“The Omen” e a Questão do Mal

Se há uma série cinematográfica que se mostrou bastante nietzschiana é a trilogia “The Omen” dirigida por Richard Donner – ou seja, refiro-me, aqui, apenas aos filmes primeiros que compuseram toda a história da saga. Um filme um tanto quanto belo, com uma temática um tanto quanto estigmatizada e que fere a moral de muitos – e isso é mais visível no terceiro filme da trilogia.

A história é, grosso modo, acerca da vida e do desenvolvimento infanto-juvenil de uma criança chamada Damien Thorn que seria a criança que descendeu de Satanás (Lúcifer, Besta, Demônio etc.) e que voltou para tentar reinar a Terra. No decorrer da história do primeiro filme, que trata de seu nascimento e sua infância, Damien ainda não sabe de nada, ele é uma criança relativamente quieta com a qual coisas estranhas vem acontecendo, levantando suspeitas diversas da mãe, principalmente, a qual presencia praticamente todos os acontecimentos bizarros que acontecia quando seu filho chegava ao local. O pai começa a suspeitar quando as profecias de um padre começam a se tornar verdadeiras, junto a uma gama de fotos de um fotógrafo que, curiosamente, em suas fotos aparecem sempre uma marca estranha que vai em direção a pessoa – acabam por descobrir que é a forma com que a pessoa fotografada morrerá. É uma corrida contra o tempo: é preciso achar uma maneira de matar o anticristo. Dessa forma, eles vão parar num exorcista chamado Bugenhagen que entrega sete adagas ao pai de Damien, as quais terão uso para matá-lo física e espiritualmente. Pai de Damien, então, após algumas desventuras, acaba por conseguir levar seu filho para a igreja, que é onde ele será morto – ele tem de ser morto em solo sagrado. Porém, quando ele estava para enfiar a primeira adaga que mataria seu corpo físico, o policial atira nele, matando-o. Sem entregar mais ainda o filme, Damien fica órfão. Ao final, ele está de mãos dadas com duas pessoas, sendo uma delas chamada por “Presidente”. Damien sorri.

Damien Thorn

Grosso modo, o “mesmo” acontece no segundo filme: tudo converge para a vitória do, suposto, malvado, aquele que mata sem piedade e que usa de quaisquer artifícios para conseguir o que deseja. Até que no terceiro filme, o que acontece é que tudo converge, sem problemas com a linha da saga, para a vitória de Damien, já adulto, para conquistar o mundo: mas algo acontece em seus últimos minutos, algo faz com que Damien perca a cabeça fazendo com que ele cometa sua terrível hamartía (άμαρτία) levando-o à morte. Curioso isso, como que os últimos minutos de um filme tão imoral, sem distinção do que possa ser de fato o bem e o mal, podem fazer com que todo o filme perca seu sentido e sua grandiosidade que até então teve: afinal, qual seria o problema de o mal vencer? Não é ele que constantemente vence no nosso mundo? Osama Bin Laden é morto! Viva à crueldade que se vinga com crueldade! Joguemos, supostamente, seu corpo ao mar! Deixemo-lo ficar “aos cães atirados e como pasto das aves” – vamos lutar para construir a imagem do mal mascarada com o bem. Isso, é lógico, considerando que possamos ditar um único bem, aquele que é um bem geral, universal, que serve para todos os homens, mulheres, animais, plantas, insetos, bactérias, germes, vírus, elétrons, prótons, nêutrons, quarks, léptons…Onde está esse bem que é um bem para todos? Indispensável, com todos os cartapácios que possuímos, dizer que o “amor ao próximo” não constitui esse bem mundial. Recuso-me a prestar atenção a esse argumento quando temos tantos autores que o desenvolveram de forma esplêndida e trabalhosa.

O que Damien pedia aos terráqueos? Uma segunda chance. Queria poder tirar toda essa moralidade pífia que possuímos e que achamos ser a mais correta de todas, que nos cegou e nos fez de bobo: ele queria nos libertar. “Enquanto Deus tem 10 mandamentos, eu tenho um só. Diga-me e serás todo meu’ – ‘Eu te amo’”. Damien queria restaurar o amor.

Mas não se enganem, se formos levar a história da Bíblia como verdadeira, eu seria obrigado a dizer que Satanás não é o pior inimigo de Deus, muito pelo contrário. Não há servente melhor para Deus do que seu melhor filho o qual se sacrificou para poder criar o espaço onde o mal, em relação ao divino, fosse castigado eternamente. Foi ele o responsável por garantir se Jesus era um homem forte e que não se sucumbiria junto a uma fome de quarenta dias e noites.

