O normal #12

Aquilo que perdemos há tempo

Uma coisa bem certa que Huxley diz em seu horrível livro, “A Filosofia Perene”, é que nós perdemos a capacidade de silêncio. Em sua época, pelo que parece, não havia ainda muita televisão, mas o rádio já era bem popular.

Todos essses equipamentos servem, tão-somente, para nos livrar do silêncio. Sempre alguma música, alguma notícia, alguma coisa precisa de estar no fundo para que não possamos mergulhar no autoconhecimento […]”

E não seria verdade? Esses aparelhos eletrônicos não seriam uma fuga do silêncio e da solidão? Se se está entendiado: ligue a TV; vá pro computador ou iPad. Dificilmente admiramos as caminhadas silenciosas e solitárias em ruas vazias: lá fora é tudo muito perigoso. Mas aqui dentro também é tudo muito perigoso; logo, decide-se por ficar no meio termo, decide-se por entrar na internet. Mas por que isso tudo?

Desde muito tempo é fato que o silêncio é contra a ética. Não se pode ficar em silêncio, não se pode sofrer em silêncio. É preciso gritar ao mundo aquilo que temos a dizer, aquilo que pensamos. É preciso ir a psicólogos ou psicanalistas e falar a eles para que possam analisar nosso inconsciente e então procurar a possível ou definitiva cura daquilo que aflige a pessoa. É preciso de entrar na internet, criar um blog e divulgá-lo muito para que as outras pessoas possam ler e ouvir nossos pensamentos em caps lock. O silêncio é contra a moral e a ética em todos os sentidos – e isso por mais que tenham havido e hajam sábios a nos lembrar sempre que: “o sábio ensina pelo não-falar. Quem fala, não sabe. Quem não fala, sabe.” Não se pode mais ter a oportunidade de vencer os próprios fantasmas na mais extrema solidão, no pior de todos os sofrimentos. Muitos adultos ainda têm ursinhos de pelúcia que os protegem dos mostros debaixo da cama – e muitos ainda cobrem a cabeça com o cobertor.

Todos os nossos problemas hoje são resolvidos com pílulas. Raramente, mas muito raramente, são encontrados espíritos fortes o suficiente para ver em sua condição não uma doença, mas uma condição. Hoje todos são bipolares, depressivos, psicopatas/sociopatas*, borderlines etc. E eis, talvez, o pior de tudo: se não és, verdadeiramente, nada disso, então as pessoas se enganam e aos outros e dizem: eu sou doente. As pessoas hoje desejam ser doentes! E por quê? Porque a doença é a diferença. As pessoas querem ser diferentes, mas desejam se tornar doentes para chegar à diferença. Saberá, aqui, alguém me dizer o que é o doente? Ou haverá alguém a me dizer, seguindo a linha da psicologia de hoje, que não há essa linha entre o “doente” e o “são”? De qualquer forma isso não importa: as pessoas desejam ser doentes, e isso é fato. Mas isso é apenas uma forma de chamar a atenção de outrem, apenas uma forma de se fugir do ócio, da solitude, quietude.  Apenas mais uma desculpa para visitar os donos da verdade que são os cientistas da saúde mental. Foi isso o que o Vitor, e que quase ninguém que lá comentou entendeu, quis dizer em seu post sobre a solitude.

Esse é o tipo de força que rege uma maioria esmagadora de jovens e, talvez, uma minoria de adultos. No fundo não há doença alguma, não há anormalidade alguma nesses seres: o que há é uma tentativa de escape. Mas não percebem que até na doença eles estão se prendendo – prendem-se a uma história tão risível que é muito preferível nós darmos corda a essas pessoas e suas mentiras.

Lembro-me até hoje de uma comunidade no orkut com o nome “Eu não tenho compaixão” ou algo do tipo. Havia um tópico com o titulo “Qual a pior coisa que você já fez?”. O número de postagens crescia em um número incrível, as pessoas contavam as histórias mais incríveis e fantásticas: “Já matei um hamster”, “Já matei um gato”, “Namorei um garoto e depois terminei com ele só por vingança”, “Pus o pé na frente de meu amigo, fazendo-o cair na escada”.  Muitas dessas pessoas poderiam se tornar contistas – sem a menor dúvida. Algumas histórias até me lembravam de algum conto policial de Poe. Todas no fundo são um bando de Raskólnikov: querem ser “extraordinárias”, mas são “ordinárias” apenas.

De modo algum eu tento, aqui, fazer uma crítica ao mal – não, o mal é muitíssimo necessário, e se eu fosse falar algo dele, falaria as mais belas coisas sobre ele, com a melhor estética, rimas e imagens. Faço a crítica ao falso-mal, aos falsos belicistas, aos falsos psicopatas, aos falsos assassinos, aos falsos silenciosos. Nenhum deles sequer merece ser amaldiçoado.

