Conto de Dostoiévski

Havia, lá onde eu estive, um bando de crianças. Eu estava sempre com as crianças! Somente com as crianças!… Era a criançada da aldeia. Toda uma revoada de escolares. Não que eu cuidasse delas. Oh, não; havia um professor para isso, Jules Thibault. Mas de certo modo não deixava eu de lhes ser útil, passando a maior parte do tempo no meio delas. Durante aqueles quatro anos posso dizer que convivi com elas. Para mim nada mais me interessava que isso. Costumava falar com elas a respeito de tudo, não as enganando em nada. Os pais e os conhecidos delas implicaram logo comigo, só porque as crianças não podiam passar sem mim e estavam sempre me rodeando, a tal ponto que o professor se tornou meu inimigo ferrenho. Tive muitas outras inimizades lá, pelo mesmo motivo, e o próprio Schneider [, meu médico,] se voltou contra mim. Não sei o que temiam! Às crianças se pode dizer tudo, tudo! Sempre me chocou verificar como os adultos não as compreendem, o pouquíssimo que os pais entendem de seus próprios filhos. Nada se deve ocultar às crianças, nem mesmo sob o pretexto de ser ainda muito cedo para que nos entendam. Isso é uma ideia triste e mesquinha. Sim, logo se dão conta de que os pais as consideram pequeninas demais para compreender as coisas! E todavia… sabem tudo! Há gente crescida que ignora que mesmo no caso mais difícil uma criança pode dar um conselho acertado! Reparem bem não é uma vergonha decepcionarmos esse pequenino pássaro que nos olha com tamanha felicidade e confiança? Digo pássaro porque não há coisa mais bela no mundo. Mas o que na verdade indispôs toda a gente contra mim foi o seguinte: Thibault tinha inveja e ciúme de mim. No começo, ele apenas meneava a cabeça, não podendo atinar como era que a meninada compreendia tudo através de mim e quase nada do que ele ensinava. Deu então em caçoar, só porque lhe disse que nenhum de nós podia ensinar fosse o que fosse às crianças, e que delas sim, tínhamos de aprender tudo. Como pode esse homem, vivendo por ofício entre as crianças, vir a ter ciúmes, chegando a me intrigar tanto? Pois se a alma só se robustece no convívio com as crianças, não é mesmo?… Havia na instituição de Schneider um homem muito infeliz. Duvido mesmo que haja outra infelicidade comparável à dele. Estava em tratamento lá por causa de loucura. A meu ver, não era louco, mas sim medonhamente desgraçado. Isso é que ele era. Se ao menos as senhoritas imaginassem o que a criançada fez por ele no fim… Mas, sobre esse paciente será melhor eu falar em uma outra ocasião. Eu lhes vou dizer, agora, como foi que tudo aquilo começou. No início, as crianças não se sentiram atraídas por mim. Eu era tão grande! Sou sempre tão desajeitado! Eu sei também que sou feio… E, ainda por cima, eu era estrangeiro. No começo elas caçoavam de mim e, depois que me viram beijar Marie, deram em me jogar pedras. Eu só a beijei uma vez… Ora, por que estão rindo? – e Míchkin se apressou em deter o sorriso de suas ouvintes. – Não se tratava de namoro, não. Se chegassem a saber que criatura infeliz ela era, teriam compaixão, como eu tive. Vivia na nossa aldeia, com a velha mãe. Das duas janelas da sua casa em ruínas uma estava reservada, com licença das autoridades locais, que tinham dado permissão à velha para a venda, ali, de cordões de sapatos, linhas, fumo e sabão. Rendia uma bagatela, mas era com o que elas viviam. A velha era inválida; tinha as pernas inchadas, viva entrevada. Marie, sua filha, era uma rapariga de vinte anos, fraca e magra. E apesar de há muito tempo tuberculosa, ia de casa em casa, para trabalhos pesados: esfregava assoalhos, lavava roupa, varria quintais e tratava do gado. Um caixeiro-viajante francês a seduziu e a levou consigo, para acabar, uma semana depois, abandonando-a. O tratante desapareceu! Teve ela de voltar para casa, esmolando, toda enlameada e em frangalhos, os sapatos em petição de miséria. Levou uma semana para chegar; teve de passar noites nos campos apanhando um frio espantoso. Trazia os pés cheios de feridas, e as mãos gretadas e inflamadas. Antes, já não era bonita; apenas os olhos eram suaves, doces e inocentes. E como era calada! Lembro-me de que, uma vez, trabalhando, se pôs a cantar! E não posso esquecer como todo o mundo desandou a rir, com essa surpresa. “Maria está cantando! Ora essa, Maria cantando!