Ensaio do egocentrismo

Vejo em todas as partes pessoas sendo altruístas, caridosas, educadas, compassivas, empáticas, e assim por diante. De onde viriam tais vontades de ações e de sentir é o meu objetivo há  tempo. Aqui as pessoas serão como ratos, pois eu sou o cientista que decidiu se fazer pequeno em prol do entendimento de vocês, meus ratos.

Entender o egocentrismo simplesmente como o “eu no centro” é uma definição um tanto quanto vaga. Devemos entendê-la como a força geradora de toda e qualquer ação altruísta ou visionária. Sinto como se fosse um pleonasmo dizer que toda ação é egocêntrica.

O fazer um ato consiste, por excelência, na vontade de grandeza, sendo impossível fazer um ato consciente a esmo. Vejo – usarei de análise empírica, por enquanto – que todo ato está vinculado ao engrandecer moral do homem: o homem faz porque anseia. E sempre ansiará por mais, sine qua nom teria vontade de vida, vivendo apenas do ócio e da vontade de não-vida.

Justificar-se-ia, desse modo, coisas como as doações anônimas. As doações anônimas poderiam ser vista como uma paráfrase de “fazer o bem sem olhar a quem”, ou seja: fazer, anonimamente, o bem olhando a quem. Esse “olhando a quem” é de suma importância, pois, o engrandecer do homem (compassivo) não se encontra em ajudar por ajudar, mas ajudar por necessidade ética de ajudar. Um bom exemplo: você se sentiria melhor em pagar impostos maiores (ou não) se o teu país estivesse em uma crise pior que a última dos EUA, do que em ajudar (pagando altos impostos) ao teu país próspero e rico. Mesma coisa se nota em crianças famintas e crianças famintas e viciadas em crack. Sentir-se-á melhor em ajudar a criança faminta e não a viciada em crack, pois ela poderá usar o dinheiro em crack, ou seja, fazer um mau uso da tua compassividade. Mesmo que você dê tua marmita para a miserável, fazes isso mais por vcê do que por ela, pois és compassivo e empático: “E se fosse eu ali? Podia ser eu ali. Graças a Deus que não sou eu ali.”

De onde e por que surge a empatia está totalmente ligada ao ego da pessoa, sendo tal sentimento o “compartimento” de todo seu aprendizado ético-moral; a compaixão provém do cristianismo (“amar o próximo”, “amai-vos uns aos outros como eu vos amo”) e age no homem como uma praga – consequentemente também se encontra no ego.

Que homem deseja a piedade? Os miseráveis, pois estes já perderam a si, logo, “por que os outros não se perdem comigo?” – pensa o miserável.

Qual é o ponto de convergência entre o egocentrismo, a empatia e a compaixão? É um ponto importante, devendo-se, portanto, entender o seguinte: da mesma forma que o egocentrismo gera ações, a empatia e a compaixão também o fazem. Porém, ambos são menos eficientes que o egocentrismo, simplesmente porque o homem é, por natureza, egocêntrico! Mas ele não é empático e compassivo por natureza: estes são valores impostos pelos nossos modelos desde a infância: nossos pais. Há de ser percebido que muitos psicopatas e sociopatas provêm de famílias cujos pais não são dos melhores arquétipos.

Botando o egocentrismo com esse novo significado, estender-se-á o porquê de Nietzsche ser tão contra a compaixão, ou melhor, entender um dos motivos, sendo o principal que “o homem é algo que deve ser superado.” Dessa maneira, “amar uns aos outros” e “amar o próximo” tornam-se , não um dever, não algo forçoso e que se não fizeres irás ao último inferno de Dante, não! Faze-se isso para subir! Ascender ao teu máximo, isso se teu objetivo máximo for se superar (e por que não seria?). Para se superar, é preciso vencer o niilismo. Destruir e então construir.

Observando o homem que deseja a piedade de outrem, nota-se que tal homem quer a pessoa pia não porque sofre, mas porque tem algum desejo implícito (ao outro). Assim, pode-se entender o porquê de psicopatas partirem para a clemência de piedade alheia: a piedade é apenas um dos caminhos de aquele que a clama conseguir o que quer. Toma-se, dentro de tal contexto, a piedade que dá e a piedade que clama como males desnecessários.

