O caminho

Pensar os caminhos, eis algo que, talvez, a psicanálise não tenha feito, salvo algumas exceções, mas que se mantiveram num nível de análise superficial demais. Podemos perceber isso no exemplo de Hans: Freud se esforça em mostrar (de maneira risível, como na maioria das vezes) os encadeamentos do inconsciente; Hans sai de casa, Hans vê um cavalo apanhando, como Hans reage a estas coisas. No entanto, Freud não se aprofunda o suficiente para saber como o próprio caminho, e não apenas elementos isolados desse caminho, se relaciona com Hans. Árpad, o “menino-galo”, é exatamente a mesma coisa; Ferenczi se mantém em um nível que não é o suficiente. É dificílimo achar qualquer preocupação com o meio, e é por isso que o empreendimento de Deleuze e Guattari é tão importante e necessário, pois entender os meios permite entender o todo, quem sabe. Françoise Dolto é, pelo que parece, a psicanalista que mais se preocupa com os meios, principalmente os da criança. Segundo ela, a criança não está mais inserida no meio que lhe é natural, ou seja, a criança, hoje, anda de carro, não sente mais o cheiro da natureza, não sente mais a própria natureza, chegando ao extremo do avião e do trem-bala. A criança, desse jeito, se foca apenas naquilo que está longe demais dela, como se a distância de algo fosse decisivo para haver uma relação com esse algo. Só que já não é, e talvez nunca tenha sido, possível pensar desse jeito. A criança nunca está excluída de um caminho. São sempre caminhos que, muitas vezes, podem facilmente ultrapassá-la, criados por ela, novos, antigos, revisitações, desterritorializações. Um caminho nunca é melhor que outro, o caminho da natureza não é melhor que o caminho de uma dança de dedos que ela cria, agenciando a um ritmo de pés e solfejos, gorjeios. Mas por quê? Talvez porque dizer que o caminho da natureza é melhor implique em uma valoração moral do caminho: a natureza não é boa nem má, não ajuda nem atrapalha, o caminho é inocência antes de tudo. Rousseau nunca entendeu isso. No entanto, é inegável afirmar que Rousseau e Dolto querem algo muito bonito e que, de fato, é algo muito agradável de ser vivenciado: um jogar-se na natureza, na vida, fora da máquina (que, estando de acordo com Nietzsche, é pura impessoalidade, por não haver a possibilidade, sempre latente no homem e na natureza, do “bomdefeituoso, o que é inerente a todo trabalho não realizado à máquina.”). Há algo, na natureza, que, mandatoriamente pelo que parece, falta muito na sociedade atual, não sendo surpresa a ideia de fugir para aquela ser algo bastante frequente hoje em dia, uma fuga intensa, desterritorialização da sociedade do asfalto. Há uma paixão intensa na experiência do fora de casa (no caso, este fora é o da sociedade) que podemos perceber na diferença intensa entre andar na grama e andar no asfalto, machuca.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

Sem vaidade e egoísmo – que são as virtudes humanas?

Nietzsche

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