Quando a criança subiu ao trono

– Mas que porcaria de título é esse? – perguntou uma das crianças.

– Ah! – respondeu – Não se enganem, por favor. O título tem de ser tomado literalmente para que a história seja totalmente compreendida! Isto é, a criança subiu ao trono sendo criança. Entenderam?

Todas acenaram afirmativamente.

– Ótimo, ótimo. Então podemos começar…

“Ah, inimigos! Preparem-se! Pois quando eu subir ao trono, serei poderoso! – gritou a criança – Ninguém poderá contra meu rugido, minha força e… nem nada! O quê? Tradições? Então eu tenho que me casar com aquela menina ali só porque ela vem de tal linhagem e porque assim foi por gerações? eu tenho que me vestir de tal maneira porque assim foi como meu pai se vestiu? eu tenho que… tudo isso? Então essa será a primeira coisa a ser destruída quando eu subir, seus bobões! Tradições uma ova! Não preciso dela para ser um bom e poderoso rei!

– Você será um rei patético, dá pra perceber.

Hã? Ah, rapaz, mas não do jeito que eu vejo! Aliás, não é você aquele que tem o dever de manter as tradições? Então, você está despedido!

– Você ainda não é rei, seu insolente.

Mas serei! E isso já conta! Você tem que fazer o que eu mandar!

– Ainda não, repito. E se continuares assim, serás um péssimo rei, posso prever.

Enfie essas previsões em outro lugar! Não em meus ouvidos! Não serei um péssimo rei eu sei que meu pai quebrou várias e várias tradições que existiam na época do pai dele então você não tem o menor direito de dizer que vou ser um péssimo rei porque senão meu pai também é um péssimo rei e você não acha isso que eu sei então você acha que eu sou e vou ser um excelente rei na verdade porque eu estou seguindo os passos do meu pai.

– Rapaz, você é um desapontamento.

O rapaz já tinha dado as costas para esse que disseram ser o responsável do rapaz. Ele não tinha tempo para ouvir tais coisas e, se tivesse de ouvi-las, acabaria por mordê-lo. O rapaz foi pra fora, lá pronde ninguém sabia onde ele estava, não fora, mas num lugar que estava fora de onde ele estava antes. O rapaz se escondeu ali e apareceu sua amiga.

E aí? Beleza?

Sim, sim.

Parece até que adivinhei que você estava aqui. Deu vontade de vir pra cá.

Foi bom que você tenha vindo. Não aguentava mais ouvir aquele pássaro… parece uma gralha.

Ah tá… por isso que você está aqui.

Ele disse que eu serei um péssimo rei. E que eu vou ter que casar com você.

Eca, que cara mais retardado. E você não vai ser um péssimo rei.

Eu sei que não vou ser! Falando assim até parece que você acredita nele, o que eu sei não ser verdade.

Os dois se levantaram e começaram a brincar.

Você fica ali naquele canto, enquanto eu fico ali em cima.

Você vai ser o rei?

Lógico.

O mundo inteiro pareceu, então, se transformar naquele espaço em que os dois estavam. Surgiram todos os tipos de animais, todos que vocês podem imaginar. Os dois se despiram (era uma das tradições que o futuro rei iria quebrar) e começaram a brincar com os seus amigos animais. Correram como nunca. O rapaz então foi se sentar e ordenou que o trouxesse algo para beber.

Não quero saber de água. Me traz açúcar líquido se tiver!

Mas não tinha, não era a temporada de açúcar, os açucareiros não estavam maduros ainda. O rapaz se contentou com um copo de água, apesar de ali ter um pouco de açúcar. De vez em quando ali aparecia algum adulto, ou melhor, algum animal grande: se ele não se juntasse à brincadeira logo era satirizado, ironizado, imitado de modo nada educado e elevado. Esses tais sempre acabavam por sumir do mundo, e não faziam a menor falta. Mas tinham aqueles que se juntavam à brincadeira e gostavam muito de satirizar com esses outros também. O rei nem conseguia ver sua altura nesses casos, ele apenas via um monte dos dele – ah! e isso o agradava deveras. De vez em quando também surgiam alguns outros adultos, que de tão azedos queriam tornar os outros em azedos também. Geralmente causavam muita balbúrdia, mas logo eram afastados pelo rei, pois ele era o mais forte e todos o temiam – e com justíssima razão, diga-se de passagem.