Mas de que vale tudo isso? É como querer dissertar acerca de Hades e Zeus, ou quaisquer outros deuses gregos, nórdicos ou latinos. A importância real aqui é o seu caráter moral que, quem sabe, pode levar a um ideal ético, que há muito é feita pelos cristãos.

Bauman diz que “o medo e o mal são irmãs siamesas”, ou seja, enquanto há medo, há mal, e o contrário se mantém. E logo no parágrafo seguinte ele dirá que a questão do que é o mal é uma questão que está além da razão humana e que será impossível de se determinar o que é o mal: mas ele ainda acaba por definir o mal como aquilo que não pode ser explicado por nós, como aquilo que é o inacreditável, o inesperado – tudo o que não conhecemos ou temos experiência de é mal. Dessa forma, o a priori constitui o mal, tudo o que não experimentamos é um possível mal porque é nele que há o risco de vida, o risco de nulidade total de si, ou de algo que se aproxime disso, o que é pior. O bem é apenas aquilo que já experimentamos, que sabemos que não corremos risco de vida.

Damien só pode ser mal em dois níveis: a priori ou a posteriori. Quem dera existisse um “a mediori”, como sugeriu, risonhamente, um amigo meu; isso tornaria todo o caso do mal obsoleto. A partir de várias experiências de mortes estranhas durante o filme, Damien se enquadraria no caso do a posteriori, apesar de haver controvérsias, uma vez que ninguém viu que Damien era de fato o culpado disso, ele era apenas o denominador comum – por que não pura e simples coincidência? – o único que possui tal poder é o espectador. Um dos grandes marcos do filme é marcar a impotência extrema do espectador e seu desejo frente ao destino do filme, o destino que seria supostamente o correto a se tomar, aquele que só é tomado por alguns minutos do terceiro filme e que não dura, sequer, mais que cinco minutos: eis o triunfo do espectador com sua moral do certo. Estando no caso de um mal a posteriori, há duas subcategorias que a compõe: o bem e o mal eles mesmos. O primeiro é aquele que não oferece risco à vida de modo a posteriori, o segundo é o contrário. Damien é o mal que oferece risco de vida para os outros – explicando o porquê de seu próprio primo não querer mais ficar perto dele – que não trabalhem com ele, que não o aceitem como seu deus, como o novo Nazareno, como aquele que é O caminho. A quem isso vos lembra?

Se há diferença entre Deus e Satanás é apenas no âmbito que um é mais pop que o outro, um tem mais boa-fama do que o outro, um tem mais moral do que o outro. Os dois recomendam aquilo que é o maior e mais importante bem de toda a humanidade: o amor.

Há uns meses atrás, eu, enquanto conversava com um amigo no ônibus para Niterói, e ele acabamos por ter nossa conversa interrompida por um jovem rapaz, magro e de longos cabelos encaracolados. Nossa conversa era sobre a influência positiva ou negativa do Kit Gay que o MEC estava mandando às escolas. O rapaz acabou por entrar na conversa afirmando exatamente aquilo que eu estava falando para o meu amigo: a visão de que fará mal é uma visão cristã. No decorrer de nossa conversa que perdurou bastante, esse tal rapaz joga na nossa cara que é um “homossexual satanista” e que defendia uma liberdade para todos, que o único meio de haver liberdade é dando-a para todos. Óbvio que eu e meu amigos não perdoamos seu esfíncter.

O mais interessante disso tudo é que ele, no meio dessa conversa toda, começou a falar sobre a sua doutrina satanista e como os satanistas viam o cristianismo. Para sua infelicidade, eu sou um rapaz muito direto e disse a ele que não percebi diferença alguma entre a doutrina que ele prega e a do cristianismo, uma vez que ele tentava justamente responder as perguntas do cristianismo – Nietzsche fala ao final de “Genealogia da Moral” que o maior erro das ciências e de todas as outras religiões é exatamente essa: para querer responder a alguma pergunta, você deve acreditar na própria pergunta antes, por isso que a ciência é o cerne e a melhor amiga da religião, não o contrário.

