In Massam Orationes #1: Sôfrego do artesão

“Quousque tandem abutere, Massa, patientia nostra?”

Criar, seja lá o que for, o homem, um novo aparelho eletrônico, um poema, que seja enfim, é um trabalho de lapidação. Labor ao limite. O que acontece muito é que as pessoas confundem a criação com a expressão. O segundo, ex-pressão, é o fazer pressão para fora, nas palavras de um mestre, caganeira. Exprimir-se não é necessariamente criação, é apenas pôr, em vias retais vez em quando, aquilo que está dentro de si. Já a criação é, nas palavras doutro mestre, “aquilo que passa do não-ser ao ser”, e não para por aí: sendo, é lapidado, moldado, talhado, e cada coisa posta ali é posta por um motivo: na criação nada é à toa. Eis a diferença significativa entre ler uma criação poética, a qual por ventura podemos denominar poema ou prosa poética, e uma expressão amadora (no sentido etimológico da palavra, a que ama), a qual, por mania ab-surda de generalização, podemos vir a chamar também de poema. Quando foi de fato uma criação, cada palavra ali posta deve ser pensada, pois diz, em com-junto e separadamente, alguma coisa de suma relevância. Quando se expressa, normalmente, é uma ideia geral de qualquer coisa serve e é a finalidade. Aos que se propõe, a por exemplo, ler uma criação literária, é mister saber que a leitura é um processo cuidadoso e que exige tempo, é tão similar quanto a própria criação.

Catar feijão

(João Cabral de Melo Neto)

1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

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