Considerações Existencialistas

§ 1 – Da Essência

A coisa em si, a essência, a causa primeira, o primeiro motor – todas elas são invenções para tornar a vida mais insuportável, porque são o nada, logo, angústia. Mas principalmente impossibilidades. Mesmo que fossem possibilidades: e daí? o que vem depois? Nostalgia, pois antes nunca descobrir a essência daquilo que constitui todas as coisas do que as ter em mãos. Ocorreria tal qual o cachorro que quer morder uma caneta: o dono afasta de sua boca quando ele tenta pegar, mas quando consegue tal proeza, dá umas mordidas e logo tira da boca, cheira-a, morde-a e tira de novo – eternamente ficaria assim se deixássemos, ou chegaria a hora em que finalmente deixaria a caneta pra lá. Só há filosofia, nada de adjetivos ordinais.

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§ 2 – O estado gomado

Estar todo gomado ou amalgamado por dentro me parece constituir um dos principais estados ou sentimentos do ser homem. Não somente pela consciência de finitude que produz, automaticamente, angústia – justamente porque o tudo que constitui a vida se transforma em nada, e algo referido ao nada é angústia –, mas também em tudo aquilo que não nos faz rir (talvez). O gomo pelo amor impossível é o mais conhecido, “Romeu e Julieta” pode nos servir de exemplo. Tal estado permeia todos aqueles que optaram pela solidão, em qualquer grau. Mas daí surge o erro de muitos daqueles que por aqui se aventuraram, pois poucos foram aqueles que chegaram a considerar a potencialidade efetiva de um indivíduo enquanto dentro de algum estado negativo. Há positividade enquanto houver vontade (de potência), pois esta tem em si inserida a própria potencialidade. Positividade aqui é entendida como a capacidade de criação – longe de ser otimismo. O estado de gomado/amalgamado é o estado do próprio desespero (entendido como frustração). Como a maioria não possui a capacidade de positividade na negatividade, então isso deve ser levado em conta, uma vez que aqui se tenta uma análise ontológica também. O gomado não consegue ser positivo porque nesse estado não há certeza, não há forma. Não havendo forma, não há identificação – sem identificação, não há conceituação – sem conceituação, não há possibilidade de potência*. Destarte, não se pode dizer que o indivíduo é regido por potências negativas, porque não há potência, esse é o caso. Não havendo um objeto, há nada, senão angústia.

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§ 3 – A indefensibilidade

Daí ocorre a questão de quando há um objeto, não havendo angústia, pois a angústia só está referida ao nada. Soa-me justo dizer que na decepção parece haver um buraco em nós. Afinal o que é o buraco? É o lugar onde caímos ou temos a possibilidade de. No caso, parece-me fazer referência ao fato de se sentir suspenso, indefeso. Mas sua indefensibilidade só existe enquanto direcionado ao objeto da decepção. Nela também há a defesa do objeto através do ataque, ou seja, a defesa da indefensibilidade é o ataque. Indefeso, está-se à deriva, passivo. As potencialidades negativas e positivas daí começam uma guerra: parece-me visível ao extremo afirmar que o negativo leva a melhor. Isso, pelo menos, enquanto falando da pós-modernidade, pois a crítica daquele que morreu no fim de seu século foi exatamente a da falta de vitória da positividade em todas as ocasiões, o eterno sim. Porém, assim como o conhecimento é para poucos, o sim também é. E no sim também há indefensibilidade, o que diferencia é o próprio sim. E por que a defesa da indefensibilidade é o ataque, ou seja, uma atividade na passividade? Justamente por causa do objeto. Enquanto na angústia não há nem atividade e nem passividade, porque a liberdade de vertigem** não compreende uma ação partindo do ser-capaz-de, quer dizer, a pessoa é capaz de fazer algo, mas para aí, logo, inativo; a coisa muda de figura quando o objeto da decepção (aqui entendida como impossibilidade) é posto (não apenas pelo indivíduo, pois ele só se torna impossibilidade quando um outro assim o torna), há passividade e atividade: passividade por causa do objeto, atividade por causa da passividade, em prol da passividade.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“Seria interessante se houvesse quem fosse capaz de pensar filosofia sem a filosofia.”

