O papel do poeta na construção do mundo.

Segue-se que a vida é essa: una e múltipla. É a convergência de todo o caos num ponto aparente de mundus (ordem). O poeta é aquele que se desloca deste ponto de ordenação, e no real – res – bebe da fonte. O poeta é aquele que, acima de tudo, tem um relacionamento com a coisa. Poesia, em seu sentido essencial de criação, é, senão, a desordem posta na ordem. É a criação pactuada pelo caos.

Ora, quem ousa afirmar ordem na obra de Fernando Pessoa? Quem ousa afirmar que ali é mundo? Toda aquela realidade desordenada, potente em vida, gloriosa em tensão, é uma mera simplicidade ordenada, racionalizada, congelada? Fernando Pessoa, se assim posso dizer, é a explosão do cosmos em caos. A própria desmundificação. Diz-nos o poeta em seu poema Isto:

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não use o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Pessoa vai do dito concreto, da realidade/mundo, e apela para outra instância, para outra realidade possível do real, nomeando-a de imaginação. Ele transita pela desordem e de lá toma a massa criadora, irmã do húmus, usado para criar a nós, os homens. Aos in-sensíveis, não passa de uma mentira, de um fingimento. Por isso ele alerta, não use o coração! E por que não usar? Ora, por mais que haja uma dualidade típica coração x razão, ela não se encaixa aqui. Tratamos do logos, a linguagem, a palavra, o motivo; e não da ratio, a sintetizante visão lógica das coisas. E, neste campo, esta frágil dualidade, entre um lógos (reduzido à racionalidade) e o coração, lar de Eros – o desejo pelo Bem –, não ocorre. Isto porque Eros se dá na linguagem, e dela não vive sem. O dia-lógos ocorre. Portanto, usar o coração, enquanto item de uma dualidade falida de coração x razão, não se deve fazer. Porque, ainda, estaria se trabalhando no campo da ordem, no mundo.

E indo ao caos está um terraço. Um firmamento sobre a imensidão caótica. Uma ilha no devastador oceano. É firme, pois é necessário pousar, mas atenção! é lindo, contudo, a desordem, o oceano furioso! Sim, porque a beleza, o Belo platônico – que também é o Bem – vigora e mora no real, no caos oposto ao cosmo. E lá a beleza re-pousa continuadamente, porque é lá que tudo é, independente de tudo. Este terraço também é a marca de que no real nunca se chega a um lugar sólido, e que no caos tudo é, tudo passa, ali tudo vige e sempre e sempre.

E é na desordem que o poeta escreve, que o artista cria. Há quem diga que suas criações são reorganizações deste caótico. Discordo. Arte não é organização, muito menos reorganização. É mais, é criação, geração, a passagem do não-ser ao ser. E tal passagem só se dá quando está num diálogo intenso com o real, quando se recorre ao caos. Pois, pense, segundo a cosmogonia grega, Hesíodo diz que “bem primeiro nasceu Caos”, e do Caos nasceu Noite, e da Noite, Dia. E donde mais o artista geraria suas obras senão do caos? É da desordem total que surge a luz que ilumina vida.

Pois é nesse real desordenado que ele, o poeta, livre de suas confusões, e sério, atento, disposto a dar-se a o-que-não-é, cria. É dando-se ao real que ele potencializa sua força criadora. O que se cria no mundus mundo não é senão a ordem, o banal, o ordinário cotidiano, tudo aquilo que o olho humano já alcança naturalmente.

E ao fim desse trabalho, desse acordo, dessa travessia, o poeta, o artista, que já finalizou sua obra, deixa seu recado: “Sentir? Sinta quem lê!” Que aquele que se propuser a dialogar com a obra dê conta de dialogar com ela. O papel do artista já acabou. Com a obra per-fecta, sentir? Sim, a dúvida, a possibilidade entre sentir e não sentir. Não importa. Sentir? Que sinta quem a ler! Quem estiver disposto! Posto que a obra, em toda sua completude, já é! Feita do caos, da desordem, do nada (a reunião de todas as possibilidades possíveis), do real, ela é, e cabe a nós decidirmos manter ou não um diálogo com a obra.

E assim deixa a obra sua marca sobre a humanidade, sendo a ponte entre o real e o mundo: entre o que é e o que existe, entre o tudo/nada e o homem. O artista também é responsável por isso, pois do nada garimpou a ponte; vai da realidade para o real. E há versos de Pessoa que corroboram para isso, que elucidam que a obra é a ponte, é a linguagem, o logos, entre o homem e o real:

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que ele não têm.

E com isso, fazendo uma resposta ao que Platão deixou por entender em A República, digo a ele: O poeta não precisa da república. A república precisa do poeta.

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