Algumas considerações #2

Muitas coisas boas acontecem em nossa vida, e também coisas ruins. Porque elas acontecem, tivemos de criar motivos que justificassem o próprio acontecimento, pois nada surge do nada. Daí a crença no Kraken, quando os europeus partiam ao mar e não voltavam: tiveram de criar um motivo. E assim também foi com as mulheres: muito antes do cristianismo, a mulher era divina, pois tinha a capacidade de criar e perpetuar a vida; com o cristianismo, ela se tornou maldita, perigosa, pecadora por natureza – e quem sabe não acabou por se tornar isso mesmo? –. É justo dizer que o acaso só existiria se esse mundo tivesse um propósito, pois parece correto afirmar que algo só existe enquanto oposição: bonito e feio, pobre e rico, inteligente e burro, político e apolítico, logo: destino e acaso. Então o que existe? Se disséssemos caos, teríamos de lidar com a questão da ordem. Quem proporcionaria essa ordem seria os próprios homens junto a suas leis – e estas são em sua grande maioria contra a natureza do homem, ou seja, os criadores da moral são os mesmos que as transgridem: pois o homem mata, desonra seus pais, mente, ama e odeia várias coisas ao mesmo tempo etc. Então me parece que o caos é o estado em que as coisas estão no fluxo, enquanto a ordem é aquilo que tenta amenizar tal estado, organizá-lo, racioná-lo. Mas e se o estado caótico do homem fosse o de ordem? Aí nos pomos contra toda a natureza, a história e a consciência e inconsciência do homem: pois é justo dizer que o homem é um mar que possui ondas, às vezes altas, às vezes não, causadas pelo vento (a consciência); mas e quanto às poderosas e mortíferas ondas causadas pelas placas tectônicas e vulcões marinhos? Estas são a força incontrolável da inconsciência: mas quem disse que controlamos os ventos? A consciência possui a resposta de nada, e, por achar que a temos, muita tolice foi e ainda será feita. – Eu prefiro ser mais simples e dizer que a criatividade existe – assim como ela é importante no desenvolvimento da linguagem, a moral é totalmente dependente dela.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“Já de gelos libertos os regatos
E arroios estão da primavera
Ao quente e vivo sopro. Reverdece
No fundo vale espr’ança de colheita,
E o gelado inverno, já sem força,
Às agrestes montanhas se retira.
Dali envia, fugitivo, apenas
De saraiva chuveiros impotentes
Que matizam de branco o verde prado.
Porém nenhuma alvura o sol já sofre;
A criadora força em toda a parte
Opera vigorosa, várias cores
Em tudo renovando; na campina
Faltam flores ainda; em lugar delas
Homens tem enfeitados. […]”

Goethe – Fausto ver. 932-945

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