Anônimo

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* A impossibilidade de potencialidade aqui é algo a ser discutido – por que a necessidade de um objeto para levar à positiva ou negatividade? Nesse caso é admirável observar a criança enquanto alguém dotado de positividade através da cegueira. A cegueira o impulsiona à visão, a possibilidade de visão é positividade porque, aí, há o desejo de criação e recriação. Daí meu conceito de retrocedência procedente. Como aqui o caso já é daqueles que não são mais crianças em nenhum sentido, acredito que o que foi escrito está de acordo.

** Um autor bem irônico um dia resolveu criar uma fábula acerca de um tipo estranho de liberdade. Imagine um homem à beira de um precipício, nada o segurando. Ele deseja cair ali, porque ele é capaz de fazer isso. Porém, ao mesmo tempo, o conhecimento de  sua própria mortalidade o impede de se jogar, senão violaria um instinto primário. Isso constitui a angústia.

2 thoughts on “Considerações Existencialistas

  1. Reconheço os ecos de um certo autor dinamarquês aí, mas também modulações próprias, o que é sempre louvável e admirável. A sua escrita é densa, hermética, obscura, o que se justifica uma vez que o seu interesse não é pedagógico — e que, por outro lado, não deixa de ser irônico, uma vez que aquela pessoa que gosta de falar sobre a infância não tem vocação (paciência?) para agir como se se dirigisse a uma. talvez isso se deva ao fato de que a criança pela qual você se apaixonou não existe efetivamente, sendo nada menos que uma abstração cheia de possibilidades interessantíssimas a serem descobertas, mas ainda assim uma abstração — nascida, como toda boa abstração, das suas idiossincrasias e que, como toda boa abstração, esquece-se disso e ganha vida própria, universalizando-se: chega à sua maioridade. Mas então é quando justamente não se trata mais de infância…

    • Olá, Tiago! Que prazer te ver por aqui ^^

      Bem, zugunsten meiner Verteidigung, devo dizer umas coisas apenas que me soaram um pouco estranhas em seu comentário (um ótimo comentário, sempre bom ler o que escreves): eu amo crianças e em seu sentido estrito eu amo a figura e possibilidades filosóficas que a criança possui. Admito, não gosto de pedagogia, não me agrada lecionar uma sala inteira, mas eu amo me sentar junto a uma ou várias crianças: o problema é quando já deixam de ser crianças em todos os sentidos. No caso desse texto não houve uma ênfase tão grande assim na figura da infância (eu até pensei em fazer uma quarta consideração levando em conta o que o bom dinamarquês fala sobre a inocência, mas resolvi não fazer, deixando para outra ocasião), mas sim numa tentativa ontológica, como eu disse no texto mesmo.

      Mas admito: é uma linha tênue entre aquilo que é efetivo e metafórico, eu procuro sempre deixar delimitada ou que o leitor possa perceber do que falo. Mas eu, tal qual o bom dinamarquês, busco sempre basear minhas pesquisas e reflexões em cima de coisas que aconteceram e acontecem. A única parte que eu falei da infância é no primeiro asterisco quando eu falo sobre a cegueira infantil acerca do significado das coisas: ela procura o significado (foge da cegueira) através da criação de significados (a positividade). Nisso que escrevi não vejo abstração, mas creio que você esteja falando de um modo geral de meus textos, ao mesmo tempo que falas especificamente deste.

      Ah, e sei lá, não sinto que todos aqueles que falem sobre a infância precisem ter um desejo pedagógico. Isso me soa quase como um imperativo – acho que você sabe como isso não me agrada hehe. Aliás, gostei dos adjetivos que usaste para descrever meu texto ^^

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