Algumas considerações #5

nenhuma leva ao ar livre, ao ar do livre-arbítrio; cada uma, através da qual até agora se tentou escapar, revelou novamente por trás o muro brônzeo do fado” – Assim falou Nietzsche ao se referir às filosofias anteriores a ele. Este é um buraco que se tenta tapar até hoje – a filosofia do século XX inteira foi uma tentativa de criar uma filosofia que expressasse a vida em toda sua plenitude (talvez apenas na era dos gregos e latinos clássicos essa era uma preocupação grande e central; havendo algumas exceções no decorrer do tempo). Qual a diferença entre os dois tempos? Velocidades. Hoje nós tentamos a descrição rápida de uma vida em que tudo é rápido. Os gregos eram lentos e gostavam de ser lentos – uma verdadeira escola do ócio. As informações gregas e latinas são tão lentas que até hoje tentamos entendê-las. Nesse mundo contemporâneo, nascemos com toda essa velocidade alucinante ao nosso redor e, parece, crescemos com o dever ou de se jogar com tudo nessa velocidade, obrigar-se a ser tão rápido quanto, ou de desacelerar, entrar em outro fluxo – é exatamente o que Nietzsche diz ter conquistado no prefácio de “Humano, demasiado humano II”. – Enquanto o romantismo na música é a vida enquanto dor e sofrimento, tendo toda uma canga metafísica da negação que perdurará até os dias de hoje com o que restou da psicanálise, o impressionismo é o verdadeiro ápice da música e da pintura – ainda me surpreende como ele teve uma vida curta por causa do expressionismo. Este tenta encontrar meios de expressar a vida com todas as suas loucuras e velocidades, é a tentativa de subjetivações outras da hecceidade-vida. Mas é exatamente o que o impressionismo faz! É a própria busca dele. E há ainda um fator importantíssimo que ele não deixa fugir: a beleza. A vida ainda tem sua beleza (caótica e infantil) apesar de todas as dores do século XX – quem dera esses europeus tivessem o amor à vida que tinham os gregos, que a partir de guerras criaram duas verdadeiras e grandiosas artes da vida: a lírica e a tragédia. O expressionismo não passa de um romantismo ao cubo. Schaeffer se esqueceu que o menino que cria sua música a partir da criação de um instrumento, uma folha de capim, comporá música imanente, música de vida, que segue suas linhas loucas, exteriorizada de um corpo sem órgãos, linhas sem centro – mas ainda assim, linhas que possuem uma beleza, linhas dançantes. O balé expressionista com sua música expressionista é aquele que se diz independente da música, a dança requer sua autonomia. Mas é uma pena, para eles, que isso não exista – o devir da dança é a música e vice-versa. O menino cria uma dança que devém folha de capim. O expressionismo se esqueceu que a música é dança, a vida é dança, que as notas têm que dançar em seu próprio campo que é a partitura. O expressionismo é um segura-parede no baile do barroco, classicismo, impressionismo e romantismo (pois este ainda dança, moribundo, mas dança). Nossa época sofre por um excesso (niilista) de ideologias. Nietzsche se espantava com a ideia de um barbeiro falar de ética, moral, política, fazer críticas e tudo mais – as ideologias invadiram todos os lugares e se multiplicaram sem cessar como se tivessem tal direito! O contemporâneo é um rococó ao contrário.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

Um de nós começou a cantar uma modinha, mas nós todos queríamos cantar. Nós cantamos muito mais rápido quando o trem partiu, nós balançamos os braços, pois a voz não bastava, nós fomos com nossas vozes para uma multidão na qual nos sentíamos bem. Quando sua voz se mistura com outras, é como se você estivesse preso num anzol.

Franz Kafka

3 thoughts on “Algumas considerações #5

  1. “O contemporâneo é um rococó ao contrário.”

    Eis uma conclusão perspicaz. Embora pouco ou nada possa falar no impressionismo na música, vejo isso que dizes na pintura; o impressionismo desapareceu pouco tempo depois de ter surgido, o que fez com que alguns críticos de arte o considerassem uma moda passageira.

    A contemporaneidade insere-se num tempo estranho, em que tudo se atropela – o impressionismo fora atropelado por uma ânsia de novidade, que no final acabou produzindo o efeito contrário: nada se cria, pois nada se acaba, tudo se devora. O que temos hoje não é apenas ideologia por toda parte, mas fragmentos e mais fragmentos, Marx tinha razão ao afirmar em seu manifesto que “tudo que era sólido desmancha no ar”. Fala-se de política sem saber exatamente o que ela é; fala-se de economia sem saber exatamente como ela funciona; fala-se de arte sem saber o que exatamente é arte; fala-se de moral sem saber o que é exatamente a moral…

    Todas essas coisas tornaram-se pálidas. A verdade agora exibe sua face cadavérica. É o niilismo de que fala Nietzsche.

