fora de órbita, preso ao “mundo das ideias” (ideia capenga advinda de uma imagem distorcida do platonismo, que de modo algum se define pela distinção entre dois mundos, o aparente e o inteligível). A “vida contemplativa” – a do filósofo ou do cientista – seria como um adeus pomposo à vida – o filósofo como aquele que se recusa a viver para – para quê? – pensar. Pensar tornou-se um meio de negar a vida! O golpe de gênio dos filósofos foi terem descoberto como fazer do pensamento uma prática niilista par excellence.

II

 

Não nos enganemos quanto aos limites do niilismo, ele engole com sua boca escancarada e cheia de dentes também as artes, tanto quanto a filosofia e a ciência. Não há limites para aquilo que é o motor da história da humanidade. Muitos artistas foram rechaçados pela ousadia com que abdicaram das pinturas nobres (costumava-se pintar membros da corte e das classes abastadas, batalhas ou episódios históricos, ou, ainda, personagens mitológicos) para então se depararem com a vida – gritando, gemendo, sorrindo, chorando, morrendo, sangrando etc. O corpo nu que agora inspirava os artistas não era o da adorável e eterna Vênus de Milo, mas o de muitas mulheres, conhecidas ou desconhecidas, pouco importava a eles a popularidade de suas Musas: seus corpos vibravam, eram vivos, majestosamente vivos – era isso o que importava a essa nova safra de artistas. Do mesmo modo os impressionistas saíram para pintar ao ar livre e descobrir na natureza, na pintura da natureza, o que há muito tempo faltava à arte: cor, luz, alegria. Ainda, pintar pessoas não mais em poses grandiloquentes, apartadas das vivências quotidianas, como se as pessoas fossem modelos mortos, mas em seus gestos mais banais… homens, mulheres, crianças – havia muita vida pulsando nos camponeses de Van Gogh, numa garota a passear pelo campo, nos bares e na rua. Nisto Renoir, por exemplo, era mestre e seus quadros são um testemunho fiel de como arte e vida se confundem. Dizia ele, com sabedoria e graça, de modo que Nietzsche certamente o aplaudiria de pé: “(…); para mim, um quadro deve ser uma coisa amável, alegre e bonita, sim bonita. Há bastantes coisas aborrecidas na vida, para que nós fabriquemos ainda outras”. Ser trágico sem o saber. Não se trata de teoria, mas de vida.

III

 

O que ainda nos falta, hoje, é esta consciência – artística, trágica, feliz, chamem-na como quiserem – de que pensar e viver não são excludentes. Fazer filosofia não é abdicar da ação, das experimentações do mundo humano, demasiadamente humano, é, ao contrário, mergulhar na pura imanência da vida para dela retirar uma obra, que pode ser de filosofia, de arte ou de ciência. O que matou Nietzsche não fora a doença, a loucura que lhe acometera em seus últimos anos de vida, mas o excesso de vida, de experimentações… Algo demasiadamente pesado para que um corpo tão frágil como o de Nietzsche fosse capaz de suportar. Uma vida grande demais! É a vida, o peso de uma vida grandiosa, que nos mata, não o contrário. O filósofo não é um padre. Os padres são personagens desgraçados, deveras infelizes, dos quais os filósofos devem escapar. O ascetismo mata a filosofia, é ele o verdadeiro algoz do pensamento. Hume criticava na filosofia abstrusa sua falta de atenção à vida. Voltaire, igualmente, acreditava que filosofia nada tinha a ver com abstrações. Mas foi Nietzsche o filósofo a pôr definitivamente as cartas na mesa – ele protestava: conhecer, não é renunciar à vida! Foi o que os filósofos, desde Sócrates e Platão, não compreenderam. Os poetas, os literatos e os filósofos malditos são uma tentativa de resgatar o pensamento de seu estado niilista. Liberar a vida, e, por conseguinte o pensamento, de todos os fantasmas do negativo. Se Bukowski escreve sobre prostitutas, corridas de cavalo, bêbados, viciados, porres, mulheres pouco ou nada valiosas, amores ruins, não é por vulgaridade, por falta de moral, de gênio ou de estilo – diz-se de alguns escritores: eles não têm estilo. Mas são eles os verdadeiros estilistas; é que o estilo pertence àqueles que comumente se julga não terem estilo – mas para trazer à literatura, à poesia a vida que lhes faltava – a vida dos guetos, da marginalia americana, dos pobretões, dos fracassados, dos sem eira nem beira, dos que não participam do concorrido círculo dos homens de negócios e dos investidores da bolsa. É vida… pobre, triste, quiçá besta, mas é vida – e há, ainda, uma gota de alegria nessa vida, pois Bukowski não facilita nada, não se satisfaz em dizer que esta vida não é bonita, ele vai mais além e diz: vejam, há ainda uma flor neste deserto ou nesta montanha de cadáveres. Bukowski, como todo grande escritor, é um sintomatologista: ele fala da doença da terra. No fundo, o que se expõe, aí, é o paradigma dos modos de vida contemporâneos: pensar e viver como porcos.

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