Diário de Andrés Fava

Livro de Julio Cortázar, Andrés Fava é um dos protagonistas de uma de suas várias obras, O exame final, escrita nos anos 50 e publicada nos anos 80. O diário também é datado como escrito nos anos 50 faz pouquíssimas referências aos incidentes e personagens do romance o qual participara, mas antecipa muitos trabalhos posteriores de Cortázar, e é rico em elementos autobiográficos e em reflexões expressas com humor e melancolia em torno de tudo o que rondara Cortázar em sua vida.

Selecionei alguns trechos que mais gostei para postar aqui – e quem sabe, incitar a leitura desta obra cheia de devaneios gostosos de se ler.

“Ai, Andrés, tua cabeça começa a doer; ou então o fígado, e essa insignificância te impede de ver il sole e l’altre stelle.¹ Eles te matam uma vida, como as que já te mataram, e à merda com o universo. O ego se planta sozinho, um olho devorando o mundo – sem vê-lo.” [Pg 12]

“O amor olhando de dentro de uma pequena xícara de café; o preço de um silêncio, a volta para casa por entre arvoredos e gatos.” [Pg 18]

“Dizem – e a gente sorri: “A linguagem me impede de expressar aquilo que penso, aquilo que sinto.” Mais certo seria dizer: “Aquilo que penso, aquilo que sinto, impedem-me de chegar à linguagem.” Entre o meu pensamento e eu, seria a linguagem uma barreira? Não. O meu pensamento é que se atravessa entre mim e a minha linguagem.

Assim, não há outa saída a não ser elevar a linguagem até que alcance autonomia total. Nos grandes poetas, as palavras não levam consigo o pensamento; são o pensamento. Que claro, não é mais pensamento, e sim verbo” [Pg 21, 22]

“Uma coisa é acariciar o teu cabelo, e outra é encontrá-lo na sopa. (Ouvido de um cronista.)” [Pg 22]

“É escuro e não sei como dizer: sentir que minha vida e eu somos duas coisas, e que se fosse possível tirar a vida como se tira o casaco, pendurá-la por algum tempo no encosto da cadeira, seria necessário tempo no encosto da cadeira, seria necessário saltar planos, escapar da projeção uniforme e contínua. Depois vesti-la de novo, ou procurar outra. É muito chato que só tenhamos uma vida, ou que a vida tenha apenas um modo de acontecer. Por mais que possamos preenchê-la de fatos, embelezá-la com um destino bem planejado e realizado, o molde é um só: quinze anos, vinte e cinco, quarenta – o corredor. Levamos a vida como levamos os nossos olhos, do modo que nos modela; os olhos veem o futuro do espaço, assim como a vida é sempre dianteira do tempo.” [Pg. 23]

“E numa noite em que sofria, enfrentando um forte vendaval, tive a carícia de uma certa mão que veio da sombra, sem que eu pudesse saber qual daqueles que me acompanhavam tinha se unido de modo tão puro à minha dor. Tive… (Melhor essa constância do que esta outra: “Não tive…”)” [Pg 26]

“Ainda sobre o suposto “sofrimento” do escritor: se de fato tens de sofrer, que não seja por causa do que escreves, mas como o fazes.” [Pg 32]

“As aftas mentais. Cada vez que são tocadas pela língua da associação, doem.” [Pg 33]

‎”Por isso continua sendo admirável o ponciopilatismo de Rimbaud: Si le cuivre s’éveille clairon, C’EST PAS MA FAUTE.²”  [Pg 39]

“Dar algo de si aos outros (poesia, dinamite, beijos) é reconhecer a integração do eu no tu. Nesse sentido, a abnegação consiste em ser menos-homem, menos-eu. Depender de… seguindo-se um critério rigidamente humano e individual, o ser-em-ti (Gabriel Marcel) admite essa desvalorização.

Os fatores adventícios, proxenetas…

a) Questões materiais: besoin, wants.

b) O sentimento covarde (Ah, se fosse possível fazer o bem ao próximo com benefício para si mesmo!).

Através de agentes não humanos, o indivíduo se rende gostosamente ao macio colchão da sociedade. Por isso, no fundo, toda teoria comunista é indigna.” [Pg 40, 41]

” “Que noite para um suicida”, disse o humorista. Pensei que os suicidas talvez fossem os peixes. Peixes da margem, da terra, contagiados pela cidade, bagrinhos de soleira, que se matavam por não poder alcançá-la (ou depois de tê-la alcançado, mas isto já é tango, e, honestamente não sei se foi isso que pensei naquela noite).” [Pg 42]

“Um mote digno de ser lembrado é aquele que Norah Borges teria dito em um almoço muito formal, quando chegou à mesa a enorme travessa com cozido:

– Que liiiiindo! Parece lixo!” [Pg 50]

“Aí estás, lembro-me de uma noite em Congresso, um adolescente chorando em um banco. Estás, és. Bem, agora é contigo porque eu quero, ou porque aceito que tu queiras: vamos, diz-te. Isto é uma mão, isto é uma folha de papel. Passa através de mim como uma luz passa por um vitral: faz-te palavra, sê aqui. Não importa a ordem dos elementos, não importa se na verdade és o vitral e a palavra te iluminará, fazendo-te ser, ou se és a luz pura e minha palavra (tua, sim, mas minha) será pouco a pouco o vitral que te dará um sentido para sempre.

