Algumas considerações #10

Acabei de ler A divina comédia. Realmente, o clímax não está na visão direta e fulgurosa de Deus, foco intenso de luz que se transmuta, transmutando a visão do contemplador. Quanto mais vemos diretamente Deus, mais queremos vê-lo. Umberto Eco quem diz que, para Dante, Deus é uma biblioteca, já que é onde/em quem/em que se vê, direta e sinopticamente, a essência, o acidente e sua união. E bem como uma biblioteca, esse Deus é bem desinteressante em si mesmo. É justamente por isso que o Inferno e o Purgatório são bem mais — não digo interessantes, mas mais “facilmente” gostáveis. Já que não há nada de fácil em Dante. Mas o movimento dos últimos tercetos ressoa ao movimento de volta à caverna. Deus lança Dante para outras coisas, um relâmpago o demove de uma simples e eterna contemplação, destinada aos mortos do paraíso, já que os outros mortos estão ainda trabalhando na expiação ou no castigo. A contrapartida perfeito do paraíso é o limbo. Não há mais esperança além do juízo final, ou seja, não há mais nada a se fazer. Mas isso me lança para a reflexão do valor da contemplação. Sempre pensei que contemplação é ação. No entanto, para que a contemplação? para que a ação? Para que subir de hierarquia? Para que a elevação? Para Dante, esse movimento encontrava sua justificativa em si mesmo. Fé e absurdo não se contrariam, porque a fé lança o sujeito e seu enunciado para onde o silogismo não existe. Mas se o budismo, como quer Nietzsche, não obstante uma religião da decadência, é ainda uma melhor opção que o cristianismo, então suas consequências têm de ser levadas às últimas consequências. Se Buddha diz que um dos estágios da iluminação é a recordação de vidas passadas, o conhecimento direto de outros mundos, as diversas consequências que os atos acarretam, como facilmente se apreende de qualquer nikaya, então é precisamente aí onde é preciso investir, com ou sem o espiritismo. A multiplicidade das experiências na Terra e em outros mundos, mas principalmente aqui. O budismo menos ortodoxos, especialmente o zen, mas até o mais rígido (ah! as contradições), não reconhece divindades, embora Buddha seja tratado como uma. Não digo erroneamente, porque cada ser sabe, como diz Spinoza, o que é melhor para si, de modo a se desenvolver, não ser destruído. Se o ser sente que precisa louvar e manter-se ajoelhado, mais do que sentado, então está de acordo fazer de Buddha um deus. Note-se que este ser diversas vezes se anunciou apenas como aquele que aponta o caminho (só Jesus se disse o caminho e algo mais). Se você se perde, é problema e experiência sua. Também diversas vezes advertiu sobre o apego a preceitos e rituais. O que soa incrível frente ao enorme número de preceitos e rituais dos budistas, que por vezes beiram a grosseria de um modo pouco cômico, ao contrário das estórias em que um mestre puxa o nariz de um discípulo que, assim, atinge satori, a iluminação, a mente buddha. O que não tem nada a ver com a oração. Toda ação é alegria. Ora-se de muitas maneiras. Enfim, o espiritismo é uma indianização do Ocidente, unido à ciência. Se o budismo não tinha essas preocupações, é porque suas leis, o patimokkha, provinha da própria experiência, isto é, dos preconceitos de um corpo inserido numa época (é aqui que Nietzsche se fascina). Neste sentido, Buddha, como diversas estórias sublinham, estava mais que aberto e disposto a reconhecê-los e, logo, mudá-los. Ainda hoje, o cristianismo, em sua expressão máxima e arquetípica no catolicismo, de que a idade Média nos legou, não está apto, de verdade, a mudanças. Mas, ainda assim, existem linhas de fuga. Seu plano falhou e falha repetidamente, e nisso o plano afirma sua soberania. Por exemplo, é também no Paraíso, pouco antes de adentrar o Empíreo, que Dante o vê de fora como um globo circundado de nove esferas. Brincando com isso, é possível enxergar mais ou tanto quanto Dante: um helioteocentrismo. Não obstante a explicação que Beatriz lhe dá. Pouco menos de mil anos antes, Hipátia já o tinha feito, e sua voz ressoou e ressoa das mais diversas maneiras. Mais do que as entrelinhas, leiamos, ou só leia, a linha. Depois opere a fuga com ela. Deus é o que há de mais desinteressante. Por isso Buddha desaprovou sua busca, sua perquirição. De que vale que ele exista ou esteja morto? Como bem entendeu Foucault, isso diz mais do homem do que de Deus — e realmente, nada se diz de Deus. Spinoza falou dos efeitos de Deus. Falou dos axiomas. Da lógica que Deus encerra. Mas Deus também opera pelo ilógico, i.e., pelo milagre. E é disso que temos nos ocupado nos últimos séculos (pense-se em como as duas, ou mais, guerras fizeram com que pensadores desejassem o milagre e/ou anunciassem o apocalipse, direta ou indiretamente. Muito da expressão dessa tendência está em Benjamin). Aqui surge a noção de acaso como uma tentativa de criar sentido, como é o caso da evolução que opera como uma explosão de dinamite e cuja força nunca se extingue: ralenta e se torna mais sutil, mais lenta, embora essa seja uma noção desconhecida para a explosão. A eternidade, outro nome que busca compreender o ilógico ou o nonsense, não tem nada a ver com o tempo que conhecemos na carne. O que não é desvantagem nem ódio nenhum ao corpo (como dançarino, não conheço essa noção), mas sim algo já dito um milhão de vezes pelos pensadores dos últimos séculos, chamando-o de intuição, estética, vontade, intuição volitiva, hecceidade, ser, virtual. Tudo o que se quis passar por essência pode ser entendido como uma tentativa de fazer do ilógico algo lógico. Por isso Nietzsche diz que Deus encontra sua última morada na gramática — o que pode talvez ser estendido para o campo da linguagem como desenvolvido no século XX. Por isso Derrida encontra no ato de nomear de Adão algo que ultrapassa Deus, que para um instante para ver no que aquilo vai dar. O poder da linguagem, algo tão poderoso na Comédia, basta que Virgílio afirme ser enviado e protegido de Deus para granjear caminho pelo inferno. O “para ver”, para Dante, não poderia ter o mesmo peso que para Derrida e o século passado, ainda mais pela alta posição que Adão tem no Empíreo, ou seja, a expressão de Adão seria expressão direta de Deus, porque repleto de inocência do conhecimento com que depois se engasgaria, e que precisamos engolir de uma vez. Para Buddha, então, em cuja meditação é representado de olhos fechados ou semicerrados, já podemos imaginar o tipo de importância que poderia ter. O que temos de mais próximo, provavelmente, a um poeta oriental no início do século passado é Caeiro (obras concisas, geralmente, são um sinal de orientalização), para quem não basta não ser cego para ver as coisas, e que, como bom ocidental, busca atravessar a barreira dos nossos problemas de dentro (mistério, linguagem, ciência etc.). Mas então o que digo? Que deveríamos abandonar a linguagem como questão fundamental? Talvez repensar o fundamento, pois, enquanto a linguagem for único e maior fundamento da questão, talvez, nunca cheguemos na própria questão. O que é preciso notar na intuição de Nietzsche é, precisamente e também, que a questão da linguagem é Deus ele mesmo. E Deus é desinteressante, reforço. Dos cem cantos dA divina comédia, apenas alguns poucos versos do último canto tratam diretamente dele, e apenas para Dante ser redirecionado à Terra e suas questões. Mais interessante que a biblioteca é pegar um livro e ler. Atravessemos Deus para encontrar a vida fora da janela, nossa clareira.

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