Sobre o redescobrir-se

Por algum motivo nós estamos sempre inclinados a este desejo de querer descobrir o que somos; tentar botar o ser como algo além de apenas sangue, ossos e órgãos: para isso nós criamos religiões, superstições, teorias, músicas etc. Mas desejo botar uma outra coisa, uma coisa menos convencional, pouco percebida, creio eu: o aprendizado de uma nova língua. Ora essa, como poderia o aprendizado de uma nova língua (ou até da língua materna, por que não?) constituir um redescobrir de si mesmo? Penso que, a partir do conceito de gramática interna, de Chomsky, todos nós temos a propensão, a capacidade de aprendermos qualquer língua; mas essa capacidade, ou melhor, essa maior facilidade de apreensão de uma nova língua, é por tempo limitado: Chomsky diz que é até, mais ou menos, dez anos que a criança possui essa facilidade, exatamente porque a gramática ainda está aberta para apreensões. Após tal idade, a gramática “se fecha” e decorre de a apreensão de uma nova língua se tornar um trabalho árduo, de anos e até décadas. Desse modo, esse “fechamento” da gramática interna é um eu perdido, uma porta que se fecha junta a uma subjetividade, uma possibilidade. Assim, quando aprendemos uma nova língua, nós, não apenas, aprendemos a usar o alfabeto latino (dependendo da língua) em outra ordem que faz sentido para um outro país, como estamos descobrindo uma parte de nós, a qual se escondia em seus escombros recônditos, abiotroficamente. Seguindo a lógica, há muitos eus ainda em seus escombros, muitas portas ainda fechadas: mas quem disse que todas as portas devem estar abertas? Alguns clamam mais do que outros e são a esses alguns que devemos nos atentar; pois é este outro eu, este novo eu que deseja se mostrar a nós.

2 thoughts on “Sobre o redescobrir-se

  1. Aprender uma nova língua consiste na apreensão de uma nova cultura com relação ou não com a tua, além de testar nossas capacidades cognitivas nos inclui numa nova realidade e possibilidade de expressão. Muito bom teu artigo, bem sugestivo e interessante, seu Felipe,

    um abraço, Luiz.

  2. ”Há uma fome em nós”, nos recorda Adélia Prado,” que nenhuma prosperidade material pode saciar, você continua faminto, faminto de transcendência, uma fome de sentido, de significado. De algo que nos diga você é mais que seu corpo, você é mais que suas necessidades básicas, com tal cor com tal idade. (…) VOCÊ É AQUILO QUE ESTÁ PRESENTE NO SEU DESEJO, NA SUA ALMA.Então eu falo, que bom que tem isso. Mas você vê pessoas por uma serie de motivos que não são capazes de articular esse desejo,e dizem que bom que tem esse livro, essa música, isso da para mim. Olha tem algo mais nos acenando. E não foi a religião que a inventou, a filosofia. Está acenando de dentro do nosso próprio ser, é o desejo profundo que nós experimentamos em nossa orfandade original.Nós que já nascemos órfãos de sentido, de significado e perenidade. Essa pessoa tem uma coisa que podemos chamar de vida interior você pode dissecar um corpo,que não vamos achar isso, mas esta pessoa viva nos diria desse desejo, desse sentimento, dessa capacidade de sofrer dores e alegrias incríveis, de frustrações indescritíveis. De onde nasce isso?, senão da profundidade de nossa alma e sentimento? Então a arte nasce dai e produz dai. ”
    Em uma conferência em 1936 de Heidegger, chamada A origem da obra de arte, aliás um texto fundamental para Gadamer, segundo artigo de Gianni Vattimo,ele diz que a arte abre para o mundo, funda uma época, inalgura uma cultura, porque o ser mesmo das coisas não se da para nossa experiência senão sob a forma de linguagem, e a arte é, precisamente , a que radicalmente inova a linguagem.

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