Para os outros, és o milagre” [Pg 57]

“Tolices que costumam ser ditas: “Se eu tivesse força suficiente, não permitiria isso ou aquilo.”

É possível, se a força te fosse dada agora, milagrosamente. Mas se tivesse crescido envolto em tua força, escravo de tua força, estarias do lado dos que agarram.” [Pg 61]

“Terrível país dos sonhos, onde a lei é um caleidoscópio. Toda uma noite me habita o rosto, o corpo, a ternura de alguém a quem amo, a quem encontro na rua ou em qualquer outro lugar de que gostamos. Retorna também no sonho seguinte; durante semanas governa o meu dormir com a mesma fria petulância de sua vida.

Depois pára. Penso tantas vezes em sua imagem enquanto andava pela rua, entrava em um café, diante de poemas que um dia ambos gostamos. Com estas mãos toco na mesma região diurna; nada muda nessa contínua celebração de um desalento. Então, bruscamente, falta. Sonho uma noite inteira com episódios prodigiosos em que sua presença seria necessária, até mesmo forçosa. Não está. Mesmo sonhando, percebo isso. Ao despertar sei que durante semanas não voltarei a ver-lhe a imagem; o caleidoscópio fez um pequeno giro, e são outras as leis que regem esse mundo, no qual persiste um elemento comum: meu olho que olha, que olha.” [Pg 64, 65]

“Estava chegando a Chacarita a fim de tomar o metrô quando vi um cachorrinho branco morrer. O carro desviou as rodas dianteiras, mas o esmagou com uma das traseiras. Naquele segundo (em que o fato puro, nu, ocorre com tal qualidade onírica que nos leva a dizer: “Parecia um sonho”) os elementos da ocorrência estranhamento se dissociaram. Percebi separadamente a visão e o ruído, como apreensões que não estivessem vinculadas. O ruído foi como uma bolada contra uma parede, um plop seco e forte; a visão foi um ralenti prodigioso: o cão permaneceu de costas, com duas patas para cima e a boca aberta para um grito que não chegou a soltar. Lentamente (aquilo não acabava) foi se torcendo até ficar de lado no chão. Acho que estava morto desde o início, embora lhe restasse vida orgânica para mais um momento; a prova era a sua inexpressividade, aquele momento vagaroso que era apenas efeito da lei da gravidade, um resto do choque demorando em seu corpo.” [Pg 69]

“Você me dirá (estou escrevendo à maneira de Horácio): “Por meio das músicas ascendemos à Música.” Razão de sobra para não esquecer que a escada é a soma dos degraus.

Você pode me dizer algo ainda mais grave: “A chegada ao cume exige abandonar o vale” Sim, alpinista andino, mas escute aqui: se você priva dos prazeres do vale, do seu agradável frescor, o que levará para o cume? Mais ainda: quando se está no cume, o que há para olhar, a não ser o vale?

Porque o céu, de vez em quando, é uma chatice. é necessário voltar para a vista do vale. Se o vale serve para alguma coisa, é para estimular a subida ao cume; se o cume serve para alguma, é para se escolher, agora que tudo está à vista, o que verdadeiramente importa do vale. E não se esqueça de G.K.: “Só uma coisa é necessária: tudo.” [Pg 83]

“Minha prosa é uma recontagem de mortos, feridos e sobreviventes dessa batalha.” [Pg 86]

“Às vezes penso que morrer é escamotear um pouco o vazio. A verdadeira aniquilação deveria ocorrer em vida, assim: estiro lentamente a mão, toco no vazio, e por aí vou. Morrer, ao contrário, é como passar para um nada passivo.” [Pg 87]

“O prazer de viajar não nasce tanto da entrada no desconhecido, mas da rejeição da circunstância habitual, o que excede o geográfico e já faz parte de nós, do mesmo modo que o ar desaparecido do interior da copa da árvore tem seu cheiro e sua cor e é o vazio impalpável de sua forma.” [Pg 97]

“A viagem não é uma solução. Não cair na idiotice de acreditar que seja. Vale – e muito – como reproblematização. Aquele que der uma volta e volte, e tiver mantido os olhos abertos, conhecerá melhor a forma de sua jaula, os ângulos e os passos que preparam as fugas.” [Pg 98]

“O ponto final é pequenininho, quase não se vê na página escrita; em geral o percebemos por contraste, pois depois dele começa o branco.” [Pg 119]

“Para a antologia das epígrafes:

“C’est une de ces âmes tendres qui ne connaissant pas la manière de tuer le chagrin, se laissent, toujours tuer parlui.” Balzac, Gobseck³” [Pg 120]

¹ O sol e as outras estrelas

² Se o cobre se transforma em clarim, NÃO TENHO NADA COM ISSO.

³ O grande cansaço da existência talvez seja apenas esse enorme mal que causamos a nós mesmos com o fim de nos mantermos razoáveis por vinte, quarenta anos, ou mais, ao invés de sermos simplesmente, profundamente, nós mesmos, isto é, imundos, atrozes, absurdos.

Edição da Livraria José Olympo Editora S.A.
Tradução de Mario Pontes
Diário de Andrés Fava, Cortázar, Julio. 

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