Pode-se usar como exemplo um ser que tem (dá) piedade ao disparatado. O douto (pio) verá na ignorância alheia um motivo de piedade e então viverá de destruir a ignorância dos tolos. Mas por que a ignorância lhe é tão feia é o motivo de piedade. Coisas feias tendem a sofrer desse mal: a piedade que dá. O douto que disseminar o feio para que? Para que o ambiente se torne bonito, logo, para se satisfazer, para, indiretamente, se engrandecer e ser engrandecido por outrem.

Atingindo-se a suprassignificação do egocentrismo, percebe-se que não importa o quanto se tente amar ao próximo, pois, no fundo, estará, antes de tudo, amando-se e se engrandecendo. Logo, o amor ao próximo não existe! Ame-se! Adorar-se (não como a um deus) é um dos máximos do ser humano.

Todo ato é egocêntrico, eis a conclusão.

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Trilha sonora do dia:

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Citação do dia:

“Que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo…”

Friedrich Wilhelm Nietzsche

4 thoughts on “Ensaio do egocentrismo

  1. A palavra egocentrismo é muito forte, acho que pensar que todos são de fato, acho que apenas alguns por egoístas, não vejo o egoísmo ou egocentrismo como algo importante no sentido de necessário e positivo, acho que devemos nos importar conosco em primeiro lugar, isso é inevitável, pois ninguém nasce colado com ninguém nem é dois, mas o segredo e o que faz diferente nossa vida é ver no outro a si próprio e procurar se importar com o mesmo a ponto de deixar de se ser apenas um,

    muito bom o texto, deste vez o li na íntegra rs

  2. Esse texto me faz lembrar de minhas reflexões acerca do amor como o sentimento talvez o mais egoísta de todos (tudo bem, isso é Nietzsche, para variar… rsrs). Isso me rendeu querelas homéricas… rsrs…

    De fato, toda ação é egoísta – falar em altruísmo e egoísmo é cair num falso antagonismo, num disparete -, pois é nossa vontade, nossos desejos, nossos instintos que a direcionam ao outro, e que a regulam e avivam. É por isso que não se pode falar em “bem geral”, “desinteressado”; ora, esse “bem geral” muito antes de ser “bem geral” precisa ser admitido por mim como bem particular (bem para mim e não para o outro), e só depois é que ele adquire essa forma “geral”, “coletiva”, se se quiser.

    O cristianismo, principalmente, foi o responsável pela difusão das ideias de um desprezo profundo de si (a defesa do “amor ao próximo”, da “compaixão”, e depois, no humanismo, do “altruísmo”). Mas, como nietzscheano, eu faço o lado oposto disso tudo: é preciso preservar o orgulho e o egoísmo; onde falta egoísmo é onde há alguma coisa errada. Isso também é uma condição de superação do próprio homem.

    • Concordo contigo. Já havia premeditado que teríamos opiniões convergentes quanto a isso. Mas penso também que há egocentrismo na piedade que clama, como mostrado ao exemplo dos psicopatas, ou mais especificamente, da dissimulação. É a mesma ideia que mostro no meu post sobre a máscara da hipocrisia, esta também é um modo de se engrandecer. Penso que o homem que sabe apreciar todos os jarros, é um homem que venceu a si mesmo, pois vê a leveza até naquilo que não devia haver: tudo há de convir com seus desejos, pois o homem quer mais por instinto e natureza, e, como o Vitor disse em seu “Magma Series #1”, o instinto é inconsciente.

      Eis então que se chega exatamente no ponto em que o Luiz ficou empacado – tal qual ficaram os médicos da época de Freud, afinal, como pode um bebê ter desejos sádicos anais, isto é, coprófilos? -: o egocentrismo é algo inerente quanto a nossa vontade e consciência! É aí onde está o ponto de estranheza em meu post, pois é difícil entender algo que é inconsciente. Desse modo, para aqueles que não conseguem enxergar tal ponto, é totalmente improvável o que eu digo, sendo totalmente possível o amor ao próximo, ou, como o Luiz disse, o “se importar com o mesmo a ponto de deixar de se ser apenas um.”

      Mas afinal, queres se tornar um para que? Para se satisfazer! Eis o egocentrismo :3

  3. Pingback: A violência pela violência « Era uma vez Chaplin…

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