…” Ficou tão desconcertada que nunca mais entreabriu os lábios. Naqueles outros tempos o povo ainda era bom para com ela, mas quando voltou, escangalhada e doente, ninguém mais teve pena. Como, em tais circunstâncias, o povo se torna cruel!? Como é grosseira a noção que as criaturas têm dessas coisas! Para começar, a própria mãe a recebeu com desprezo e cólera. “Tu me desgraçaste!” E foi a primeira a abandoná-la à sua vergonha. Mal souberam que Marie tinha voltado, todos vieram logo ver, e a aldeia em peso se aglomerou diante do casebre da velha. Todos! Velhos e crianças, mulheres e raparigas, todo o mundo, uma gentalha sequiosa e movediça. Maria jazia por terra, aos pés da velha, esfomeada e em andrajos, toda em lágrimas. Vendo-os chegar, cobriu o rosto com a cabeleira, a cara grudada no chão. Ficaram ali, pasmados diante dela, como diante de um réptil. Os velhos a censuravam e os moços se riam. O mulherio a espezinhava com ultrajes, olhando com asco, como se a pobrezinha fosse uma aranha. E a mãe permitia tudo isso, ali ao lado, acenando com a cabeça, concordando com todos, embora o estupor da velha já estivesse bastante doente e quase moribunda. Tanto que, dois meses depois, morria. E sabendo que estava para morrer, até à data da morte não sonhou sequer em se reconciliar com a filha. Nunca lhe dirigiu uma palavra; pô-la a dormir no alpendre, quase que lhe negava comida. Como, porém, precisava de escalda-pés, Marie lhe fazia isso sempre pronta; a velha aceitava o serviço em silêncio, sem jamais lhe dirigir uma palavra amável. Marie resignou-se a tudo e, quando vim a conhecê-la, tive informações de que achava isso muito certo, considerando-se a mais ínfima das criaturas. Já quando a velha nem se podia mais levantar, as velhotas da aldeia se revezavam para ficar com ela um pouco, como é de hábito entre essa gente. Nenhuma deu mais comida a Marie, e na aldeia todos se afastavam dela; e ninguém lhe quis dar mais trabalho, como antigamente. E assim, cada qual cuspia nele; os homens, não a olhando mais como a uma mulher ao menos, diziam-lhe indecências. Às vezes, mas poucas, quando voltavam bêbados, aos domingos, eles se divertiam em jogar-lhe moedas, atirando-as perto, no chão. Maria apanhava-as, sem dizer, palavra. Começou a escarrar sangue, nessa época. Ultimamente, as suas roupas eram andrajos só, o que ainda a envergonhava mais de aparecer na aldeia. Desde que regressara, andava descalça. Então, a criançada principalmente, todo o bando – eram cerca de uns quarenta escolares – começou a apupá-la e a jogar-lhe porcarias. Ela pediu ao vaqueiro que a deixasse olhar pelas vacas, mas o a enxotou; mesmo assim, deu em sair, o dia inteiro, com o gado, por deliberação própria, ainda que sem licença. E como isso convinha ao vaqueiro, que logo percebeu a vantagem, não a enxotou mais e, uma vez ou outra, lhe dava do pão e do queijo que lhe sobrava do jantar. Considerava isso um grande favor de sua parte. Quando a mãe lhe morreu, o pastor não teve escrúpulo de envergonhar Marie na igreja, defronte de todo o mundo. Marie estava chorando ao lado do ataúde, em trapos, como andava. Uma porção de gente se tinha juntado para vê-la assim ao lado do caixão a chorar. E então, o pastor (ele era ainda moço e toda a sua ambição era vir a se tornar um grande pregador!) apontou para Marie e, dirigindo-se a todos, disse: “Ali vedes a causa da morte desta prestante mulher (o que era uma mentira, pois havia dois anos que ela estava doente), ali está ela, defronte de vós e não ousa olhar-vos, pois sabe que está marcada pelo dedo de Deus; ali está ela, os pés descalços e a roupa em trapos! Seja isso uma advertência a todos a fim de preservarem a virtude. Eis o desgosto que uma filha pode causar a sua mãe!” E assim por diante, sempre neste estilo. E, acreditem, mesmo que lhes custe, tal infâmia agradou sobremodo! Mas… nisto, as coisas seguiram um curso diferente. A criançada tomou sozinha uma deliberação, e, como já estava tida do meu lado; começou a gostar de Marie.

