A vingança ocidental

Uma das questões que atormentam muitos pensadores é a vingança, seja de forma direta ou indireta, consciente ou não. Por que se vingar? Por que cometer tal ato que visa apenas destruir o outro? Por que perder seu tempo com algo que apenas fará mal a si mesmo? (pergunta com teor bastante cristã) etc. Para o ocidente, a vingança sempre foi alvo daquilo que há de negativo no homem: a vingança só é praticada pelos fracos, por aqueles que são incapazes de perdoar o próximo; a vingança é aquilo que destruirá o mundo, é a causa de o mundo estar do jeito que está: falta amor nas pessoas, falta compaixão e capacidade de perdoar. Aldous Huxley diz, em A filosofia perene, que a vingança é uma das principais características daquele que nunca se incorporou à Base Divina, ou seja, característica da pessoa que está no mundo como indivíduo e não como totalidade, geral, plural, daquele que usa apenas da força física. Zygmunt Bauman já dirá que essa vingança toda que há nessa era, em seus famosos e vertiginosos termos, líquida-moderna é conseqüência da globalização negativa, a globalização de hoje, capitalista, cega, assim como da desigualdade social: ou seja, o mundo conhecerá o fim de tais atos, segundo esse autor, a partir do momento em que a luta de classes deixar de existir, quando houver uma completa igualdade social. No fundo, essas duas teorias são muito semelhantes: ambas querem acabar com o individualismo ocidental (ou mundial, quem sabe), um empreendimento contra toda a filosofia do devir, da individuação, das potências. Um empreendimento que busca terminar com aquilo que há de mais característico no homem para o tornar mais geral, mais simples de ser categorizado, domado, docilizado, vigiado e punido. Empreendimento que perdura há muito mais tempo que o cristianismo, como atesta Aldous Huxley através de suas pesquisas metafísicas.

Não obstante, mudemos a pergunta: por que não se vingar? Agora entramos numa área muito mais rica e incrível do que a da extirpação dos sentimentos e desejos humanos. Aqui eu gostaria de retornar à época que me parece decisiva para esse medo de se vingar, esse medo demasiado ocidental: o renascimento. A suposta época de ouro da razão é a mais problemática de toda história ocidental, tanto que Delumeau fez sua História do Medo se concentrando muito mais nessa época, apesar de pegar a idade média também. Foi essa a época em que mais tememos de tudo: a peste, a fome, Deus, diabo, o apocalipse etc. É algo, com efeito, muito contrapontístico com toda a ideia dessa época, como o próprio nome sugere, uma vez que foi a mais tomada por temores e ideias totalmente absurdas à razão, algo muito do campo daquilo que Kierkegaard diz ser o campo do absurdo, a própria fé. E é exatamente isso, essa época é a mais marcada de coisas desse tipo.

Como, então, a vingança se encaixa nisso tudo? Quem ou qual foi a causa propulsora de todo esse medo da vingança?

A vingança se encaixaria nesse período pelo fato de ele ser uma conseqüência de todos os medos que já rondavam os europeus da época. Todas as desgraças que ocorriam (pestes, fome, ataque dos estrangeiros, os iconoclastas etc.) tinham de ter alguma origem, alguém tinha de ser o culpado daquilo e alguém tinha que estar causando aquilo, pois não era cabível à cabeça daquela época que aquilo acontecesse simplesmente por motivos sociais, políticos e econômicos – e isso até nas pessoas mais instruídas, como é o caso de Lutero. O bode expiatório dessa época foi Satã e seus sequazes, isto é, os judeus, as mulheres e o estrangeiro, todos empreendidos num único objetivo: destruir a religião verdadeira, a única (pois o duplo é sempre ruim, aquele Doppelgänger sempre tem o objetivo de destruir o original, como é o caso de William Wilson de Poe e de O Duplo de Dostoiévski). Por serem tidos como a causa dos males que assolava a Europa, eles tinham de ser perseguidos e destruídos ou convertidos (os famosos cristãos novos da época da inquisição, p.ex.).

