Desconcertos #4

“…e de novo de novo estou afundando por dentro estou transtornado em pedra exteriorizado num rosto esquizofrenicamente desesperado contorcido sujo maltratado sem esperanças nem mais nada e como uma frase ecoando e sabendo que ela vem de mim eu estou aqui? é aqui onde eu estou? afundando de novo e de novo a pedra por dentro não vai se mexer de jeito algum violinos tangendo notas agudas em decrescendo rodando e rodando implorando pelo movimento é só com a alegria só pode ser assim se não houver não haverá movimento e se não houver obviamente se estagna e a pedra não mexe sua rispidez por dentro de mim é disso! é disso que estou habitado pedra e mais pedra e submerso sem peso que seja verdadeiramente meu é tudo excessivamente outra coisa que não queria dentro de mim mas ela insiste em estar aqui presa e se reafirma afirmando à mando sua autoridade e ri tanto de mim e me faz chorar tanto e tantas vezes me faz querer afundar mais fundo pra fazer sair esse peso que não é meu sentir um frio que seja meu uma rispidez minha um calor meu criar na noite de minhas entranhas estrelas e nebulosas da arte da vida da imanência insistente do agora do fluxo tempo oriental japonês o rio é tudo mais do que uma vez é vez nenhuma e será possível que agora estarei me pegando fazendo jogos de linguagem mística? o tudo é o nada o tao do conhecimento é o nada abrangendo o tudo por fora e dentro — cacete, não estou bem, estou doente, doente de pedra, de excesso de outro, sim, é outro, outra coisa que não vai sair e não quer sair e por vezes me pego sequer deixando-a sair como se só assim pudesse afirmar minha força como se pudesse coabitar o mesmo espaço que ela mas será que não posso? preciso saber e só posso saber se sofrer toda essa escarpada incessantemente alta que adentra e se forma do meu corpo mas machuca e dói tanto que é quase inacreditável acreditar nisso tudo quantas vezes mais usarei da música como um refúgio um encosto para tomar fôlego? degrado a arte assim, e temo tornar-me enfim indigno dela sim sim, a terra antes do ar, que incessante! flautas e flautins estes uma oitava acima seguem a nota do violino e vão crescendo e decrescendo num fluxo interminável de um funeral monotonal e essa pedra que não quebra de jeito algum e não vai quebrar até que meu corpo a vomite toda mas o que fazer se ela não para de crescer e crescer e eu já vomitei todos os meus órgãos só me faltarão os ossos que se confundiram ou ainda se confundirão com essa enorme pedra contraforte onde palácio algum será construído… será que quero um final feliz? que final? porra, meu caralho, mas que final?! virei agora além de dialético um fatalista? é a pedra gritando? que horror, nojo de todo fim de toda história heideggeriano de ser-para-morte que porra de finitude é essa? coisa de homem achar essas coisas nas coisas ora porra que diferença para a árvore de seu caule e sua raiz? nenhuma, tudo uma coisa só incessantemente existindo a morte não passa de um momento e sequer o mais importante então será por isso que não quero destruir essa pedra? coabitar? mas ora porra não pode ser que a pedra tome conta de tudo sou eu quem tem de tomar conta de tudo organizar estratificar manter a saúde para poder ter a doença de todas as experiências como possibilidade infrene! sim, a possibilidade infrene, caralho, porra, é isso tudo santa pedra do cu rasgado você está bloqueando a passagem, vai pro inferno e me deixa emergir pra poder sentir de novo e de novo o que você está me trazendo! vamos juntos mais fundo você não é ainda potente o suficiente, tem que ter mais pedras para ficar mais pesado e me jogar no limite do vazio que meu corpo se tornará… redundar em alegria? a alegria não pode ser redundada, senão sentida enquanto imanência — até mesmo dessa pedra e desse mar que me engole e desses sons agudos que começo a ouvir com maior clareza mas não de claro mas de limpeza mas não de limpo mas de ouvir de sensação de experiência sem interpretação! minhas costas… minhas costas doem, bateram algum chão? então… pedra, é este o teu chão? é só isso? hah hah hah! avante! avante!… só tem cruz nos passos quem não tem riso nos poros!…”

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