Magma Series: IV (pt. II)

Fontes do Inconsciente, pt II

Abordarei com peso na parte dois do meu ensaio acerca da inveja, ciúme e voracidade o processo de cisão.

Experiências desagradáveis e emoções associadas a objetos externos e introjetados são dissociadas de experiências e emoções agradáveis através de um processo de cisão.

Considero o processo de cisão uma pré-condição para a estabilidade da criança: durante os primeiros meses, ele predominantemente separa o objeto bom do mau, e assim, de uma maneira fundamental conserva-o  – a segurança do ego. Ao mesmo tempo, essa divisão primitiva só tem êxito se existe uma capacidade adequada de amor e um ego relativamente forte. A predominância do “bom” e “mau” pode, ao mesmo tempo ser tão ruim, quanto boa. O motivo que me faz crer em tal hipótese é que, a predominância paradigmática do “bom” e do “ruim”, ausentando-se de um objeto idealizado (ou desejável), me remete novamente à inveja e voracidade, logo, tornam-se portas abertas para tais sentimentos. A inveja excessiva, manifestação de impulsos destrutivos, interfere na cisão primária entre o seio bom e o mau e não pode ser conseguida a formação de um objeto bom. Entramos em uma nova fase do processo de cisão.

É indispensável distinguir entre o objeto bom e o objeto idealizado, malgrado tal distinção não possa ser feita precisamente. As criancinhas cuja capacidade de amor é vigorosa sentem menos necessidade de idealização do que aquelas em que predominam impulsos destrutivos e a angústia persecutória.

“… A idealização é um corolário da angústia persecutória – uma defesa contra ela – e o seio ideal é o reverso do seio devorador” – Melanie Klein

O objeto idealizado é muito menos integrado ao ego do que o objeto bom, já que brota sobretudo da angústia persecutória e muito menos da capacidade de amor.

Algumas pessoas lidam com sua incapacidade de possuir um objeto bom, idealizando-o. Essa primeira idealização é precária, porquanto a inveja experimentada face ao objeto bom tende a propagar-se a seu aspecto idealizado. O mesmo se aplica a idealizações de objetos posteriores e à identificação com eles, frequentemente instável e indiscriminada. A voracidade é um fator importante nessas identificações indiscriminadas, pois a necessidade de tirar o máximo de tudo interfere na capacidade de selecionar e discriminar.¹

Esta incapacidade também se acha vinculada à confusão entre o bom e o mau que surge com relação ao primeiro objeto.

Enquanto as pessoas foram capazes de estabelecer o primeiro objeto bom com relativa segurança, são capazes de conservar seu amor por ele e despeito das deficiências deste, em outras, a idealização caracteriza suas relações de amizade e de amor. Isso tende a não dar certo, e então um objeto amado frequentemente talvez tenha de ser substituído, pois nenhum pode preencher completamente as expectativas. A pessoa idealizada anteriormente é amiúde sentida como perseguidora (o que revela a origem da idealização com contraparte da perseguição), e nela é projetada a atitude invejosa e crítica do próprio sujeito. É de grande importância o fato de processos assim atuarem no mundo interior que desta maneira passa a conter objetos particularmente perigosos.¹

Tudo isso conduz à instabilidade nas relações: é este um outro aspecto da debilidade do ego.

Dúvidas ligadas ao objeto bom aparecem mesmo numa relação segura entre o filho e a mãe; não se deve isso somente ao fato da criancinha ser muito dependente da mãe, mas também à angústia reiterada de que sua voracidade e impulsos destrutivos tirarão dela o que tem de melhor – angústia que constrói fator relevante nos estados depressivos. Contudo, em qualquer etapa da vida, sob a tensão da ansiedade, a crença e a confiança em objetos bons podem ser abaladas; é, porém, a intensidade e duração desses estados de dúvida, desânimo ou apoquentação que determinam se o ego é capaz ou não de reintegrar-se e reinstaurar os seus objetos bons seguramente.

A esperança e a confiança na existência da bondade, como pode ser observado na vida quotidiana, ajudam as pessoas a levar de vencida grandes adversidades, e contrabalança eficazmente a sensação de serem perseguidas.¹

Isso me faz perceber que, boa parte dos pensamentos freudianos tornam-se atemporais, mesmo que contestáveis; observa-se pela última citação que fiz de Klein que percebemos uma peça de quebra-cabeça que se encaixa muito bem nos tempos atuais.

Espero que o número 04 desta série que tanto adoro escrever tenha funcionado de maneira correta: fazer-nos entender o que somos nós a partir do que já fomos e esquecemos.

¹ – Melanie Klein

Trilha sonora da noite (e que embalou a escrita deste post):

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