É mais do que compreensível, nesse ponto, entender a crítica de Bauman à contemporaneidade e à globalização. Mas não há nenhuma “globalização negativa”, como ele quer. Não há nada disso. O que há é tão-somente a globalização ela mesma e que não poderia ser diferente e nem poderia ter resultados diferentes. Com a massificação da informação e uma maior possibilidade de se expor, é óbvio que as forças que regeriam tal globalização seriam das piores: notícias com informações falsas, artigos de jovens e adultos bobocas. O porquê? Porque aquilo que rege a sociedade é a força do negativo. O mundo sofre com a negação de si mesmo. E me é impossível atribuir a causa disso senão à sacralização que temos de nós mesmos. Tudo aquilo que é sagrado leva à sua negação, à sua perda de potência. Isso tudo é apenas consequência de uma longa e terrível era do sagrado. Portugal não era/é um dos países mais cristãos da Europa? Um grande salve aos portugueses que disso se salvaram.

Bauman agiu tão tolamente ao dizer que a igualdade social acabará com todos os medos que possuímos hoje. Bauman errou tanto. Recuso-me a fazer qualquer tipo de crítica a essa crítica – ela já se condena. É o mesmo que dizer que a educação melhorará em algo a condição sempre-patética do Brasil: Sérgio Buarque de Holanda já dizia que isso é um disparate dos grandes. “Dê o poder e o saber ao povo, ele ainda não saberá o que fazer com ele”. Exatamente porque tudo aquilo que rege(u) a sociedade são forças negativas. Não que a forma política de hoje seja a melhor de todas – aqueles que estão no Planalto são apenas a sinédoque de toda uma raça podre. E isso se prova apenas pelo fato de Bolsonaro ainda ter algum tipo de autonomia política – e o pior, apoio.

O pathos da verdade me parece ter sido algo que sempre foi regido por negatividade.

As pessoas estão mais do que nunca desesperadas. Elas precisam estar em ação – alguma, qualquer ação. Parece-me que todos esses meios de aliviar a vida, seja as que a ciência encontrou ou não, ajudaram apenas para torná-la mais insuportável, mais execrável, odiada, temida e escarrada. O medo do silêncio é facilmente identificado se voltarmos até a época de Agostinho – ou seja, Idade Média e também o Renascimento, épocas de maior poder da igreja católica. Desde ali o silêncio era visto como um meio somente para o usarmos em alguma prece. Todos os ascetas nisso concordam: o silêncio é necessário para se chegar à base divina. Ou seja, desde muito tempo o verdadeiro propósito do silêncio foi negligenciado, desde muito tempo aquilo que há de mais tenebroso em nós é visto como o nosso pior. O silêncio foi sacralizado: olhemos para o resultado dele agora.

Mas há um verdadeiro propósito para o silêncio? Talvez seja aquela velha fórmula apolínea do “Conhece-te a ti mesmo”. Talvez… Mas tenho a impressão de que não há sacralidade alguma nela, logo, não há, nela, nenhuma possibilidade de transcendência física, de metafísica. De qualquer forma, não importa.

Parece-me que por mais movimento que nós tenhamos, por mais velocidade e força que tenhamos, não estamos fazendo sequer uma ondinha. Parece estarmos precisando de algum tipo de terremoto lá em nossas profundezas ou de algum tufão, ou de ambos. Nunca fui fã de calmaria, e por isso sempre pareci um monstro aos olhos dos outros.

Não me parece à toa a fixação tão grande que os filósofos possuem pelos gregos. Eles sim eram conhecedores do verdadeiro ócio, silêncio, paciência, saúde e doença – eles sim eram um grande tsunami. Ou o nascimento da física foi algo a priori? Não miraram eles por muito tempo as estrelas e os planetas até entenderem que eles se moviam? Quem dera algum jovem de hoje fosse capaz de algo assim. Parece-me que os tempos de outrora podiam ser menos higiênicos, mas hoje nós estamos mais sujos do que nunca.

Querem o silêncio? Aprendam a suspenção teleológica da moral.

* Aqui eu não faço diferença entre psicopatia e sociopatia, pois, a meu ver, não há diferença da condição de antissocialiedade, nem no nível fisiológico. Há apenas diferença no grau entre ambos.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“O silêncio é um espião”

Mário Quintana

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P.S.: E me parece incrível essa necessidade de salvar a sociedade que muitos pensadores têm. E isso também acontece com aqueles que tentam salvar a juventude. Quem disse que eles querem ser salvos? O que vocês são? Deuses? Ora essa, critiquem, mas não queiram mudar com um monte de bytes e papéis a sociedade. Na verdade, nem tentem. Mudar a sociedade? Ela muda com os mortos.

2 thoughts on “O normal #12

  1. Sobre tua escrita acho que já disse e torno a repetir, cada vez mais surpreende, este texto me pareceu de grande cunho filosófico sobre pensamento, conduta, que me levou a questionar e refletir sobre muitas questões e pontos, e que desfecho sensacional, a sociedade só muda mesmo com os mortos ou com aqueles que de alguma forma procuraram acrescentar possibilidade debatendo suas inquietações diante das circunstâncias revoltantes que se deparavam. Gostei de modo especial deste artigo,

    um cordial abraço.

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