Algumas considerações #6

Psicanálise, esquizoanálise e o cósmico

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza
Porque a Natureza de ontem não é a Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

A psicanálise se baseia naquilo que é mumificado, num esquema de pirâmide, em que o cerne da coisa é o que esteve lá por milênios, sendo uma simbologia para indicar a eternidade do inconsciente. Eles partem debaixo para cima, do inconsciente para o consciente. Por quê? Justamente, porque o inconsciente já é algo dado, logo, alguém fala o que já é dado pelo inconsciente, sendo tarefa da psicanálise, tão-somente, saber identificar tais ditos e não-ditos. Em contrapartida, surge a esquizoanálise (apesar de D&G descartarem este nome após um tempo, pois parecia que eles só tratavam do esquizofrênico, uso esta nomenclatura por ser a mais popular) para se contrapor a este modelo bélico-psicanalítico e instaurar novos modos de subjetivação. Agora, o inconsciente não mais é algo dado, mas ele se forma junto ao consciente. Agora, há a superposição de mapas, parte-se do consciente para chegar ao inconsciente. Diferença de vetor e de natureza, justamente porque o inconsciente já mudou de estatuto. Um não existe sem o outro. O modelo agora é de uma subjetividade nômade, que nunca para, que está sempre em movimento, deixando algumas pistas e símbolos pelo caminho, sendo trabalho do esquizoanalista analisar o mapa dessas inscrições, analisar os caminhos traçados. E, agora, quem ousará a subjetividade da revoada? Quem ousará uma subjetividade que se pauta no “devir-cósmico da criança”?

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O conceito de buraco negro

Com certeza, é este o conceito mais fácil de entender do D&G: um recém-nascido está inserido num buraco negro e no plano de imanência ao mesmo tempo. O bebê vê tudo como novo, mas fala através do caos, não fala, balbucia. Aos poucos, ela vai saindo desse buraco negro e adquirindo voz. Eis o nosso momento, quando entramos em cena com a criança.

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