Algumas considerações #3

Quando discordei de Clarice

Numa entrevista, Clarice disse que escrever pra crianças é mais fácil do que pros adultos. Talvez isso esteja certo para seu conceito de literatura infantil, aquela que ela não conta seus segredos. Mas é aí está a questão:  por que não? A maior dificuldade talvez esteja exatamente neste aspecto, pois, na verdade, nada deve ser escondido das crianças, elas são mais capazes do que podemos imaginar, e se se tornam idiotas é porque são tratadas desse jeito – eu cago muito seriamente nesse canal de imbecilização da infância chamado “Discovery Kids”. No fundo, a dificuldade é a mesma com os adultos: é preciso saber traduzir o que pensamos numa linguagem dançante – nós, escritores, artistas, filósofos, criadores da cultura, somos cupidos e a caneta é a nossa flecha – por acaso já viram como eles o fazem? As crianças estão bem longe de casa mesmo quando estão nela – por acaso nós estamos longe da escrita quando estamos nela? Ah, meus caros, é preciso ter pernas bem resistentes e a vergonha bem lá embaixo para entrar no uitae ludus. – O erro de Clarice foi apenas de nomes: ela mais escreve para as crianças do que para os adultos, e se era considerada hermética pelos padres das feias-letras, é apenas resquício do que eu escrevi.

_

Sobre uma pintura de Bouguereau

Jovem defende-se de Cupido

Os quadros de Bouguereau ultrapassam a mera maestria da técnica e se inserem no campo do pensamento. “Jovem defende-se de Cupido” é o quadro que mais me chamou a atenção. Há, aí, alguns detalhes que merecem algum tipo de reflexão. O primeiro que me apareceu: o olhar. Há grande diferença no olhar do Cupido/criança do da jovem. Percebe-se que o cupido tem olhar de indiferença, quase cinismo, em resposta à repulsa da jovem, com olhar alegre. Mas esse olhar alegre é um olhar cansado, de quem já viveu aquilo e não quer vivê-lo de novo. Mas, pra sua infelicidade, a criança é infinidade do novo não-novo, ela não só quer essa repetição como insiste nela, quase fica no colo da jovem, porque criança é insistência. – Cupidus cupidus est – O Cupido é desejoso. Não é a toa que o Cupido é sempre representado por uma criança. Da pintura se pode fazer até uma análise freudiana: o querer como ponte para o útero materno. A jovem rejeita o amor porque ela rejeita essa volta; talvez essa seja uma visão muito ovidiana do amor, ou seja, amor como algo ruim, que cega a razão do homem. Há também a possibilidade de ver essa rejeição como um modo de superação: não preciso de intermediários para me perder. Mas há algum motivo para o desejo do Cupido de flechar a jovem? Não. E há algum motivo para não o fazer? Aí que está: também não. Sua resistência contra a resistência da mulher é vulgar, casual demais, justamente porque é desejo, cupidus. Diante de toda essa irreverência tsunâmica, como pode estar segurando a flecha com tanta leveza? Tal leveza dá até a impressão de que o Cupido nem segura a flecha sequer – há, aí, com toda certeza, grande semelhança com “O êxtase de Santa Teresa”. Ele é a espontaneidade leve, a irracionalidade alada.

_

Trilha sonora do dia:

_

Citação do dia:

“Na arte só uma coisa importa: aquilo que não se pode explicar.”

Georges Braque

2 thoughts on “Algumas considerações #3

  1. Belíssima análise do quadro, e é exatamente uma das coisas que costumo me perguntar diante de qualquer situação: por que não?

    • Essa pergunta quase sempre acaba por achar sua resposta na moral, o que já é um erro, pois a moral não tem a resposta definitiva de nada. Seu objetivo é de fato tornar um corpo potente, criador, em corpo dócil (numa linguagem foucaultiana): pois a dominação do espírito começa pela do corpo. Essa é a função da moral. Dificilmente nos perguntamos verdadeiramente, imoralmente, infantilmente sobre algo. Duas perguntas são sempre caras à filosofia: “por que não?” e “e daí?”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s