O instinto de morte

Os psicanalistas, em geral, se posicionaram de forma pouco crítica ao conceito de instinto de morte que Freud teorizou como algo universal, como algo que ocorre a todas as crianças (especialmente). Os complexos de Édipo e Electra são uma das formas de manifestação desse instinto, as crianças querem criar um domínio próprio a partir da morte do pai ou da mãe. O processo de territorialização enquanto um meio definido para um fim específico.

Mas isso não é verdade. A criança está constantemente criando territórios, nunca se cansa de falar o que está fazendo, o que quer fazer, o que pensa em fazer, nunca se cansa de mapear novos caminhos que independem ou não de seu fim – não é raro achar uma criança que faça algo sem ter um porquê. A psicanálise busca exatamente esses porquês, mas nunca sem cair na armadilha da lógica: há a tentativa de tornar lógico aquilo que é, naturalmente, ilógico (a própria natureza age contra si mesma, é nesse âmbito que considero a psicanálise como uma forma metafísica de tratar o inconsciente). Não se trata de dizer que algo é ilógico e pronto, acabar aí e não tentar nada além, não tentar entender a ilogicidade do ilógico, mas sim em não querer outra coisa senão esse ilógico. Ela se afirma como a grande ciência que dita as regras do inconsciente, mostrando mais uma vez que erra desde seus primórdios. O processo de territorialização, de tentativa de territorialização, não está ligado apenas com o instinto de morte, ele não precisa da morte de algo para se concretizar, ainda mais porque, ao falar de infância, temos de falar em termos pré-subjetivos e objetivos, logo a morte de algo não seria de fato a morte desse algo, mas a morte das potências desse algo (coisa que a psicanálise ignora completamente, uma vez que as potências de algo nunca morrem). Uma criança machuca um macaco para fazer carinho nele, para se aproximar dele – não porque quer exteriorizar seu instinto sádico de morte, como se assim estivesse realizando seus desejos mais profundos, mais recônditos e incompreensíveis. A criança não teme a morte – e isso apenas alguns bons psicanalistas, como Françoise Dolto, puderam perceber, mas não ir muito além disso –, por isso falar de infância e morte já é errar, pois o modo que concebemos a morte com certeza não é o modo que a criança vê tal acontecimento. Pois é a morte um acontecimento, não uma transcendência. Quando se joga sal em cima de uma lesma, não se pensa na morte da lesma, mas no acontecimento dessa morte, nas contorções da lesma: contorce-se a mão ou o corpo para imitar, sem nunca imitar, a lesma. O caso dos psicopatas torna-se ainda mais interessante quando pensamos dessa maneira: uma infância em que a morte nunca saiu de seu estado de acontecimento puro, ou seja, um estado extra-moral, supra- ou infra-moral (no todo, um lugar em que a moral vigente não aja). Cristian Fernandez é um ótimo exemplo disso. A psicologia forense ainda não evoluiu nesse caso, estagnou-se junto com a psicopatologia e psicanálise.

Dois filósofos, juntos, haviam afirmado que a criança vê tudo como máquina: uma menina, uma locomotiva tem um “faz-pipi”? Evidentemente que sim, pois os agenciamentos infantis são mais maquínicos do que orgânicos. Desse modo, a morte não é um acontecimento orgânico: um trem morre, a água morre – e rimos quando ouvimos uma criança falar algo do tipo. E é exatamente isso o que o Principezinho (Steven Warner) fala ao Piloto (Richard Killey) quando este não compreende a possível morte de uma rosa, as consequências funestas desta morte. Visto por esse outro ângulo, torna-se evidente que o instinto de morte psicanalítico perde toda sua funcionalidade efetiva, tal qual o processo de totemismo e introjeção que, respectivamente, Freud sobre Hans e Ferenczi sobre Árpad falam, pois o que importa saber não é como Hans se influenciou pelo cavalo e nem o que ele viu ali representado (segundo Freud, seus pais transando) nem como Árpad permitiu que o galo fosse, supostamente, uma extensão de si, mas entender o devir-cavalo de Hans e o devir-galo de Árpad, buscando traçar os caminhos que levaram e permitiram esse devir, pouco importando o cavalo e o galo (mas importando mais as potências do cavalo e do galo).

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