Cem anos de “por que não?”

Numa madrugada seca do quarto verão em que o mundo havia de conhecer, soerguia-se um poste de luz meio a Macondo, o silêncio era total, o tempo era aprazível. O Coronel Aureliano Buendía recordar-se-ia do dia em que seu pai o levou para mostrar-lhe o gelo quando os vagalumes que iluminavam Macondo fugiam de dentro dos postes de luz e a cidade embrenhava-se cada vez mais num breu intangível. Úrsula sentia em todos os pelos de seu corpo que algo estava para acontecer. Quando o Coronel Aureliano Buendía, por fim, acabou de atravessar toda a Macondo rumo ao deus-dará, ensimesmado em sua miséria, uma luz acendeu-se por detrás de suas orelhas, ele sentiu os pelos do pescoço arrepiar, era Melquíades. Sua última aparição seria essa, seu rosto permanecia iluminado meio ao breu, de modo que só era possível ver-lhe a cabeça flutuar. Melquíades exclamou:

— Por que a morte lhe persegue, Coronel?

— Por que me persegues, Melquíades? — perguntou-lhe, sorrindo.

— O porquê não é nada importante — disse Úrsula, revelando-se escondida meio ao breu de Macondo — e sim o “por que não?”.

Enquanto isso, Remédios, a bela, caminhava vestida duma lindíssima camisola meio a Macondo naquela madrugada, despreocupada como sempre fora, sorria e caminhava aos pulinhos, como uma criança brincando de amarelinha; enquanto caminhava por toda a Macondo rumo aos três metidos na escuridão, Coronel Aureliano Buendía, Melquíades e Úrsula, os postes enchiam-se de vida novamente, os vaga-lumes pousavam e ficavam frenéticos, presos porque queriam dentro daqueles postes vazios, pois se não existissem eles, não haveria luz meio àquele breu. Quando Remédios, a bela, finalmente aproximou-se dos três que ali permaneciam quietos, perguntou-lhes:

— E o que há de novo?

— Nada. — respondeu-lhe o Coronel, saltando com os olhos para o chão, pensando em quantas guerras havia perdido e esmorecendo meio à cidade acesa outra vez.

— Então vamos brincar de amarelinha? — perguntou-lhes, com um brilho nos olhos que iluminou até as montanhas que ali permeavam, e por um segundo, chegou a alcançar brevemente o pântano.

— Mas isto é lá brincadeira para essas horas da noite, além do mais, isto é brincadeira para crianças. — disse Coronel Aureliano Buendía.

— E daí? — perguntou-lhes Remédios, a bela, sorrindo.

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