Que isso seja um aviso para todos os cabeções daí de fora, seus limões podres! – o pessoal ria bastante e logo já estavam a brincar de novo.

Mas o rei não se contentava com aquilo, aquele mundo não era e nem podia ser o suficiente para ele. Queria correr para onde quisesse, sem ter de dar explicações e sem ter hora pra dormir, sair por aí e correr pra fazer o que quiser – e sabe-se lá o que queria. Ah! ele queria correr o dia inteiro e fazer as coisas de seu jeito, e ele certamente também não tirava essa liberdade de ninguém. O rei pensava em muitas das coisas daquele outro mundo, o mundo cinza, sujo e sem cor de onde fazia parte também: “fica quieto! não corra! não corra com tesoura! não bote a mão na tomada! não bote a língua na tomada! não bote a língua do teu irmão na tomada! não tome banho depois de comer! não faça isso! não me enche o saco! não se mete que isso é coisa de adulto! não assista a isso que é coisa de adulto! não ouça isso que é coisa de adulto! pare com isso!” mas por que diabos ele precisava de tudo aquilo? quando aqui ele tinha o “sim, faça isso, aquilo, faça o que quiser!” – não era uma questão de não poder fazer coisas, porque ali também haviam coisas que ele não deixava fazer, mas era só uma ou outra, as leis era uma linha, no máximo. Ele não precisava daquilo e nem era mais obrigado a voltar pra lá!

Declaro que este é o meu lar. Declare lá que este é o meu sumiço! Ah! aqui eu sou livre pra viver pra correr pra respirar pra fazer o que eu quiser! tudo sem ter de ouvir os nãos e nãos dos adultos que se tornam um n gigante! aqui somos todos o que queremos não temos forma e nem posições… mas eu sou o rei e vocês sabem disso.

A festa era interminável. Até a hora do sono era uma festa, pois os sonhos e pesadelos eram apreciados em sua forma mais maior de grande e gigante. Alguns preferiam o sono solitário, esses iam para cavernas, montes e outros lugares aí para dormir e aproveitar os seus sonhos e pesadelos – eles nem sequer levavam seus filhotes e amigos para esses lugares, eram lugares que só eles conheciam e sinceramente ninguém fazia questão de saber, pois todos sabiam que assim é que os agradava. Alguns preferiam dormir em bandos, esses não são muito nômades e geralmente possuem um local delimitado em que ninguém quer dormir, pois sabem que ali ficam eles. Dormem com filhotes e amigos. Alguns outros ainda gostam de não dormir, esses são os que perambulam a noite inteira atrás das estrelas, alguns conseguem pegá-las, outros conseguem viajar em algum cometa, outros ainda conseguem sonhar acordados, outros simplesmente gostam de olhar os outros dormirem (será que sentem inveja? nah, que pensamento bobo). Há outros ainda que dormem toda hora e só sabem fazer isso, esses são os que preferem outros mundos diferentes do mundo do rei, mas a maioria desses mundos eram bastante iguais ao mundo do rei, pois eles gostavam bastante dele. O rei era do tipo que dormia de noite mesmo, sem grandes problemas com isso.

O que você acha daqui?

É muito legal. E você?

Lógico que é legal, eu sou o rei.

Como será amanhã? – riu.

Como quisermos. – deu uma risada também.

O que era interessante é que as festas nunca tinham fim, mas as festas nem sempre eram as mesmas: não era sempre um carnaval, uma chuva de gente dançando, berrando e fazendo o que quisessem. As festas tomavam as proporções diferentes, sempre de acordo com a vontade de alguns, as festas eram sempre fragmentárias, mas nem sempre. Algumas festas eram particulares! Individuais! A mais conhecida dentre elas era quase um ritual, mas não era um ritual: ia-se para um rio e lá se invocava o deus Schalazam para poder fazer as necessidades… brincadeira, eles só cagavam lá. Mas ninguém era obrigado a fazer isso, apenas era algo divertido.

Não é engraçado imitar aqueles caras grandes do mundo cinza?

Sim, sim… quando você ontem me perguntou sobre como seria hoje foi bem engraçado.

Pensei que você não tinha percebido.

Só se eu fosse um deles. Não sou burro.

Uma coisa interessante que se dizia nesse mundo cinza e que algum dia o rei iria conversar com a garota que de lá veio também é aquela coisa de que é preciso crescer e que nenhuma criança consegue brincar pra sempre. Mas o rei começava argutamente a se perguntar

Mas quando me deram uma chance?

