O trabalho poético na era de sua pós-contemporaneidade técnica

“M.D. diz não tire o pau da boca…”

Agora que estou fora, pronuncio-me:

A partir do trabalho de um poeta pós-contemporâneo, referida como M.F., traçaremos uma linha acerca do que mudou e como mudou o trabalho poético a partir do século XX, levando em conta os diversos aspectos políticos e bélicos que permitiram tal mudança, sem fazer, no entanto, qualquer tipo de juízo de valor acerca destes, e, outrossim, levando em conta o ineditismo que esse século trouxe para a história da humanidade, a tecnologia e, por extensão, a alta velocidade, a luz elétrica (lembremo-nos de como esta foi alvo dos escritores e pintores impressionistas) e, mais recentemente, a rede de internet. Com isto, desejamos ser capazes de criar uma discussão saudável acerca do papel que a poesia de hoje em dia ocupa e se impôs a si mesma, se ela, tal qual a filosofia, sujeitou-se quase totalmente à ciência ou se ainda é possível manter alguma autonomia.

Clique e continue a leitura.

Algumas considerações #8

A moral

Afinal, é de se perguntar: até onde nos levou a ideia de falta de moral dos últimos dois séculos? Que tipo de arte pôde ela criar, de modo que possuísse a grandeza de que tanto se ouve falar haver nos tempos antigos, mas que até o século XIX sobrevivia? Assusta saber que o nosso tempo não poderá produzir obras que tenham o intento de alçar-se à eternidade — assusta saber que há tantos “poucos singular” que possuem tal ideia no espírito, que buscam uma obra que não seja pura representação de alguma ideia ou de alguma realidade, mas que seja algo além, afinal de contas, não importa alcançar o objetivo, importa tê-lo na vista, apoiando-se folguedamente na figura do homem com mão num absurdo sensitivo. A filosofia é tão repetitiva que chega a cansar por vezes, i.e., para quem deseja mudanças que soem extremadas: Nietzsche não desejou destruir a moral, não foi para isso que direcionou seu martelo, mas quis fazer um uso diferenciado da moral, uso anômalo do estilo asceta de vida: mudam-se os fins, mas os meios ainda são mantidos. Se há obra, seu horizonte deve ser o da mais pura fisicidade, a afirmação suprema da realidade humana em multivariadas formas: não há metafísica, o azul fugaz do sonho é ainda o mais físico que há, porque existe e é humano. Desse modo, fazer uso de uma linguagem metafísica, hoje, é tentar encontrar um modo mais físico e justo de expressar. — Ouvir Bach é ter à sua frente, sinestesicamente, a maior representação de deus: por isso que este senhor deve muito àquele, pois foi apenas através de Bach que deus passou de fato a existir. E, ainda nessa forma, pôde o alemão, muito sabiamente, dar-lhe o lúdico que os escritores não souberam dar. — O ateísmo de hoje criará jamais obra alguma que alcance o pus do dedo encravado de Agostinho de Hipona, porque a seriedade e  disciplina deste, por conta da própria moral que teve, foi capaz, também, de moldar um espírito que soubesse resignar. É de se crer que o verdadeiro ateísmo exista em Epicuro e, consequentemente, em seu maior discípulo, Lucrécio.

Asinum Academicae

Vai logo ali o acadêmico, uma espécie que se multiplica pelas fissuras dos rebocos dos apartamentos tal qual uma praga. Não possui alimentação própria, busca sempre restos de alimento de demais viventes para embasar sua nutrição. Não respira de modo algum, pois vive em ambientes fechados e fétidos, inalando o viciado ar de sua própria carniça.  Constantemente enfermo, busca profilaxias infindas para uma hipocondria que é o seu torturante tédio de não saber, tal como os ídolos e suas amáveis identidades, usar da cabeça.

Costumeiramente, em seus passos distraídos, que não repara os buracos por onde tropeça, cai e se levanta, vive num limbo onde as feridas de sua existência mais soam como injustiças e acusações vis do mundo contra si que, deveras preocupado com os problemas de maior importância do mundo e de soberba relevância ao estatuto da ordem do universo, prestam-lhe gracejos intelectuais de sua notória estultice. O acadêmico logo ali, na mesa do bar, refere-se aos infindáveis nomes e barbas das fotos preto-e-brancas que viu nos livros didáticos que, em sua magnitude de leitor assíduo dos signos em cujos oceanos turvos jamais tocou-lhe o fundo. Dizem que, de fato, as circunstâncias para a prosperidade desse espécime jamais se referem a qualidade: ser bom é ser, pois, bem falado. Na maior das indolências, e nos recônditos dos estudos ciceronianos, faz-se o acadêmico um organismo que se propaga de modo viral nas ações de valor.

Ah sim, o acadêmico! Tão deveras apreciado pela gama nacional, pelo retrato do estudo e da dedicação na sua imagem repleta de brochuras e enciclopédias, com as mãos à cabeça com o semblante pensativo de modo que nem mesmo o mais habilidoso Rodin seria capaz de dar-lhe a graciosidade e intelectualidade ao copiá-lo. Ora, e se por um momento, num súbito instante de mudança nas condições climáticas do sonhar, a bolha estourasse? Ora ora, acadêmico, será que és capaz de resistir ao frio e a secura do inverno tão distante do mofo de ser parasita de quem empunha a pena com as mãos gélidas do encarar o gelo? Venha, pois, fugir da bolha, por um instante, passear no gelo do existir, e perguntarás a quantas andas teu imperativo em Cantar. Se manejares tão bem a dor quanto manejas os artigos, pode ser que saibas, um dia, o que foi o vivido.

