Contra Sartre

Talvez seja ele o melhor filósofo do existencialismo. Ouso dizer que seu ateísmo o deixou bastante lúcido quanto a várias assuntos de que tratou. Não irei, aqui, opor-me a sua famosa ideia de que a “existência precede a essência” – é uma ideia, sinceramente, que faz algum sentido em sua filosofia, levando em conta que ele dá e adiciona significados a esses termos canônicos na filosofia. Tratarei do modo que ele, indo bastante de acordo com Husserl, concebe a consciência.

Para Sartre, a consciência é o nada. Aquele para si de que ele fala é exatamente isso, o para o nada que é a própria consciência. É uma das maneiras que Sartre achou para afirmar o próprio empirismo, ou seja, para que a consciência saia de seu estado de nada, ela tem de ir para aquilo que está fora, aquilo que Husserl chamou de “intencionalidade” e que Sartre leva ao extremo. E esse é um movimento que a consciência faz sem ter o pleno controle, é algo automático, essa é, para ele, a liberdade do ser, por isso aquela máxima dele de que “o ser está condenado à liberdade”. Ou seja, é um imperativo categórico: o ser nada é se não para fora de si.

“Das seh’ ich aber ganz anders”, como diz um de meus mestres. Só se considerarmos que há um eu, ou, como gostam de usar os exagerados, um Eu. A consciência de Sartre não dá asas para a solidão, como se ela fosse um monstro que nadifica o ser. Isso, no entanto, porque Sartre não considerava um outro plano de sensações, “um plano transcendental, mas totalmente real” e que sentimos. Desse modo, um alguém encontra em si não apenas potências dele mesmo, mas potências que se aliançam, potências de diversas velocidades. O consciente nunca é nada, mas sempre algo, pois ele nunca é um eu, mas sempre alguma coisa, indeterminada, mas ainda existente. É exatamente o mesmo tipo de pensamento que grande maioria dos poetas repete: “O Eu é um outro”, “o cantor da paisagem vista da janela” etc., como se apenas no outro encontrássemos a verdade de si, ou qualquer verdade que seja.

Se há alguma verdade, ela está na vida. A vida não é outro, nem eu, a vida é devir, e devir é tudo, não tendo subjetividade. Se não há verdade, isso pouco importa.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia

“Certa quidem finis vitae mortalibus adstat.”

Lucrécio

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