E é exatamente isso, todas essas religiões mostraram, até agora, apenas o mesmo lado da moeda, acreditando mostrar um lado diferente, totalmente novo e que salvaria o mundo de todo o “mal” que o assola hoje. Se hoje há muito mal no mundo, é porque estamos tomando conhecimento dele, tão-somente isso; esse mal sempre existiu. Todo esse mal é a maior e melhor sinédoque da humanidade, uma vez que “o medo promoveu mais a compreensão dos homens que o amor, pois o medo quer descobrir quem é o outro, o que ele pode o que ele quer: enganando-se se criaria um perigo ou um prejuízo.”

O medo em relação ao Damien é o próprio medo que ele sentiu dele mesmo ao ver que possui a marca da besta (Apocalipse 13:18), basta repararmos como ele fica atônito ao percebê-la, correndo sem parar até um lago para então soltar um grito de angústia intensa: “Why me?!” O medo apoderou-se dele, fazendo com que não restasse nada a ele senão duas opções: matar-se ou se aceitar. Claramente ele consegue aceitar, após algumas horas, quem ele, de fato, é para, então, começar a amar aquilo que ele é agora e para sempre será.

O que há nisso senão um amor fati? Aceitação plena de seu destino, uma ação trágica por excelência e bastante louvável de Damien (no segundo filme, interpretado pelo paulista naturalizado estadunidense, Jonathan Scott-Taylor). No início do artigo eu falei que esse é um dos filmes mais nietzschianos que há exatamente por essa confusão dentro do próprio filme das noções de bem e de mal, fazendo exclusão do final da trilogia, seus últimos minutos que mostram exatamente o oposto disso, mostrando o triunfo da luz sobre as trevas, manipulando a realidade para que seja do agrado de todos, pois o bem é Deus, a luz, a verdade….mas por que a verdade?

Jean Delumeau é uma dessas almas nobres que foi capaz de iluminar e tirar a cegueira de muitos sobre suas verdades assentadas em pedestais em que já nem se veem mais os premiados. É ele que foi capaz de mostrar que Satã, tal qual como é hoje, foi uma obra de “uma coerência, um relevo e uma difusão jamais atingidos anteriormente”. É bonito até de se notar que a mais antiga representação de Satã, segundo Delumeau, é encontrada “nas paredes da igreja Baouït no Egito (século VI)” e que sua representação foi feita “sob os traços de um anjo, decaído, sem dúvida, e com unhas recurvas, mas sem feiúra e com um sorriso um pouco irônico […] Lúcifer, outrora criatura preferida de Deus, ainda não é um monstro repulsivo”. A beleza e o sorriso nos remetem às duas fotos supra. Satanás, um belo homem, um homem sorridente, afirmativo “e não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (2 Coríntios 11:14).

Assunto longo, enorme, sem fim por culpa da própria humanidade, e que assim continue! Não nos odiemos por sermos maus, porque também somos bons. A questão é saber o que isso significa.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.”

Michel Foucault

7 thoughts on ““The Omen” e a Questão do Mal

  1. Bem interessante o artigo. Você explora bem essa pluradidade de significados que pode ser tanto o bem quanto o mal, afinal, fomos nós que inventamos esses conceitos. Embora eu discorde de alguns pontos por minha própria visão de Deus e tudo o mais. Por exemplo, em minha opinião, a liberdade que falta a humanidade seria uma consciência de aceitação e não simplesmente extrapolar e extrapolar os limites morais chegando a algum tipo de status ilimitado, pois desse modo, a humanidade estaria destinada à destruição: a própria liberdade de escolher o que é bem e o que é mal é uma dissonância, uma instabilidade sem fim que só se tornaria estável a partir de uma religião onipotente, que por outro lado suprimiria a liberdade sendo que dentro dessa liberdade conteria outros aspectos não necessariamente ruins… Teve um parágrafo sobre o Bauman falando sobre o mal como sendo o medo do inesperado, aquilo que não experimentamos que é uma cena exata do meu livro; pena que eu cortei a cena por não se encaixar no enredo. Mas há um bando de personagens que pensam desse jeito, e como já falei a você, eles são os “vilões”😛. Mas claro, não quer dizer que eles sejam maus; Aliás, nem na sociedade onde vive os “mocinhos” eu posso dizer que eles confguram o “bem”, é algo meio distópico mesmo. Ademais, só acho que o filme, pelo seu final, estava mesmo tendendo para o bem, pois essa seria a lógica comum apesar da impotência do espectador ao ver o mal sempre vencendo. Mas não sei, eu vi uma versão desses filmes de anti-cristo, e achei muito clichê e maniqueísta. Então não dá pra eu avaliar direito essa versão aí.