O garoto agora via em sua frente todas as chances possíveis e não se cansava disso. Um outro algo-tipo-um-ritual é a tão-querida brincadeira do rei de dar socos e receber socos e assim uns com os outros. Ele chama aquilo de lutinha. As mulheres são as mais viciadas nesse tipo de jogo, elas adoram arranhar, morder e socar e chutar como qualquer outro. Na verdade elas gostavam de fazer tudo o que os garotos faziam e nisso não havia problema algum. Os garotos também gostavam de brincar como as meninas brincavam e nisso não havia problema algum. O rei ria bastante com o pensamento de que aqueles lá do outro mundo ficariam muito inibidos nesse mundo mais colorido. Na verdade, grande maioria daqueles que vinham para ficar parados e azedar os outros eram os próprios adultos daquele outro mundo – a maior prova de que ficavam inibidos é que nunca conseguiam voltar pra lá sem muita vergonha. E deviam ter vergonha mesmo!

Viver! Se pudesse resumir o que queria era poder viver! Lá, lá naquele outro mundo… eu ainda não tinha vivido! Você tinha? Lógico que não, tenho certeza disso. Aqui nós somos livres pra poder viver e sabe por quê? Não porque podemos fazer o que quisermos, mas porque aqui a gente pode perder a respiração. E sabe por que podemos perder a respiração? Porque podemos fazer o que quisermos.

Mas a morte também existe ali! Não sabia? Pois bem, mas ninguém se prendia muito a ela pelo simples fato de todos saberem que aquela era uma condição importante de poder viver: ter a glória de poder morrer! Essa ideia não os preocupava muito, porque não havia motivo de medo.

Ela virá, mas ainda não veio, quando vier, não sentiremos nada, então qual o motivo de sentir medo?

Na verdade, nenhum deles nunca tinha falado aquilo: o rei havia apenas pensado aquilo por um instante, mas logo se esqueceu e voltou a trotar a zebra. Na maioria das histórias sempre há alguma coisa, dita, ruim que deve acontecer para dar mais linhas para o autor, mas e se essa for a história de um rapaz que ficou feliz até morrer? Talvez esse seja o caso, mas algumas desavenças são sempre legais de descrever. Uma delas foi quando o rei sonhou que iria destruir todos os seus amigos e também aquele mundo colorido. Naturalmente que aquilo foi um pesadelo o que era algo bem normal e até apreciado por eles. Mas pelo que parece esse pesadelo teve um efeito maior no rei: sempre teve pesadelo com inimigos o vencendo e destruindo seus amigos, mas nunca dele mesmo fazendo aquilo. Isso o afetou de modo muito intenso e fez com que ele quisesse se refugiar em algum canto como aqueles que dormem sozinhos. A sua amiga não entendeu direito (principalmente por que o rei não contou e nem queria contar para ninguém o porquê de estar daquele jeito) e quis explicações, quis ao menos alguma coisa, alguma palavra. Mas o rei manteve a sua palavra e não ousou uma palavra sequer, apenas sumiu. Isso era algo relativamente normal alguém querer se isolar por vezes, pois amamos mais algo quando longe, mas não era normal que alguém que apreciasse a vida em conjunto sumir sem dizer uma palavra sequer. Foi um rebuliço consideravelmente grande, principalmente porque lá nunca houve grandes rebuliços internos, só quando aparecia algum azedo. Essa foi a maior confusão que lá teve, acreditem se quiser. Mas acho que esse conto não é muito baseado nas desavenças e nem glórias conquistadas pelo rei ao longo de sua longa estadia.

Talvez a diferença daqui seja que aqui eu posso ver um futuro.”

– E assim, então, termina a história daquele que foi para onde todas as crianças queriam e podem ir.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“Reaprender a rever o mundo. E nada mais.”

One thought on “Quando a criança subiu ao trono

  1. O saber não sabido depositado na conta da criança faz dela um estrangeiro de quem queremos apre(e)nder suas histórias de um “Outro mundo”. Porém, isso é impossível, pois pretendemos que nos revele essa estrangeirice que habita em nós. D’isso só podemos “nos falar” a “nós mesmos” à medida que as crianças – permanecendo sempre um pouco singulares – nos retornam o fato de sermos sempre estrangeiros a nós mesmos. No entanto, o mal-entendido não aborta o diálogo; pelo contrário, o alimenta ao tempo que faz acontecer uma educação.

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