franco terranova/diário: 1895/1995

o amor em suas multiplas formas o amor e seu avesso

hoje sonhei que era meu pai olhando para seu filho que era eu tinha pena dele aliás uma grande peninha dele órfão desde muito cedo não tinha tido a chance de conhecê-lo bem na verdade não sabia como ele (eu) era (mos) esperaí! não dá pra segurar este pepino! este sonho maluco! passava as noites em claro procurando descobrir uma sua (minha) falha genética um sinal de nascença como um daqueles botõezinhos feito uma cor violeta azul marinho apenas apenas mais escuro que sua (minha) própria pele e nada via observava e nada via que lembrasse nele algo de mim / quando jovem nada de sonhos nada de desejos nada de dúvidas que atormentavam minha infância nada de paixões em minha juventude atravessando as noites varando alvoradas niente

encontrava-me ali / observando uma realidade paralela que não conhecia / puxa! dizia lá com os meus botões / isto vai dar uma grande história de amor desamor / falta de amor / desencontros paralelos / sei lá! o amor em suas múltiplas formas / o amor virado ao avesso / encontrando o vazio depois pensava melhor / e via que não era nada daquilo / era muito mais simples bastava pôr em contato / de 2º/3º graus os dois / sei lá! de alguma forma vou fazer que se descubram um ao outro! / vou ter que criar diálogos entre os dois! afinal as grandes tragédias ou comédias humanas tinham diálogos / monólogos / até coros o diabo a quatro! depois daquelas grandes batalhas com um monte de cadáveres / sempre sobrava alguém para contar a história / verdades mentiras realidades paralelas / etc e tal

“ei filho!” o rapaz levou um susto / e pulou da cama onde ficava o tempo todo pensando lendo tocando punhetas / até penso que fosse alguém querendo brincar com ele / mas sabia que estava sozinho em casa / as portas trancadas por dentro / com essa sua mania de segurança absoluta / que sequer tinha / só podia ser alucinação “ei filho! sou eu! seu pai” o rapaz não sabia se gritava / ou ficava calado / resolveu ficar mudo dominando seu medo / depois um pouco mais calmo calmíssimo / perguntou / “é você pai?” “é lógico que sou eu! / quem mais queria que fosse perder tempo com você!?”

estava (te) observando (me) e resolvi falar contigo / entende!? já sei! será difícil explicar! / nem mesmo eu entendo isto! mas vai lá! sim! sou seu pai! ando preocupado com você! está parado faz um tempão / sem nada fazer / sem dizer nada sem nada sentir / e isso afeta de alguma forma minha (nossa) eternidade / passaram-se anos desde que eu me fui / e ainda não vi você carregar peso algum / nem uma daquelas pedrinhas milagrosas / para energizar não sei o que!? a palma da mão!? para rezar!? quem sabe!? fica aí tocando suas punhetas / em sua cabeça diga-se de passagem / sem tesão / sua vida passando / tenho algum direto à ela! já está chegando ao fim!” “pai?…” “pai nada! deixa-me falar! porra! fiquei muito tempo calado! bem que estava morto mas tenho o direito de dizer o que penso sobre meu filho! sobre nós!”

“pai!… porra digo eu! não mande calar minha boca! você vem do nada como se nada fosse/me assustando! e sabe de uma coisa!? duvido que você exista! isto mesmo! posso até ter criado você em meus sonhos em minhas fantasias / mas se você está morto e enterrado! sim senhor! eu estou vivo! tocando minhas punhetas / sim senhor! tenho meus direitos também / direito de nascença que você me transmitiu! foi-se embora sem dizer nada / nem bilhete deixou como todo bom suicída que se tenha respeito faria! / vem você agora querendo se comunicar comigo! esta é boa onde estavas quando tive sarampo!? onde estava quando mamãe limpava cocô da minha bunda!? quando no primário todos olhavam com pena de mim!? / grande tragédia em família! só faltava ser comparado à cabana do pai tomás! sentimento meloso nojento! onde estavas pai!? quando perdi os 100 metros livres na piscina do flamengo!?”

“peraí! seu safado! você não tinha o menor talento para nadar! devia ter ido à hípica ou ficado em casa para estudar! não me venha culpar dos seus fracassos! isto é falta de caráter! bem que pegou este lado de sua mãe! que deus a tenha! acho que fiz um grande erro querendo me comunicar contigo! devia ter imaginado que vossa psiquiatria não podia ter eliminado a tal incomunicabilidade humana entre os vivos bem se entende! porque entre nós mortos / nos entendemos muito bem graças a deus! / ciao amore! voumembora!” “esperaí! aonde vai!? está fácil fugir agora depois de ter esculhambado até com a minha mãe! você fundiu minha cuca! sim senhor! vá embora justagora?! não me deixou falar nem um pouco! tenho/temos tanta coisa para descobrirmos juntos! no fundo eu sabia! você é como todos os fracassados / botando filhos neste mundo à toa sem saber por que! um preservativo para dar cabo de toda ela ou um vírus qualquer que vem por aí”

“chega! não tenho mais saco! estou cansado de conversa fiada! não vim aqui para discutir filosofia barata com você! não me importa um figo seco se sua ciência um dia vai poder encontrar seu deus! me ne frego! não estou nem aí! vim me comunicar com você sim! é tão grave assim!? tentar ver se vocês (nós) dois pudéssemos nos entender um pouco! enfim falarmos de amor! merda! melou! já ficou nojento! feito a cabana do seu pai tomás! queria contar desamor falta de amor / desencontros paralelos! eu vim para tentar corrigir seus (meus) erro ensinado-te a viver! mas quem sou eu!? antes de eu mesmo viver já tinha morrido! observei a vida em outros mundos / em outras galáxias / alguma coisa aprendi durante essa minha estranha morte! / morte prevista programada como nenhuma outra! sim! aprendi a ficar calado! já falei demais para meu gosto! cialo bello mio! desmanchei meu sonho

não canto piú al mattino né fischio all’alba faccio la mia pipí im silenzio

hoje acorde com uma puta dor de cabeça porra! digo eu

—- franco terranova/diário: 1895/1995 R$ 2 no metrô

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