    • Então, partindo do que falaste, o que falta à liberdade humana para ser, de fato, liberdade é a sua não-liberdade, uma vez que é preciso um imperador – a “religião onipotente” – para poder botar a humanidade na reta? Não basta, de fato, apenas “extrapolar e extrapolar” a moral, é preciso recriá-la, eis o grande problema das religiões e de toda comunidade regida por dogmas: são imutáveis. Mas, por sorte nossa, ou não, o ser humano não é imutável nem mesmo quando está sendo regido por regras imutáveis que ali ficarão para sempre. Logo, qual o sentido de nos pautarmos e viver através de regras imutáveis se o estado do homem é de devir? O problema não está em desejar o bem e querer banir o mal, mas sim em definir o bem e o mal, ou melhor, os bens e os males. Por isso nunca haverá uma “religião onipotente” e nem única: nossa espécie é constituída por várias religiões, culturas, pensamentos, utopias, desejos, vontades, modos de ver, modos de entender etc. O ser humano só seria capaz de ser desse jeito se ele fizesse parte d”O Admirável Mundo Novo” de Huxley – uma distopia, como foi considerada pela massa.

      Bem, o filme tendia ao bem na medida em que não ficou fiel à sua própria realidade – aquele mundo “omênico” que o diretor criou e fez uso diverso. Fora que é filme para o povão…lembro-me de meu professor ter falado que teve uma novela da globo em que os malvados venceram no final e os bonzinhos se ferraram. A globo recebeu diversas cartas e críticas ferrenhas contra essa novela e esse final horrível, imoral, satânico, anticristão etc., sendo essa a última vez que o mal venceu numa novela da globo. Mas o mais incrível do filme é que o bem vence por apenas uns 5 minutos, mas é definitivo. Não condisse com a realidade do filme, mas todos os filmes são assim, a luz precisa triunfar sempre no final – o que é parvoíce.

  2. Muito boa tua narração do filme, da temática e do propósito da história, um artigo bem escrito e preciso, tu tens se desenvolvido bastante na escrita Felipe, fico feliz por isso,

    um cordial abraço.

  3. Gosto de pensar em Espinosa, o fabuloso Espinosa, com a sua Ética “além do bem e do mal”. Eis que o “bem” e o “mal” não são valores absolutos, transcendentes, através dos quais regemos o mundo – a nós mesmos. O “mal” é tão-somente um enfraquecimento da potência, um mau encontro (quando de uma mistura de corpos um corpo se decompõe e perece – por exemplo, o encontro do corpo humano com o arsênico). O mal, diz-nos Deleuze (e aí já é também Nietzsche), é privar um indivíduo daquilo que ele pode, de sua potência (o pintor que se torna impossibilitado de pintar: o escândalo Modigliani). Uma Ética, nesses termos, parece-me bem mais interessante.

  4. Se o mal é o desconhecido, o novo e a mudança; torna-se muito compreensível porque a humanidade fez do bem aquele com mais moral dentre bem e mal.
    Essa colocação de que “um tem mais moral do que o outro”, quanto ao bem e o mal, é muito verdadeira, uma vez que exatamente através da moral se deu mais liberdade a um e não a outro.
    Também não acho que a vida se resuma a contraposições rígidas; visões maniqueístas são perigosas exatamente porque traçam uma linha intransponível – se o mal é logo o desconhecido, não seria essa forma de pensar, também um abafador de nossos demônios?
    assim, “o medo e o mal são irmãs siamesas”.

    Ainda nessa questão do maniqueísmo, mas comentando das religiões; sim, a maioria das religiões objetiva curar o mal e la la la.
    Porém, há religiões, que mesmo sendo instituições e naturalmente atropelando o indivíduo, que buscam uma visão diferente, como é o caso do candomblé.
    “o candomblé sobrevive até hoje porque não quer convencer as pessoas sobre uma verdade absoluta, ao contrário da maioria das religiões.” – pierre verger

    “A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.”
    -quando freud explica as coisas, o diabo fica dando os toque

    every demon wants his pound of flesh :

    Easy come, easy go, will you let me go
    Bismillah! No, we will not let you go
    Let him go

    Bismillah! We will not let you go, let him go
    Bismillah! We will not let you go, let me go
    Will not let you go, let me go, never
    Never let you go, let me go

    Never let me go, oh
    No, no, no, no, no, no, no
    Oh mama mia, mama mia, mama mia let me go
    Beelzebub has a devil put aside for me

  5. Pingback: O Anjo Malvado (1993) | Art for Deaf and Blind

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