Devir-intenso, devir-fúria

Aqui eu pretendo discorrer sobre o conceito de devir em Deleuze e Guattari, apresentado no volume quatro de “Mil Platôs”, primeira parte. Ao longo do artigo procurarei usar um exemplo, digamos, “prático” para poder demonstrar aquilo que os autores conceituam.

_

Deleuze é um filósofo muito difícil para mim, eu (e mais meio mundo) tenho dificuldade em compreender sua escrita, sinto dores de cabeça com suas palavras. É como eu falei com um amigo meu: Deleuze leva ao extremo o que Nietzsche quis dizer com uma filosofia à pancadas de martelo. Mas todas essas pancadas são necessárias, são um sacrifício que o próprio leitor deve se submeter: para ler Deleuze (e Guattari) é preciso ser corajoso o bastante para botá-la em jogo, e tem de ser muito cabeça dura para aguentar as pancadas. É bem aquilo que Kafka diz naquela carta. Aliás, eis outro escritor que martela sem piedade. Parece que temos, depois de algum tempo, de ter um devir-estrela-do-mar para permitirmos a reconstituição da cabeça decepada e esmagada, ou melhor: das várias cabeças decepadas e esmagadas – e ainda ter de aguentar a visão de nossos miolos espalhados no chão. Agora, deixando um pouco de lado essa violência existente na escrita desses e outros autores e filósofos, é incrível perceber como que essas palavras estranhas, complicadas, são coisas da própria vida, uma linguagem em busca da vida, da positividade inerente dela.

O devir, segundo tais autores, não é imitação, não é tornar-se (e isso é algo que as línguas germânicas, p.ex., sofrem: no inglês, devir é “becomming”; no alemão, “das Werden”). É falso dizer “ou imitamos, ou somos”. O devir não produz outra coisa senão a si mesmo: o devir não tem um sujeito distinto dele mesmo e nem de um termo, isto é, um objeto, pois este está apenas em um outro devir, que se relaciona a partir de alianças, nunca de dependência ou filiação. Expliquemos agora o que foi dito: dizer que um devir não necessita de um sujeito distinto significa que ele não é dependente de outra coisa que não a si mesmo, um bloco de devir é sempre independente, ele existe por si só; dizer que um devir não tem um objeto em si significa dizer que o objeto está em outro lugar, em outro bloco que fará a aliança com esse bloco, sendo que o sujeito nunca se torna objeto e vice-versa; dizer que um devir não se reduz a uma relação de dependência ou filiação (aliás, essas duas palavras são sinônimas, sendo que a segunda também tem o sentido de adoção) é apenas consequência de um devir ser independente, como já foi mostrado.

O devir não produz outra coisa senão ele próprio. […] O que é real é o próprio devir, o bloco de devir, e não os termos supostamente fixos pelos quais passaria aquele que se torna.

Dizer que um devir é “da ordem da aliança” significa que não há perda entre as forças, não há perda da individualidade, não há troca: os devires se mantêm. E é exatamente esse aliar dos devires que permite dizer que “o devir é involutivo”. Segundo Deleuze e Guattari,

[…] involuir é formar um bloco que corre seguindo sua própria linha, “entre” os termos postos em jogo, e sob as relações assinaláveis.

“Seguir sua própria linha” é não perder a posição de sujeito. Isso, aliás, me parece muito com uma crítica que os autores fazem contra a alteridade: um sujeito que perde sua individuação em prol de ser o outro, de se botar na posição do outro. Uma posição contra o “eu [que] é um outro”. O devir nunca perde sua subjetivação, um ser nunca é outro ser. Imitar é sempre um movimento contra a vida e o devir, é regredir, ou seja, “ir em direção ao menos diferenciado.” Por isso não é certo dizer que a criança, aquela que, por não ter uma consciência (completamente) desenvolvida, está totalmente inserida no plano de imanência, local em que os devires circulam livremente, copia. O plano de imanência é a própria vida; o bebê é a vida – e vice-versa.

Preferimos então chamar de “involução” essa forma de evolução [associativa] que se faz entre heterogêneos, sobretudo com a condição de que não se confunda a involução com uma regressão.

Justamente porque a “involução é criadora.”

_

Acredito piamente que eu não sou o único a pensar, numa primeira leitura mal digerida, que tudo isso é abstrato demais. Por isso que é sempre uma surpresa quando me deparo com algo da vida que remete exatamente a esses e outros conceitos. Não darei um exemplo propriamente da vida real, de nosso mundo, mas falarei de um outro mundo que é resultado de um feliz encontro entre um homem e uma linha de fuga. Falarei de um dos personagens desse mundo. Pode parecer um exemplo cômico e me desculpo por isso, mas acho que o encontro é feliz e talvez ajude alguém; senão, fico feliz em saber que me ajudou pelo menos.