E eis como isso aconteceu… Eu desejava fazer alguma coisa por Marie. Ela estava bem necessitada de dinheiro, mas eu nunca tinha comigo uma nota sequer, nesse tempo. Lembrei-me de um alfinete com um diamantezinho e o vendi a um bufarinheiro que andava de aldeia em aldeia vendendo e comprando roupa velha. Deu-me oito francos, e aquilo valia bem uns quarenta. Tratei logo de encontrar Marie sozinha. Por fim dei com ela perto de uma sebe, fora da aldeia, em um atalho da montanha, atrás de uma árvore. Entreguei-lhe então os oito francos e lhe disse que tomasse cuidado, pois me seria impossível arranjar mais. Foi então que a beijei e lhe disse que não pensasse que eu era algum mal-intencionado. Expliquei0lhe que a beijava não porque estivesse enamorado, mas porque tinha muita pena dela; e afirmei que nunca, desde o começo, a tinha julgado culpada, mas somente infeliz. Pretendi confortá-la, ali mesmo, e persuadi-la a que não se considerasse inferior a qualquer pessoa; creio, porém, que ela não me entendeu. Percebi isso imediatamente, embora não me respondesse quase nada todo o tempo, assim, diante de mim, a olhar para o chão, horrivelmente confusa. Quando acabei, ela beijou minha mão, e eu imediatamente segurei a dela, e a teria beijado se ela não a retirasse. Foi então que o bando das crianças nos viu. Percebi depois que nos estavam espiando desde alguns momentos antes. Começaram a assobiar, a rir e bater as mãos. Marie fugiu. Eu quis falar às crianças mas elas se puseram a atirar-me pedras. Naquele mesmo dia, todo o mundo soube disso, em toda a aldeia. O peso de tudo caiu sobre Marie, de novo; antipatizaram com ela ainda mais. Cheguei mesmo a ouvir que pretenderam que as autoridades a castigassem; mas, graças a Deus, tal não se deu. Todavia as crianças não a deixaram em paz; atormentavam-na ainda mais e até lhe atiravam imundices. Enxotavam-na; ela fugia, com aqueles seus pulmõezinhos fracos, arfando, e quase sem fôlego. Corriam atrás dela, gritando e xingando. Até que, uma vez, tive uma briga, deveras, com eles. Pus-me a falar-lhes. Falava-lhes todos os dias e o mais possível. Às vezes paravam e escutavam, embora ainda me escarnecessem. Fiz-lhes ver quanto Marie era infeliz; deixaram logo de debicar e se retiraram calados. Pouco a pouco, começamos a conversar juntos. Não lhes ocultava coisa alguma, contei-lhes toda a história. Ouviram com toda a atenção e logo começaram a ter pena de Marie. Alguns até a saudavam amistosamente à medida que a encontravam. É um hábito de lá, quando uma pessoa encontra outra, conheçam-se ou não, inclinarem-se e se desejarem bom dia. Posso imaginar como isso causou admiração a Marie. Duas menininhas, um dia, trouxeram comida que lhe ofereceram; e depois vieram me dizer. Contaram-me que Marie chorou e que a amavam, agora, muito. Imediatamente todos começaram a querer bem a ela, e a mim, também. Deram em vir ver-me, sempre, e me pediam que lhes contasse histórias. Creio que me saí bem nisso, pois se puseram a escutar0me, muito contentes. Foi depois disso que comecei a ler e a estudar, simplesmente para ter o que lhes contar e, nos três anos seguintes, acostumei-me a inventar-lhes histórias. Depois, então, quando todo o mundo, inclusive o próprio Schneider, me repreendia por falar com elas como a pessoas crescidas, não lhes escondendo absolutamente nada, eu afirmei que era uma vergonha decepcioná-las; que elas viriam a saber tudo, de qualquer maneira, mesmo que muitas coisas lhes fossem ocultadas, e que talvez vissem a sabê-las por um meio mau; ao passo que, comigo, não. Basta que cada qual se lembre da própria infância…

Não concordaram… Eu beijara Marie, umas duas semanas antes de sua mãe morrer. Na ocasião em que o pastor pronunciou a sua arenga, já a criançada toda estava do meu lado. Imediatamente lhes contei a má ação do pastor, explicando-lhes bem. Ficaram zangadas com ele, e algumas se enfureceram tanto que apedrejaram e quebraram os vidros das janelas dele. Fi-las parar, pois isso não estava direito. Mas todos na aldeia vieram a saber disso e começaram a me acusar de estar corrompendo as crianças. E tendo percebido que as crianças gostavam de Marie, ficaram horrorizados. Marie, porém, era feliz, agora! Proibiram as crianças de se encontrar com ela. Mas escapuliam para onde ela guardava o gado, aproximadamente meia milha fora da aldeia. Levavam-lhe iguarias. E uma  ou outra, isoladamente, vinha a correr, só para abraçá-la e beijá-la e dizer-lhe “Je vous aime, Marie” [Eu te amo, Marie] e logo voltava a correr tão ligeiro quanto as suas perninhas lhe permitiam. Marie quase ficava fora de si, ante uma felicidade para ela nunca vista. Pois se nem sonhara com tal possibilidade! Ficava ruborizada e radiante. Do que as crianças mais gostavam, especialmente as meninas, era correr até ela para lhe dizer que eu a amava e lhes tinha falado muito dela. Contavam-lhe que eu lhes tinha relatado tudo a seus respeito e que por isso, agora, lhe tinham amor e compaixão. E que para sempre isso seriam assim! Corriam, depois, para mim,  com seus rostinhos alegres e compenetrados, e participavam que tinham acabado de ver Marie e que Marie me enviara lembranças.

De tardinha costumava eu ir passear até à cascata. Era um lugar bem escondido da aldeia, todo rodeado de álamos. Lá costumavam se reunir à minha volta algumas dessas crianças que vinham às escondidas. Acho que o meu sentimento por Maria lhes causava imenso prazer; e este foi o único ponto em que as decepcionei. Pensam que lhes disse que elas estavam enganadas, que eu não estava namorando Marie? Que somente tinha muita pena dela? Não lhes disse nada a tal respeito, pois fácil era perceber que queriam que as coisas fossem conforme suas imaginações e de acordo com o que julgavam como lógico. Quanta delicadeza e ternura naqueles coraçõezinhos! Mas uma coisa não lhes entrava nas cabecinhas: que Marie, sendo amada pelo querido Léon, devesse andar tão mal vestida e descalça. E, querem saber? Conseguiram arranjar-lhe sapatos, meias grossas, roupa branca e até mesmo um vestido. Como, não sei. A verdade é que conseguiram. E o bando inteiro a trabalhar sempre. Quando eu, maravilhado, as interrogava à cata de esclarecimentos, apenas davam risadas gostosas; as menininhas, essas então batiam com as mãos e me davam beijos. Algumas vezes eu também me abalançava a ir ver Marie, mas sempre às escondidas. Ela já estava então muito mal; quase não podia andar. Impossível lhe era já agora trabalhar na casa do pastor, mas ainda saía todas as manhãs com o gado. Costumava sentar-se um pouco apartada. Preferia instalar-se em uma espécie de saliência, entre rochedos quase a pique. Sempre se sentava acolá, fora da vista, em um canto, permanecendo quase o dia inteiro, desde manhã cedinho, naquele seu retiro. Saía só na hora de recolher o gado. Mas já estava tão fraca, por causa da tuberculose, que encostava a cabeça contra a rocha e fechava os olhos dormitando, com a sua respiraçãozinha penosa. Seu rostinho era tão transparente que parecia uma caveira. Havia sempre suor a lhe escorrer da testa e das têmporas. Eu a encontrava quase sempre assim. Mal eu aparecia, ela despertava, abria os olhos e não parava de me beijar as mãos. Eu quase não demorava porque não queria que ninguém me visse. Quedava-me ali, sentado ao seu lado, não tentava sequer recolher as mãos, pois Marie se sentia feliz em mostrar com aqueles beijos a sua gratidão. Uma vez ou outra ela experimentava dizer qualquer coisa… Mas nunca cheguei a compreender aquelas palavras engroladas. Parecia uma criatura em transe, em uma terrível crise de ânsia ante tão pequena mas para ela tamanha felicidade. Às vezes eu levava comigo algumas das crianças. Estas ficavam por perto, vigiando os arredores, como que a proteger-nos de alguém, ou de alguma coisa, sentindo com isso um extraordinário prazer. Quando nos íamos, Marie ainda ficava, tão sozinha, com os olhos fechados, a cabeça reclinada contra o rochedo, sonhando talvez com alguma coisa…
Certa manhã já não pôde sair com as vacas; ficou em casa, na sua solitária choupana. As crianças souberam disso imediatamente e quase todas vieram perguntar por ela, nesse dia. Estava deitada, completamente só. Durante dois dias foi guardada apenas pelas crianças que se revezavam em turnos; mas quando a notícia se espalhou pela aldeia e houve indícios de que Marie estava à morte, todas aquelas velhas da terra vieram e se instalaram na sua cabeceira. Penso que então aquela gente começou a sentir pena de Marie. Ainda assim, ralhavam com as crianças e a proibiam de vir vê-la, como já tinha feito antes. Marie estava quase todo o tempo adormecida, mas o seu sono era entrecortado por uma tosse terrível. As velhotas escorraçavam com as crianças; mas estas apareciam do lado de fora da janela, algumas vezes, um momento só que fosse, para dizerem “Bounjour, notre bonne Marie” [Bom dia, nossa querida Marie]. E mal as pressentia, ou as ouvia, ela parecia reviver e, apesar das velhas estarem ali, experimentava levantar-se apoiada nos cotovelos, acenava-lhes e lhes dizia “Merci”. Deram em lhe trazer guloseimas, como antes, mas raramente ela comia alguma coisa. E, em verdade, lhes posso garantir que foi graças a elas que Marie morreu quase feliz! Graças a elas, pôde esquecer o seu amargo sofrimento. Elas lhe trouxeram, com isso, uma como que absolvição, pois até ao fim se considerou uma grande pecadora. Ah! as crianças pareciam aves, batendo com as asas contra a janela, chamando por ela, todas as manhãs: “Nous t’aimons, Marie!” [Nós te amamos, Marie!]

Morreu muito cedo. Eu esperava que ela durasse mais. Na véspera da sua morte fui vê-la, ao pôr-do-sol. Parece que me reconheceu quando lhe segurei e apertei a mão pela última vez. Como seus dedos se haviam descarnado! Na manhã seguinte vieram participar-me que Marie tinha morrido. Não houve quem pudesse conter as crianças. Elas lhe enfeitaram o caixão com flores e lhe puseram uma grinalda na cabeça. o pastor, na igreja, não cometeu nenhuma aviltação desta vez. Não foi um funeral concorrido, havia pouca gente, atraída pela curiosidade; mas quando o caixão teve de ser carregado para fora, a criançada investiu para o carregar. E conquanto não fossem suficientemente fortes para aguentar o peso, sozinhas, ajudaram a levá-lo, e caminhavam atrás do ataúde, chorando. Desde então, as crianças zelaram pela sepultura de Marie. Plantaram rosas em toda volta, e cada ano a cobriam de flores.

Foi, porém, depois do enterro, que eu fui mais perseguido pelos aldeões, por causa da criançada. O pastor e o mestre-escola os atiçavam. As crianças ficaram estritamente proibidas de se encontrarem comigo, e Schneider empregou todo o seu esforço para que tal proibição fosse efetiva. Mas nós nos víamos, assim mesmo; comunicávamo-nos a distância, por sinais. Enviávamo-nos pequenos bilhetes. Por fim as coisas se aplainaram. Mas foi esplêndido, todo esse tempo. Essa perseguição ainda me aproximou mais das crianças. No último ano, o pastor e Thibault estavam quase reconciliados comigo. E Schneider argumentava muito comigo a respeito do “meu sistema” pernicioso para com as crianças. Como se eu tivesse algum “sistema”! Por fim, Schneider revelou um muito estranho pensamento, o que fez pouco antes de eu vir embora. Confessou-me que tinha chegado à conclusão de que eu era uma completa criança, eu próprio. Nem mais nem menos do que uma criança; que era adulto apenas na cara e no tamanho, mas que, no desenvolvimento, na alma, no caráter, e talvez até na inteligência, não tinha crescido, e que permaneceria sempre assim, mesmo vivesse até aos sessenta!…

Ri-me muito. Ele estava errado, é lógico, pois não sou nenhuma criança. Mas em uma coisa ele tem razão. Não gosto de ser como as pessoas crescidas. Notei isso, desde muito. E não gosto, porque não sei como agir diante delas. Digam-me seja o que for, por mais gentis que sejam comigo, sempre me sinto de certo modo oprimido diante delas e fico medonhamente alegre quando posso voltar para os meus companheiros; e os meus companheiros têm sido sempre as crianças, não porque eu próprio seja uma criança, mas porque sempre me senti atraído por elas. Quando eu era novato na aldeia, ao tempo em que empreendia melancólicos passeios pela montanha, sozinho, e me acontecia, especialmente por volta do meio-dia, encontrar o bando barulhento saindo da escolha, a correr, com suas sacolas e com suas lousas, entre gritos, jogos e risadas, imediatamente a minha alma corria para eles. Não sei como se dava, mas a verdade é que tinha uma espécie de intensa e feliz sensação cada vez que os encontrava. Ficava parado, quieto, sorria com felicidade vendo-lhe as pequeninas pernas sempre voando por aí afora, meninas e meninos correndo juntos, com seus sorrisos e com suas lágrimas (pois muitos deles armavam rixas, choravam, interrompiam as brigas, passavam a brincar de novo, à saída da escola, de volta para casa) e isso me fazia esquecer todos os meus lúgubres pensamentos. Depois do que, nos três últimos anos, eu nunca pude compreender como e por que há gente triste. O centro de minha vida foram as crianças.

Não contava ter de deixar a aldeia e nem me passava pelo espírito que um dia teria de regressar à Rússia. Pensava permanecer sempre lá. Mas por fim acabei vendo que Schneider não podia continuar me conservando consigo. Foi então que as coisas viraram subitamente, e tão importantes foram elas em sua evidência, que o próprio Schneider instou comigo para vir embora e garantiu a minha volta. Vou examinar essas coisas e aconselhar-me com alguém. Minha vida talvez mude completamente. Deixei muita coisa lá, muita, mesmo! Ao tomar o trem, pensei: “Vou agora me encontrar com o mundo. Ignoro tudo, por assim dizer, mas uma vida nova começou para mim”. Tomei a resolução de fazer a minha tarefa resoluta e honestamente. Deve ser duro e difícil viver no mundo. Em primeiro lugar, resolvi ser cortês e sincero como todo o mundo. “Ninguém deve esperar mais do que isso, de mim. Talvez aqui também me olhem como uma criança; não faz mal”. Todo o mundo me toma por um idiota e isso também pela mesma razão. Outrora estive tão doente que realmente parecia um idiota. Mas posso eu ser idiota, agora, se me sinto apto a ver, por mim próprio, que todo o mundo me toma por um idiota? Quando cheguei, pensei: “Bem sei que me tomam por um idiota; todavia tenho discernimento e eles não se dão conta disso!…” Muitas vezes tive este pensamento.

Mal cheguei a Berlim, recebi algumas cartinhas que as crianças tinham conseguido me escrever, e então compreendi quanto gosto de crianças. A primeira carta Sá sempre muita saudade.  Como as crianças lamentavam a minha ausência! E todavia tinham tido um mês, de antemão; para se preparem para minha partida. “Léon s’en va, Léon s’en va pour toujours!” [Léon se vai, Léon se vai para sempre!] Como antes, encontrávamo-nos sempre na cascata e falávamos da nossa separação. E, certas vezes, tão radiantes como outrora! Era só quando nos separávamos, à noitinha, que elas me abraçavam e beijavam com mais calor do que o faziam antigamente. Uma ou outra vinha me ver sozinha e em segredo, simplesmente para me beijar e abraçar sem ser diante das demais. Quando vim embora, elas todas, todo o bando me acompanhou à estação. A estação da estrada de ferro distava da aldeia cerca de uma verstá. Esforçavam-se por não chorar, mas algumas não se puderam conter e soluçavam alto, principalmente as meninas. Apressamo-nos para não chegar atrasados; mas aqui e além uma delas saía correndo de uma azinhaga, pulava para os meus braços, beijava-me, obrigando toda a procissão a parar, simplesmente para isso. E embora tivéssemos pressa, parávamos, esperando que este, ou aquele, me dissesse adeus. Quando me acomodei e o trem partiu, todas elas exclamaram “Hurra!” e permaneceram lá até perderem o trem de viste. Eu também não tirava os olhos delas…

“O Idiota” – Capítulo 6

_

Trilha sonora do dia:

Nada mais lúdico que Debussy.

_

Citação do dia:

“Mas em uma coisa ele tem razão. Não gosto de ser como as pessoas crescidas. Notei isso, desde muito.”

2 thoughts on “Conto de Dostoiévski

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s