A questão do autor

Baseado nos textos lidos em sala aborde a questão do poeta

Gostaria de começar a abordagem da questão com a seguinte máxima: Poetae opus mascarum opus1. Porém, antes de chegar a tal nível, houve quem dissesse coisas diferentes: é o caso de Platão.

Quando Platão aborda, no diálogo entre Sócrates e Íon, a questão do poeta, ele acabará por concluir que o trabalho poético só é possível quando se está entusiasmado, isto é, quando se tem dentro de si um deus, consequenciando o poeta não ser mais poeta. Tal reflexão faz com que Sócrates, através da típica ironia socrática, consiga convencer (pelo cansaço) Íon de que o poeta não possui técnica (τέχνη), mas sim um deus ou até o próprio poeta (no caso do rapsodo).

Com o tempo, tal visão foi sendo cada vez mais contestada, até chegar ao racionalismo quando Descartes surge com a máxima “Cogito, ergo sum“. Está máxima pode, sem dúvida, começar com a era da morte de Deus – ainda que Descartes tenha morrido crente fervoroso –, afinal, se antigamente a própria existência era concedida como algo que os deuses ou Deus deram para nós, agora nós existimos porque pensamos ou, como propõe Kant em a “Crítica da Razão Pura”, nós pensamos porque existimos. De um modo ou de outro, não é mais deuses ou Deus que promovem a existência do homem: é o homem que provê sua própria existência.

Mas, e agora que o homem tomou o lugar de Deus, como se explicará a poesia? Afinal, não é mais a cólera das musas que permitem o trabalho poética: e agora? “Se Deus está morto então tudo é permitido”?

John Keats dirá que o poeta é aquele que é capaz de manter seu vazio entrando no outro, sendo o outro. Isso explicaria como é possível ao poeta escrever sobre o sol sem, obviamente, ser o sol, e assim vale para todas as coisas. Na mesma proporção, Rimbaud dirá que “Eu é o outro”. Essa falta de concordância verbal já indica que, nem mesmo no nível sintático, o poeta é ele mesmo: daí podemos fazer uma relação com o “poeta camaleão” de Keats.

Não há poeta menos poeta que Fernando Pessoa: a encarnação do poeta que “finge, que finge, que finge”, como diz Perrone-Moisés. No capítulo sobre a gênese dos heterônimos de “Obras em Prosa”, Pessoa mostra que ele já possui a capacidade de ser e criar o outro (o heterônimo) desde pequeno. O mais interessante é perceber o heterônimo do próprio ortônimo: Fernando Pessoa ele-mesmo, ou seja, nem quando se trata de Fernando Pessoa ele é eu, mas mais um heterônimo, mostrando que ele não possui uma identidade própria no ato de escrita: ali ter o nome dele não significa que seja ele, porque ali, no livro, é um vazio que é preenchido por um gesto.

O lugar – ou melhor, o ter lugar – do poema não está, pois, nem no texto nem no autor (ou no leitor): está no gesto no qual o autor e o leitor se põem em jogo no texto e, ao mesmo tempo, infinitamente fogem disso.

Tal citação de Agamben, em seu texto-resposta à conferência “O que é o autor” de Foucault, “O autor como gesto”, revela uma certa contraposição ao texto de Roland Barthes, “A morte do Autor”, em que ele fala que “para devolver à escrita seu devir” é necessário botar o leitor no lugar do autor (“o nascimento do leitor deve começar com a morte do autor”). Agamben se mostra contrário a isso quando diz que tanto o autor quanto o leitor (e o texto) não preenchem o vazio do autor, mas apenas através do gesto da leitura, jogo no qual o leitor deve se arriscar, que o vazio é temporariamente preenchido.

Percebe-se que a discussão é longa e complexa. Retomo agora à máxima que expus ao início desta discussão: o poeta é o ser das máscaras por excelência, é um trabalho que o próprio instinto e leveza das máscaras; é a calma que Henry (Macaulay Culkin)2 deseja mostrar (e mostra). Creio que seja um erro botar meu nome nesta prova: afinal, o que se passou?3

___

O trabalho poético é um trabalho de máscaras.

Do filme “The Good Son” (“O anjo Malvado”, pt-br) escrito por Ian McEwan

Cf, “hecceidade” em Deleuze.

_

Trilha sonora do dia:

_

Citação do dia:

“Após essas muitas passagens poéticas, seja-me permitido expressar uma comparação. A vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro. A leitura encadeada se chama vida real. Quando, porém, finda a hora da leitura habitual – o dia – e chega o tempo de descanso e recuperação, ainda folheamos com frequência descontraídos, sem ordem e encadeamento, ora uma folha aqui, ora outra ali. Uma folha lida assim isoladamente se encontra de fato fora do encadeamento com a leitura consistente e sequencial do livro; todavia, não temos aí algo de muito discrepante, caso se pense que também o todo da leitura consistente e sequencial começa e termina, do mesmo modo, ao sabor do momento e, por isso, pode ser vista simplesmente como uma grande folha isolada.”

Schopenhauer

One thought on “A questão do autor

  1. Gostei de sua abordagem acerca do caráter dissolvido do “eu pessoniano”; curiosamente, mesmo quando Pessoa se pretende escrever uma autobiografia, ele já assevera: “uma autobiografia sem fatos”. Ou, como ele mesmo dirá nalgum lugar que agora me foge à memória, “Fernando Pessoa não existe propriamente”. Falando deleuzeanamente, aquilo que constitui a obra de Pessoa e mesmo o próprio Pessoa já não é mais um autor ou um Eu, mas aquilo que o Deleuze chama de hecceidade, entendida como “um modo de individuação sem sujeito”, que tem como objeto os acontecimentos ou as intensidades. O problema de se pensar uma substituição do ponto de vista de Deus pelo ponto de vista do homem coloca questões pertinentes à uma filosofia sem sujeito. Ora, abandonamos Deus mais ainda permanecemos aferrados ao Eu que é tão nocivo quanto Deus. Daí o fato de Deleuze evidenciar todas as implicações políticas da instauração de um Eu: onde há um Eu torna-se possível o exercício direto do poder sobre, justamente, esse Eu que é produto do próprio poder enquanto tal. Enfim, bom texto. =]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s