In meta-naturam orationes

Se um homem vigoroso se atrevesse a perguntar no microfone do mundo quais dos presentes vivos são metafísicos, de certo apenas uma ou duas mãos se levantariam e estes diriam “nós, com orgulho, somos metafísicos”. Uma ou duas mentes já no leito de um hospital, prontas para seu derradeiro fim. E aí, pensaríamos: “O mundo já está livre da metafísica”. Crasso engano. Nos intelectuais e nos filósofos e nos pensadores a metafísica já jaz sepultada no cemitério da história. Mas, nas mentes outras, nos homens que sempre sabem e conhecem pelo famoso telefone sem fio, a metafísica vive, e vive esplendorosamente. É que o modo metafísico de encarar o mundo já está tão enraizado no Ocidente e no mundo ocidentalizado que sequer há a possibilidade de perceber este enraizamento. Daí ouvirmos aos montes todo um repúdio pela metafísica e estes repudiadores serem tão metafísicos quanto Platão! Nega-se, então, a metafísica sem saber o que é metafísica. A negação pela negação. E não seriam esses separadores sedutores os metafísicos de hoje? Estes que separam o mundo entre real e ideal, inteligível e sensível, em prática e teoria. Estes que chamam tudo de metafísico e usam a própria metafísica para isso! Um certo alemão disse uma certa coisa: “A crença fundamental dos metafísicos é a crença na antítese dos valores.” Eu estenderia e diria que a crença fundamental dos metafísicos é a crença na possibilidade de divisão! Brava metafísica, imortal como a ignorância!

Crítica aos Arrogantes

Dizia-se por aí, através de linhas virulentas, que alguém precisa arrogar o que lhe é próprio para ser o que se é. Como se ser o que é fosse algum tipo de requisição necessária a qualquer princípio de identidade: dizer o que se é só pode ser um enganar-se duas vezes. Não há, como os nobres e senhores, detentores dos sumos valores que não dependam da corja escrava e servil, não há senhor sem escravo e não há escravo sem senhor, só existe um fluxo entre o qual o chicote e o pelourinho são tão íntimos e próximos como a unha e a carne. Resumir ou pretender compactar a individualidade de qualquer um é reduzir à condição servil, à condição escrava, isto é: escrava de sua própria ontologia. Assim sendo, a que finalidade serve escravos e senhores quando se equiparam em sua ontologia?

A identidade, a condição de existência do “ser” não pode nunca fundamentar-se numa tentativa frustrada de equiparação por um princípio, de fato, escravo: a busca por um regimento verdadeiro e absoluto que jamais pode ser abalado. Um cartesianismo maquiado com ares dialéticos, com uma roupa justa, adequada, bastante galante através de um rigor primoroso através de origens etimológicas, entretanto, no reino da realidade aparente, não se cabe a um sujeito uma demonstração daquilo que por si só já é arte. A arte de manifestar a identidade através da linguagem é o promover da metáfora de uma metonímia. As condições do falar, do exprimir e do afirmar-se enquanto individualidade são tão artificiais quanto às roupas dos homens e, portanto, pretender usar-se de fundamento a etimologia de um falar é tão fantasioso quanto que “estar envolvido pela bile” ao ponto de não distinguir o sonho da vigília. A identidade prevalece a todos e seu conflito promove necessariamente a moralidade entre o senhor e escravo, jamais o contrário. Portanto, a condição que “arroga” não é tampouco nenhuma das apresentadas: não se arroga o que nos é próprio e é indiferente o promover linguístico do que se faz aparente.

Tentar aproximar-se a todos ao ramo ontológico, isto é, das mais diversas manifestações conflitantes que se espraiam, afunilar-lhes através de um discurso que promove a submissão dos valores como que escravos e senhores não fossem no fim ambos uma tentativa de apresentação de valores sem necessariamente transvalorá-los é, pois, deveras crucificação da própria vida. Pretensa arrogância daquele que leva para si o peso de medir e de apreciar.

Versões #1

Prometeu

“De Prometeu relatam quatro lendas:

Consoante a primeira, ele foi, porque traíra os deuses pelos homens, amarrado à ferro no Cáucaso, e os deuses enviaram águias, que devoravam seu sempicrescente fígado.

Consoante a segunda, Prometeu estendeu-se na dor das bicadas, que moíam energicamente cada vez mais profundamente ao escolho, até que virasse um com ele.

Consoante a terceira, sua traição foi esquecida nos séculos, os deuses esqueceram, as águias ele próprio.

Consoante a quarta, cansou-se do infundado transformista. Os deuses se cansaram, as águias se cansaram, a ferida se fechou cansada.

Ficou a inexplicável montanha do escolho. — A lenda tenta explicar o inexplicável. Pois que vem de um fundo de verdade, ela deve novamente no inexplicável acabar-se.”

Franz Kafka

(trad. minha)

_

Trilha sonora do dia: