A favor de Nan Goldin

A visão ocidental sobre o corpo

Como de costume, eu acordei cedo para ir comprar jornal. Gosto principalmente do “Segundo Caderno” e o “Prosa e Verso” do Globo. Neste último há uma matéria falando sobre a exposição de Nan Goldin que o Oi Futuro cancelou e que acontecerá no MAM (Museu de Arte Moderna). Mas o que importa aqui é o motivo de ter sido cancelada a exposição no Oi Futuro. Supostamente haveriam fotografias de crianças e jovens nus e em outras situações do cotidiano que acabaram por ferir bastante a ética ocidental, mais especificamente o Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas antes precisamos saber sobre a proposta da fotógrafa com essas imagens e o argumento de alguns especialistas, argumentos estes bastante precipitados e que, apesar de fazerem algum sentido, não constituem uma verdade por completo. Comecemos com o primeiro.

Nan Goldin é uma fotógrafa pós-moderna que segue a linha de outros fotógrafos como Diane Arbus e Mary Ellen Mark, que se propõe a fotografar pessoas da classe média em situações do cotidiano que não são muito retratados de forma expositiva como fazendo sexo, usando drogas etc. Ou seja, ela procura mostrar o ser humano como ele mesmo em seus diversos atos naturais, mostrando o corpo de forma natural e saudável, em seu todo esplendor. E o mesmo acontece com o corpo das crianças e jovens que se propuseram, voluntariamente, a participar do projeto da norteamericana. Essa proposta, de longe, é mais radical do que as das fotógrafas ditas; talvez por ela ser mais explícita em sua proposta – e por que deveria ela ser tão recalcada quanto o ocidente com sua visão cristã e limitada acerca do corpo; apesar de já entendermos bastante sobre o próprio?

Alguns especialistas em antropologia acabaram por dar entrevistas acerca do que acham sobre a exposição e seu cancelamento no Oi Futuro. O argumento da grande maioria pode ser reduzido a um só: é preciso ter registro (no mesmo sentido de registro linguístico), ou seja, é preciso saber o que mostrar em determinado contexto, p.ex.: é normal aparecer fotos de pessoas nuas num livro de anatomia, mas seria totalmente inapropriado aparecer em um livro da alfabetização. Bem, por onde começar com tamanha demagogia? Basta que nos perguntemos uma simples coisa, a qual parece ter passado batido pelos intelectuais: por que fotos de pessoas nuas estariam em um livro de uma turma de alfabetização? A primeira coisa a notar é a típica falácia non sequitur de tais intelectuais, porque não podemos comparar um livro de anatomia com um livro de alfabetização e pensar o mesmo sobre a sociedade em relação a um museu. Haveria primeiro o argumento de que a exposição não estaria ao ar livre, mas estaria num local fechado em que as pessoas iriam por vontade própria – podemos comparar isso ainda a um livro usado com a intenção de ensinar os signos linguísticos? Só se pensássemos através do argumento de credo quia absurdum.

Agora vem a questão da amostragem do corpo de uma criança, assunto principal que levou a curadora a cancelar a exposição; aqui eu quoto um psicanalista: “Em qualquer época, o Ocidente sempre duvidará da capacidade da criança”. O que quero dizer não é que devemos então passar a amar ver crianças peladas, mas sim que não devemos ver nada de errado nisso; afinal, o que há de errado nisso? Nosso corpo é tão odioso assim? O corpo de uma criança é tão odioso assim? É legal pensar nisso comparando com um filme chinês chama “Little Red Flowers”, que se passa em um lugar em que as crianças ficam 24 horas porque os pais não têm tempo de cuidar delas (chamam de jardim de infância, lá). É interessante notar como o oriente possui uma relação mais direta com o corpo e mais amorosa com ele: as crianças dormem lá com a parte debaixo descoberta, apenas com um manto que as cobre até um pouco abaixo da cintura. O que acontece é que os meninos e as meninas acabam por ter um relacionamento mais aberto com o corpo do outro, percebendo suas semelhanças e diferenças. A grande pergunta está no porquê de vermos o corpo como algo tão nojento e que deve ser escondido sobre várias camadas, principalmente os órgãos genitais e, no caso das mulheres, os peitos também. Ora, que o pênis seja equivalente a um braço ou perna! Cada um possui suas particularidades, por que devemos esconder alguns por suas particularidades também? É desnecessário ao extremo dizer que o desprezo ao corpo é algo característico da cultura cristã, a qual promulgou um ideal ascético em massa – ao contrário do budismo que o faz apenas com aqueles que aceitam tal tarefa, não havendo repressão contra quem não o deseja. Qualquer um que for observar as esculturas, tanto do ocidente quanto do oriente, vasos e outros ornamentos antigos poderá constatar que todos eles reproduzem o homem em seus vários atos: um ótimo exemplo disso é a própria pederastia, há muitos vasos e pinturas ocidentais e orientais antigos que retratam isso com a maior clareza e que vai muito além das fotografias de Goldin (alguns vasos representam explicitamente o ato sexual). E é claro que a maioria, ou todas, essas obras foram constituídas em épocas em que o cristianismo não dominava, mostrando a própria culpabilidade desta.

Então, fica aqui a minha dúvida: por que odiar o belo corpo de uma criança em seu esplendor? ou de uma mulher? ou de um homem? ou de um adolescente? Será que eles representam mesmo tudo aquilo que achamos? Será que temos tanto medo mesmo de ver fotografias em um museu de pessoas de classe média (e que fossem de baixa e alta!) em seu cotidiano e intimidade? Mas a intimidade deles não é a mesma que a nossa? O sexo deles não é o mesmo que o nosso? O corpo da criança não é o mesmo que já tivemos ou temos (se tiver hipopituitarismo, por exemplo)? Por que desprezar quando podemos amar o corpo?

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“É preciso respeitar as crianças. Os adultos falam com elas como se fossem todas retardadas”

Quino

4 thoughts on “A favor de Nan Goldin

  1. O professor Henrique dizia que achar é de nescios, nesse caso, tentarei tecer uma argumentação consistente ( um fato: odeio ‘’achistas’’ e quando eu disser eu acho, tenha, se assim desejar em mente, que o meu achar é um achado, com base em algumas leituras, e experiências , validas? Não tenho ideia). E convenhamos que interpretes de quais quer coisas, são o fim do que dizem elucidar. Por quê? Simplesmente por que reduzem o universalismo da obra, aos seus dogmas sectários… um paradoxo que somos forçados a conviver, já que ainda existe uma diferença entre espectadores desejosos e propositores/fruidores…
    O que sempre me perguntei é como podemos compreender uma obra de arte, um organismo vivo e dinâmico, que é em si mesma e apesar de si mesma, atemporal. Logicamente que este organismo, tem assim como qualquer símbolo, seu significado alterado ao longo do tempo, significado este que é construído por uma sociedade que constrói o individuo e este a constrói, e como falamos de arte um exemplo de imagem que pode elucidar ( olha a pretensão) essa questão, é aquela famosa litografia de 1948, de Escher em que duas mãos se desenham, chamada Desenhando. Como sabemos nunca um objeto artístico vai ser compreendido da mesma forma por uma sociedade, mas, existem historiadores que tentam , e geralmente alguns conseguem bons resultados, nessa tentativa.
    Fator importante nesse caso é tentar recriar a intenção do artista quando se pôs a construir a obra, elaborá-la ( aquela estória de inspiração divina, Musas, etc., é linda, eu acho… mas a neurociência tem nos ajudado a dissipar tais mitos, claro que existe sim, uma questão do sagrado, como seria a obra de Bach sem o legado Protestante??).
    Como diz um dos Venturi, não recordo qual dos dois, pai ou filho, ai esta a citação, tenho cuidado de usá-la no mesmo contexto: ‘‘ Para compreender uma poesia de Baudelaire, não basta compreender a língua francesa, mas a linguagem particular de Baudelaire’’. O pintor , fotografo, o escafandrista , o motorneiro também possuem tal linguajem . Para a fruição ocorrer temos que estar desnudos de todo o orgulho, estarmos aptos a nos entregar a essa experiência, mas como o Howard Phillips Lovecraft nota, em relação aos romances de terror, serve para nossa análise:‘’O apelo do macabro, espectral (indefinível, observação minha) é geralmente restrito por que exige do leitor um certo grau de imaginação e uma capacidade de distanciamento da vida cotidiana. São realmente poucos os que se libertam o suficiente do feitiço da rotina diária para responder aos apelos de fora, e as histórias sobre emoções e acontecimentos ordinários ou distorções sentimentais comuns dessas emoções e acontecimentos que sempre ocuparão o primeiro lugar no gosto da maioria; com justeza talvez, já que o curso dessa matéria sem nada de particular, constitui em parte a maior experiência humana.’’ Se abrir a experiências da arte é algo complicado, inda, quando falamos da arte moderna, mas um dos modernos disse ,’’ a arte deveria ser uma expressão intelectual e não animal’’ . Em casos como o do BB,( eu mandei o texto para o Felipe ler e ele disse, q é BBB, por que sou obrigado saber? Vai continuar BB, E PONTO!! Nesses detalhes eu mostro minha revolta contra o autoritarismo do meio.) da revista Época com a reportagem sobre o Michel Teló (? Não sei como se escreve e não tenho, nem por que me dar ao trabalho de saber escrever o nome desse ser) o publico não se manifestou tão ultrajado, e vale ressaltar que essa sim seria uma expressão animal que mereceria, ser vetada…

  2. Isso é engraçado mesmo…
    O grande problema com a obra de Nan Goldin é o fato de a modelo ser uma menina. O senso comum se choca mais com a exposição do retrato de uma criança, em atitude propriamente infantil, do que com a absolvição de Zequinha Barbosa e seu ex-assessor. Em 2003, eles pegaram em um ponto de ônibus em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, duas adolescentes de 12 e 13 anos. Fizeram sexo com elas no motel, fotografaram as duas nuas e pagaram R$ 80.
    A necessidade que a sociedade tem de esquecer, de “varrer para debaixo do tapete” tudo aquilo que fere a “moral(?) e os bons-costumes(?)” se choca com a permanência conferida pela obra da fotógrafa.

    Em uma escala bem menor… se a foto de uma criança nua é considerada exploração sexual… o que dizer de todas as mães que tiram fotos de seus bebês nus, os levam a praia nus, as propagandas de fralda que exibem os bumbuns de bebês? São igualmente criminosos?

  3. Mais um caso sintomático da nossa espúria moral judaico-cristã de desprezo ao corpo; pouco importa se se trata do corpo infantil ou do corpo adulto, ambos recebem o mesmo tratamento de violência – ainda que simbólica -, graças ao qual ele é reduzido. Como se não bastasse, ainda dispomos de uma raça impertinente de especialistas – ou de padres – para disseminar ainda mais esse ódio à carne, em prol de uma espiritualização vazia e ignóbil. Mas Nietzsche mesmo diz, e com razão, que toda sã educação começa pelo corpo, e não pelo espírito.

    Foucault mostra muito bem em suas análises o quanto o corpo é investido pelo poder, ora para ser disciplinado (“Vigiar e Punir”), ora para ser controlado (o regime biopolítico das sociedades de controle), de modo que a positividade do corpo – a única positividade que tais investimentos asseguram -, é voltada unicamente à produção (corpos dóceis). Ou, o que não é pior, voltado à produção de si mesmo, mas agora caracterizado por uma pobreza desmesurada. O corpo é aquilo que precisa ser vigiado, reprimido, e estimulado segundo uma lógica que é a do controle e a do capitalismo pós-moderno.

    “E é claro que a maioria, ou todas, essas obras foram constituídas em épocas em que o cristianismo não dominava, mostrando a própria culpabilidade desta.”

    Eis uma observação brilhante. É notório o culto ao corpo promovido pelos povos helênicos. O corpo para eles não era aquilo que deveria ser execrado, mas aquilo que deveria ser exaltado em toda sua positividade e glória. Ainda hoje vivemos sob um regime de negação do corpo, não só pelo cristianismo em si, mas pela indústria e pelas transmutações dos valores que ela opera a nível de seu niilismo crônico: é a forma que cultuamos, e não o corpo, quando fazemos dieta, tomamos suplementos, fazemos academia etc. Um corpo submetido ao rigor da forma. Um corpo esquadrinhado pelo poder.

    Bom post, Felipe. O li com prazer.

  4. Pingback: Paredes divisórias – um breve pensamento « Era uma vez Chaplin…

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