Porém, com uma perspicácia bem dahora, houve quem pensou um pouquinho mais sobre esses males e chegou a uma conclusão bem interessante: se Deus é onipotente e nada ocorre sem sua concessão, então esses males também não podem fugir à exceção. Deus usa Satã e seus sequazes para punir os homens, para endireitá-los, para se vingar de suas iniquidades – o que faz todo sentido se lermos o velho testamento. Assim lemos em a História do medo no ocidente de Jean Delumeau:

“Assim como Deus”, escreve Jean Bodin, “envia as pestes, as guerras e as formes por intermédio dos espíritos malignos, executores de sua Justiça, assim faz ele com feiticeiros e principalmente quando o nome de Deus é blasfemado, como é hoje em toda parte, e com tal impunidade e licença que as crianças fazem disso ofício.”

É portanto da natureza de Deus, porque é justo, vingar-se. […]

Minha teoria se basearia principalmente nisso que foi dito: o medo da vingança é uma herança do medo da vingança de Deus. Por essa razão que acreditamos que a vingança seja a expulsão de coisas ruins, demoníacas, animalescas (o devir animal das danças das bruxas, iguais as báquicas), contra tudo aquilo que é humano. Os orientais, por isso, são sempre vistos por nós, ocidentais, como seres estranhos exatamente pelo fato de eles não terem esse conceito de vingança arraigado em suas culturas, mas sim outros conceitos. O conceito de vingança japonês, que provém do katakiuchi, já foi mostrado em um ensaio meu – sendo que é apenas um dos conceitos diferentes que o oriente tem, podíamos ainda falar da vingança para os coreanos, p.ex.

Os filósofos, como disse no mesmo ensaio, também não conseguiram fugir dessa amarra judaico-cristã. Cito aqui minhas principais influências: Spinoza diz em sua Ética que a vingança é um desejo tomado por ódio que nos leva a maquinar algo contra alguém com a mesma potência do ato que recebemos; Nietzsche em vários livros afirma que a vingança é o ato do mais baixo dos homens, justamente por ser um filósofo contra a reação e a favor da ação, do ato que cria, não o ato que é apenas consequência. Não tiro a razão deles, pois eles, certamente, nunca estudaram a vingança em outro contexto que não a do ocidente. Nietzsche, por exemplo, se refere sempre ao cristianismo e o budismo como as piores vinganças contra a humanidade, e podemos entender isso melhor no aforismo 347 de A gaia ciência:

A fé sempre é mais desejada, mais urgentemente necessitada, quando falta a vontade: pois a vontade é, enquanto afeto de comando, o decisivo emblema da soberania e da força. Ou seja, quanto menos sabe alguém comandar, tanto mais anseia por alguém que comande, que comande severamente – por um deus, um príncipe, uma classe, um médico, um confessor, um dogma, uma consciência partidária. De onde se concluiria, talvez, que as duas religiões mundiais, o budismo e o cristianismo, podem dever sua origem, e mais ainda a súbita propagação, a um enorme adoecimento da vontade.

E assim acredita Nietzsche que tenha sido: as duas mais baixas formas de religião tiraram proveito da humanidade enquanto ela estava fraca, caída, precisando de ajuda, de algo para se segurar. Faz todo sentido, então, concordarmos com Nietzsche, mas apenas nesse contexto, mesmo que ele faça menção ao budismo, sua ênfase está muito mais no ocidente do que no oriente. É exatamente por causa dessa ênfase que Nietzsche, e nem nenhum outro filósofo ocidental, não conseguiu ver na vingança a possibilidade de uma ação, exatamente aquilo que chamei de “vingança discente para todos os vetores”, uma vingança que em si é um ato de amor.

Vingança e judaico-cristianismo andam juntas, muito mais juntas do que se pensava. Perceber a relação ocidental (isso é importante, uma vez que o conceito de um deus que se vinga de suas criações, o homem, já é algo que remonta a tempos imemoriais) entre o conceito ocidental de vingança e o de Deus-vingativo (seja qual for esse Deus: o Deus de Kardec com sua vingança da reencarnação, p.ex.) é algo que me parece fundamental para a compreensão tanto da própria história do ocidente quanto da crítica e análise do contemporâneo.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“Se tu nos espetas não sangramos? Se tu nos fazes cócegas não rimos? Se tu nos dás veneno não morremos? Se nos fazes mal, não devemos nos vingar?”

Shakespeare

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