Saga mais foda aliás.

Foi igualmente uma grande surpresa quando assisti, depois de o ter feito apenas na infância, perceber que eu poderia falar de Deleuze a partir de algo tão inusitado. Comecemos então.

Gohan sempre foi um personagem conhecido por possuir um poder oculto que sempre lhe foge do controle quando se enfurece. Sua personalidade é dividida entre a de um guerreiro e a de um ser humano que apenas quer viver em paz, sem luta, sem precisar lutar. Gohan é uma subjetividade que se manifesta a partir de um bloco de devir duplo: o humano é o predominante; o guerreiro só existe enquanto ligado a um termo. Não há nenhuma outra saga que mostre melhor esse outro lado do que a da imagem: Gohan só vira guerreiro, só se deixa apropriar por um devir-guerreiro, quando faz ligação com um devir-fúria, o termo. Essa apropriação violenta, de um sujeito dentro de um bloco subjetivo, constitui um devir-intenso, que é o contrário de um devir-imperceptível. Porém, Gohan nunca deixa de ser Gohan apesar de tudo: o sujeito mantém-se sempre como sujeito; o devir-fúria que é o objeto, a linha de fuga de um devir-humano, que, nesse caso, não se opõe ao devir-guerreiro, pois ambos são sujeitos de um mesmo bloco. Apesar de Gohan se enfurecer pela última vez na saga do Cell, ele já tinha se enfurecido em sagas anteriores: um devir é sempre “da ordem da aliança”, há sempre reencontros banhados de outras potências: Gohan nunca se enfurece do mesmo modo e/ou pelos mesmos motivos. Isso constitui a involução do devir-fúria de Gohan. Por quê? Porque o sujeito Gohan é sempre Gohan, é essa a linha dele. Os termos postos em jogo são aqueles que permitem as diferenças de Gohan, o que constitui a própria involução do devir, involução banhada de diferença. A própria condição que o permite reencontrar-se com esse devir de forma sempre diferente é que as subjetividades de Gohan estão em completo devir sempre: a cada vez que ele treina já há uma mudança, as coordenadas já são outras, os modos de devir já são outros. Isso permite a intensidade do devir-intenso e a fúria do devir-fúria dele.

_

Espero que essa explicação prática tenha servido para mostrar como os conceitos de Deleuze e Guattari, apesar de complexos, são totalmente conceitos de vida. Talvez hoje seja mais difícil do que nunca encontrar essa tal vida que eles tanto falaram, a tal vida que Nietzsche tanto amou e defendeu: estamos demasiadamente presos em uma pseudovida. A dificuldade em Nietzsche e outros filósofos que o procederam está no fato de que podemos entender inteligivelmente aquilo que eles estão falando, mas parece que estamos sempre demasiado cansados para entender praticamente, entender com olhos que estejam realmente voltados para a vida em toda sua plenitude, em toda sua tragicidade e comicidade.

_

Trilha sonora do dia:

_

P.S.: Caso alguém se interesse, eu pus no Mediafire os episódios de DBZ e DB Kai da luta de Gohan e Cell. O lista dos links se encontra aqui.

4 thoughts on “Devir-intenso, devir-fúria

  1. Nossa, quebrei bastante a cabeça pra entender. Filosofia não é minha área, mas entendi o texto, e o exemplo foi ótimo. Claro que tive de procurar o conceito de ‘devir’ antes hehe
    Muito bacana, somos o que somos, mas diferentes do de ontem.
    Abraço

  2. quando se consegue exemplificar um conceito abstrato a sua compreensão é expandida; a percepção da correspondência entre realidade e ciência inclusive impulsiona a criação de novos conceitos; uma vez que a subjetividade nos coloca no olhar um prisma único de visão.
    por isso, acho que seria interessante se você pudesse especificar mais a relação entre o gohan- de como se manifesta, concretamente- e seu ‘devir fúria’ no próprio comportamento e eventos que envolvem o personagem (principalmente das manifestações do devir guerreiro, e as peculiaridades dessa saga foda ai)

    bem legal falar de filosofia e desenho animado; anyway. bom olhar🙂

    • Ah, é como o Rico me disse: não há limites para os encontros com Deleuze.

      Eu vou fazer duas coisas: algum dia irei me reservar e tentar falar mais desse tal de devir-fúria; irei disponibilizar aqui a luta entre Cell e Gohan (DBZ e DBZ Kai) – acho que isso será bom.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s