    O que deve-se evitar, no entanto, é toda forma de saudosismo, de um voltar-se para trás e lá permanecer. Vejo isso no caso do Deleuze e na interpretação que faz ele do intempestivo de Nietzsche: é ótimo que o tempo esteja louco, que tenhamos suspeitado cada vez mais da flecha do tempo, pois aí nós descobrimos um tempo múltiplo, desigual, como o qual nós traçamos linhas de fuga ativas. Não se trata de refugiar-se no eterno ou querer um retorno àquela época em que o tempo estava nos trilhos, mas de abandonar-se ao intempestivo do nosso tempo, esse tempo enlouquecido que é o que nós temos e com o qual nós podemos fazer alguma coisa.

    • Sim, todos os bons filósofos condenaram o saudosismo. E eu não sou diferente. Quando faço uma apologia ao impressionismo não é nenhum desejo de voltar ao impressionismo, mas sim o desejo de reterritorializar o espaço em branco deixado por conta do expressionismo. Eu tento um movimento parecidíssimo, creio eu, ao de Nietzsche: uma volta à época trágica dos gregos para dar um novo lugar a essa tragédia, devolver seu lugar de direito. Não vou me repetir quanto a crítica do expressionismo – o que eu tinha para falar dele está no texto. O que sou extremamente contra é a ideia de que o expressionismo seja aquilo que Deleuze e Guattari chamaram de “devir-cósmico da criança” e que Sílvio Ferraz reitera. Isso só será verdade se admitirmos que tal devir é estático, o que é absurdo. A atonalidade não é o cósmico, assim como o tonal não é apenas o terrenal. Eu identifico a fusão de uma tonicidade (terreno) com uma acentralidade (cósmico) da linha que atravessa a música apenas no impressionismo, o que constituiria o verdadeiro “devir-cósmico da criança” – uma acentralidade dançante (não é, por algum acaso, Debussy o compositor mais infantil? Eu o acho pelo menos).

  2. Acho que a ideia principal que cerceia tanto a questão da angústia do inexplicável para as diferentes correntes filosóficas quanto para o excesso delas é sobre esse “amor à vida que tinham os gregos”.
    Na própria filosofia, as ideologias se davam de maneira menos deterministas; pensando por exemplo, no prazer e valor que nutriam quanto ao debate político e no método socrático de aprendizado. Daí permitia-se melhor esse desmanchar no ar que é próprio da transformação constante da vida e tals.
    Outra coisa quanto a isso, é a importância da poesia- daquela poesia que se manifesta materialmente, substrato dos poetas- para os gregos. Essa é uma das coisas, que ao meu ver, é inexplicável a nível filosófico. Pois não deve ser algo passível da racionalização.
    Já vem de Calino a noção do ‘carpe diem’ ao desenvolver o tema da efemeridade: “ligeiro tendo o ânimo/ muitas coisas sem fim pensa”. Nisso, denuncia essa ingenuidade do eterno, da própria promessa do “amanhã” e da ansiedade que essas promessas provocam no ‘hoje’. Inclusive “efêmero” no grego é algo como “montado no/sobre o dia”.
    Sobre essa poesia, ainda, acredito que seja ela que livre do fado que Nichê diz; pra mim, são muito expressivos e ilustrativos (nesse caso) os versos de Whitman: “I too am not a bit tamed, I too am untranslatable, I sound my barbaric YAWP over the roofs of the world”
    A aceitação de uma certa incomunicabilidade é essencial para se libertar do próprio fado que, verdadeiramente, é de todo ser humano, e entregar-se a tal poesia.
    (cara, esse texto me empolgou né, prometo que estou acabando)
    Sobre o que o amigo Rico disse aí em cima; ‘tudo se devora’, me lembrou muito o manifesto antropofágico do modernismo brasileiro; era exatamente disso que diziam: associarmos e ‘digerirmos’ todo esse fuzuê que se desenhava (isso que ainda era começo do sec XX). Enfim, mais recentemente, um projeto de Michel Melamed retornava a questão: seu espetáculo “Regurgitofagia”, parte de uma trilogia de peças, recriava a deglutição: ” Em suma, o que fazer com a impossibilidade de assimilação, o estado de aceleração, a síndrome do excesso de informação (dataholics), os milhões de estímulos visuais, auditivos, diários, que crescem em ritmo diametralmente oposto a reflexão? ‘vomitar’ os excesso a fim de avaliarmos o que de fato queremos redeglutir.”
    E então, voltamos à questão da impossibilidade.
    Acho que uma das causas (ou ao menos agravantes) disso é esse pensamento ‘engavetado’, manifestado aí nessa ideia da dança expressionista que existiria sem música.
    Aceitando a liquidez na qual flui a própria efemeridade das coisas, não deveríamos ser tão rígidos em conceitos, e antes de defini-lás, compreendê-las por sentir. (isso inclusive é algo que os indígenas tiram de letra perto da nossa sociedade:sabem sentir; mas vou parar de falar)
    boa música aliás. bem dançável.

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