Desconcertos #6

e de novo o recomeço do inferno tudo de novo o de novo é o grande inferno que recomeça como se nada estivesse diferente nem uma gota de água a pele renovada é a mesma e o inferno de novo e de novo não não dá mais a morte é a única saída e a única saída é o inferno de não haver saída senão a própria falta de saída os instantes que passamos juntos se vão embora como uma andorinha caindo do céu sirenes de agonia gritam pelas ruas e em meu peito o ciclo não houve e nem haverá a ideia não foi mais que ideia se a vida vale algo certamente não é o que pensava nem o que dizia nem o que poderiam me dizer eu estou cansado e não dá pra continuar muito bem seja lá o que for esse fato de não haver saídas só cair como que desenrolado na rede água viva se embrenha nas pernas de um banhista desavisado que o pega nas mãos e a queimadura é um batismo uma bênção e um amém que nunca ensinarão nas igrejas nos batistérios os coroinhas vão morrer estuprados por um bandido chupasangue assassino que ama corpos nus e gozar sêmen em bundas lisas de coroinhas com menos de treze anos pra que possam ir pro paraíso sem julgamento do grande juiz o grande inquisidor o grande pai o grande falo enrabando mundos universos e gozando toneladas de riso na cara de todos os trouxas que não entenderam a infinita piadagraça infinita de não haver o que haver nessa vida senão o não haver dessa vida a memória é um show de standup que já perdeu a graça porque o cara é um gago que ainda não terminou a porra da piada cacete fala logo abre a boca alguém joga água na cara dele fais favoire? obrigado sim sim agora sai? vixi não dá ele não vai e nem nós pelo que parece a fauce comprimida e o comprimido não desce o remédio não chegue no intestino não vai ser sintetizado nós vamos todos morrer e ninguém mais vai nascer de nada a não ser por erro de nascer um nascimento de vida que não tem mais que ter a ver com ter vida um cansaço me invade como a picada de uma abelha que só assim morre a grande glória de morrer e ir-se embora ir e ir sem olhar pra trás sem remorsos de ter ido e deixado tudo pra quem restou o farelo do mundo farelo do pão de merda que enoque comeu ou qualquer outro profeta amém amém ele comeu ouro e ninguém mais depois dele só sade mas sade foi confinado enquanto que o profeta ainda está sendo louvado por sua perseverança nas leis do mestre nosso pai eterno nosso grande amigo e salvador aquele por quem o amor flui como água por uma flor de lótus a grande lótus rosa branca e azul e amarelo que sobrevive na água ou em sua superfície a grande ideia de estar imerso nas ondas dessa vida e ainda estar vivo estar sem ar num aquário sem bomba que refresque e renove a água lodo pra todos os lados o obscuro que tenta aterrorizar e me penetrar e se infiltrar em meu sangue que venha não pare você consegue ir mais fundo que isso deixa que eu te ajudo vamos abre a boca solte a gargalhada final de uma piada cujo fim já foi dito e ninguém ouviu ainda daí ter que ser repetida inúmeras vezes como uma gaguejada frenética o esfíncter do estômago abre e fecha e depois vem o fígado com a bílis abre e fecha e a roda rodando roda roda os intestinos são uma roda gigante matematicamente incalculáveis fractais que explodem as funções de onda quebra do espaço-tempo autonomia do tempo e do espaço cada um num plano que comporta tudo onda e partícula e partícula e onda teoria das cordas formando a matéria desde a sutil até a grosseira o universo inteiro uma mola a impulsionar e expulsionar contrair e distrair traindo todas as variáveis ocultas que a matemática negou com um martelo a ciências dos peixes entenderia melhor tudo isso porque não peixe não sente dor já era outro espaço e tempo e a causalidade terminou aí porque se vamos falar de causa e efeito ela só é possível de uma perspectiva moral em que o bom e o mau são as consequências necessárias que uma causa pode efetivar aí tem as sirenes da agonia avisando que vai ter enchente foge da dor foge da dor foge da angústia e desespero ninguém quer morrer soterrado porque dói e morrer dói por isso morrer é ruim e não dá não dá vamos embora abandona barraco abandona mansão abandona condomínio apartamentoclassemédiacommamãepapaifilhinhosfilhinhasecachorrinhoougatinhovocêquesabe e vamos e vamos ser surdo voluntariamente como que por exercício de riso dos não surdos esses deficientes da surdez e também ser mudos cegos leprosos cíclopes porque ciclope não tem nariz é lisinho do olho à boca ar santa teratogenia dos séculos que nos legaram o amém de uma criança deformada natimorta acéfala anencéfala síndrome de larsen quem conhece? é quando neném nasce sem articulação aí dá pra fazer yoga de boa que tal? quem quer? quem quer? é de graça e não dói nascer assim porque você nunca conheceria como é não nascer assim e não sentir dor assim e a dor seria inexistente? será que peixe não sente dor porque está sempre sentindo dor e aí não sabe o que é não sentir dor pra sentir dor? vixi que viagem a onda tá boa e não para e não para esse inferno essa saída de nenhuma saída… mas vejo uma luz escura, um ponto negro iluminativo, uma iluminura de lua, uma lua que é sol e tem uma lua que é sol também, ela viaja de um canto pra outro, elipticamente, e me dá uma sensação de amor tão grande que o esquecimento vem me perguntar: amor, do que sofres? do que não sofres? venha comigo, vamos embora daqui, você já passou tempo demais e não dá, não não, pera, não pense que é compaixão, espera menino, caramba, que apressado você, me escuta cara, então, tipo, é que eu te amo, entende?

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