Algumas considerações #8

A moral

Afinal, é de se perguntar: até onde nos levou a ideia de falta de moral dos últimos dois séculos? Que tipo de arte pôde ela criar, de modo que possuísse a grandeza de que tanto se ouve falar haver nos tempos antigos, mas que até o século XIX sobrevivia? Assusta saber que o nosso tempo não poderá produzir obras que tenham o intento de alçar-se à eternidade — assusta saber que há tantos “poucos singular” que possuem tal ideia no espírito, que buscam uma obra que não seja pura representação de alguma ideia ou de alguma realidade, mas que seja algo além, afinal de contas, não importa alcançar o objetivo, importa tê-lo na vista, apoiando-se folguedamente na figura do homem com mão num absurdo sensitivo. A filosofia é tão repetitiva que chega a cansar por vezes, i.e., para quem deseja mudanças que soem extremadas: Nietzsche não desejou destruir a moral, não foi para isso que direcionou seu martelo, mas quis fazer um uso diferenciado da moral, uso anômalo do estilo asceta de vida: mudam-se os fins, mas os meios ainda são mantidos. Se há obra, seu horizonte deve ser o da mais pura fisicidade, a afirmação suprema da realidade humana em multivariadas formas: não há metafísica, o azul fugaz do sonho é ainda o mais físico que há, porque existe e é humano. Desse modo, fazer uso de uma linguagem metafísica, hoje, é tentar encontrar um modo mais físico e justo de expressar. — Ouvir Bach é ter à sua frente, sinestesicamente, a maior representação de deus: por isso que este senhor deve muito àquele, pois foi apenas através de Bach que deus passou de fato a existir. E, ainda nessa forma, pôde o alemão, muito sabiamente, dar-lhe o lúdico que os escritores não souberam dar. — O ateísmo de hoje criará jamais obra alguma que alcance o pus do dedo encravado de Agostinho de Hipona, porque a seriedade e  disciplina deste, por conta da própria moral que teve, foi capaz, também, de moldar um espírito que soubesse resignar. É de se crer que o verdadeiro ateísmo exista em Epicuro e, consequentemente, em seu maior discípulo, Lucrécio.

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