Da impossibilidade humana de criação de conceitos ex nihilo

Voltaire acertou completamente ao dizer em seu “Dicionário Filosófico”, no vocábulo “Matéria”, isto:

“Nenhum axioma, em tempo algum, recebeu aceitação mais universal que este: nada se faz de nada. Com efeito, o contrário é incompreensível.”

(grifo mantido do original)

Em outras palavras: não há nada que possa ser feito a partir do nada; um não-ser não faz um ser, o contrário se mantém.

Agora vamos analisar um excerto de escrito de um escritor, psicanalista, autoajudante de velhas e otimista exacerbado contemporâneo:

 “Não usei os levantamentos bibliográficos nem uma teoria prévia como suporte de interpretação, pois a teoria que desenvolvo é totalmente original.”

Parece que ele não estudou o básico do básico (nem uma consulta rápida ao wikipédia) de Deleuze, que afirma: “em Filosofia não há criação de ideias, mas sim de conceitos” – levando em conta que ele próprio diz que essa uma teoria muito mais filosófica do que psiquiátrica -. E como poderia ser diferente? Ideias vêm e vão, nunca são criadas: o conceito só é criado a partir da ideia que vem, não pela ideia que se cria do nada. Como adquirir ideias senão através de estudos infindáveis, uma vez que é preciso desenvolver cada vez mais seus conceitos a partir de conceitos já criados. Poder-se-ia afirmar que, no caso de Cury, em termos kantianos, ele teve uma ideia a priori, isto é, uma noção – ou conceito puro. Porém, não é nem sequer, de novo em termos kantianos, um conceito factício!, uma vez que é preciso que fosse uma criação totalmente dele, tal qual Benjamin Franklin com as lentes bifocais; Thomas Edison com a lâmpada incandescente. É preciso, antes de tudo, conceber a existência de cientistas que trabalham há anos na área dos alicerces do pensamento – cito apenas um: Antonio Damásio. Ele é um neurologista pesquisador das emoções, do pensamento e da própria consciência, as quais todas têm uma grande base no pensamento em si: como reage o pensamento diante tais emoções? Qual a ação da consciência em cima de tais pensamentos? Como é o pensamento de tal pensamento?, eis alguns temas abordados por Damásio.

É perceptível o desejo de reconhecimento, fruto nada mais nada menos de uma baixa autoestima inconsciente – ironicamente, ele deseja projetar aquilo que ele não é no outro -; uma necessidade de se sobressair que acaba por cair no próprio abismo. É passivo de riso perceber isso: ele afirma que essa é uma teoria totalmente nova, mas isso não basta a ele: há a necessidade de prepotência, ele precisa dizer que ele não leu nenhum livro para guiá-lo ao conceito: Deus deu-lhe a capacidade além-humana da criação de ideias não perceptíveis, passando para a criação de conceitos novos, únicos e extraordinários.

Meus caros, dissemino-vos o riso dessa estirpe: há leituras para o sangue; há leituras para o riso: é preciso saber diferenciá-las, uma vez que é preciso saber apreciar o sangue e apreciar o bom riso do tolo: ambos são caminhos da própria superação: se desejais ler somente por diversão – que também é aprender -, recomendo-vos o mais criativo dos livros: a Bíblia.

One thought on “Da impossibilidade humana de criação de conceitos ex nihilo

  1. Esse Cury é, definitivamente, um bufão. Não consigo pensar em sua criação original, “do nada”, sem rir – qualquer bom leitor do Deleuze riria de uma afirmação tanto risível quanto pueril como esta. A criação de conceitos exige que os conceitos, ou melhor dizendo, os elementos dos conceitos, venham de algum lugar (eles são conceitos, em outras palavras, o conceito é o elemento do conceito). Quando kant vai criar seu próprio conceito de cogito, ele vai se valer do cogito cartesiano, porém, com um acréscimo; um elemento novo aparece: a forma pura e vazia do tempo que é introduzida no cogito para tornar possível a passagem da determinação (eu penso) para a indeterminação (eu sou). Eu só me dou conta de mim mesmo quanto sujeito pensante NO TEMPO, é esse o argumento kantiano contra Descartes – isso evidencia a concepção segundo a qual o cogito cartesiano é atemporal. O problema, aí, é apenas um: um idiota achando que está fazendo filosofia.

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