Woyzeck

“Woyzeck” é uma peça dramática de teatro inacabada do escritor e dramaturgo alemão Georg Büchner. Georg começou tal peça 1836. Por estar inacabada, tal peça proporciona muitos finais alternativos – finais esses que podem variar de acordo com o diretor, mas, no geral, a peça dura, no mínimo, 30~40 minutos. O número de cenas e atos da peça pode variar bastante; no caso da peça apresentada pela “CPT” (“Centro de Produção Teatral da Escola de Belas Artes – UFRJ”), a tragédia se dá em vinte quadros.

“Woyzeck” é baseado em fatos reais. Johann Christian Woyzeck foi um soldado alemão que fora mandado embora do exército por falta de competência, por assim dizer. Woyzeck então, para ganhar dinheiro, torna-se cobaia de um médico, o qual o faz comer apenas ervilhas. Seu ciúme, juntado às alucinações pela falta de nutrientes, de Johanna Christiane Woost (sua esposa) a qual ele suspeitava de estar sendo traído, pois ela estava andando muito com outros soldados, levou-o a matá-la com facadas, depois a jogando em um rio. O que fez com que ele fosse morto foi o fato de estar com a mão ensanguentada.

A peça apresentada pela “UFRJ”, com adaptação e direção de Antonio Guedes com assistência de Duanny Dantas, mostra a tristeza de Woyzeck – encenado pela Rosa Felix -, e suas frustrações. Mas, afinal, por que Woyzeck sofre? Ao longo da peça, podemos trazer a tona várias respostas para tal pergunta, como: o fato de Woyzeck pensar – traço levantado pelo Senhor (encenado por Guto Urbieta) -, ou porque ele é pobre, ou porque ele é uma cobaia do Médico (encenado por Dudu Fádel), o qual o faz comer apenas ervilhas em troca de dinheiro, o que faz com que o personagem sofra de alucinações pela falta de nutrientes, ou porque Marie (encenado por Beatriz Condini), sua amada, gosta do Capitão – mesmo sentindo vergonha por se render aos seus desejos -, entre várias outras visões que podem ser levantadas de acordo com a pessoa que assiste à peça.

Todo cenário, feito por Bosco Bedeschi (também assistente de iluminação), com assistência de Erika Nascimento, de Woyzeck apresenta vários quadros em que Woyzeck fica desenhando (ou melhor, jogando pinceladas a esmo). Iluminação muito bem arquitetada e pensada também por Erika Nascimento, a qual mostra com clareza vários momentos de tensão, como o monólogo de Woyzeck onde discute sobre todo mundo ser um abismo.

É um tanto quanto digna a mistura do diretor em botar a commedia dell’arte – forma teatral muito comum que se manteve do século XV até o XVIII, tendo início na Itália; tal forma tem como base o improviso – junto ao teatro erudito e convencional que todos conhecemos.

A expressão mais dita na peça, por Woyzeck – que incrivelmente não está no manuscrito original de Brüchner -, é: “Todo mundo é um abismo… e se a gente caísse lá dentro? Do abismo?” Muitas pessoas hão de confundir tal dito com o mise en abyme, o qual consiste numa técnica de um produto falar dele mesmo no próprio produto, criando uma ideia de infinidade. Tal técnica pode ser também vista quando algum personagem (ou você) sonha que está sonhando, ou algum personagem de um livro lê o livro que você está lendo (como em “Dom Quixote”, quando o próprio lê o livro que está sendo lido por nós). A expressão dita por Woyzeck tem um cunho um tanto quanto filosófico, que pode até ser levado ao lado de Nietzsche, quando ele diz em “Assim falou Zaratustra”: “O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar” (NIETZSCHE, 2010:9). O abismo ao qual Woyzeck trata simbolizaria o fim de tudo, todo mundo é o fim de tudo, em que não há mais esperança para o personagem, o qual se considera frio demais em relação ao restante: “O inferno deve ser frio!”, exclama Woyzeck.

Uma passagem muito interessante é logo no início quando Woyzeck está barbeando o Capitão; Woyzeck barbeia com tanta pressa que irrita o Capitão que diz que um bom homem, um homem de bem, deve ser menos apressado, ele precisa saber apreciar o tempo, indagando encolerizado: “O que farei dos dez minutos que me restarem?!” Woyzeck é visto pelo Capitão como um homem incapaz de ter virtudes e moral de um bom homem, justamente por ser pobre.

O que leva Woyzeck para a completa insanidade é justamente as pressões psicológicas feitas pelo Médico e Capitão. Isso leva Woyzeck para o grande clímax.

Uma cena interessante é quando Woyzeck é extremamente reprimido pelo Médico por ter urinado em um muro. Woyzeck age por instintos! Quando a natureza chama, não se pode esperar – dentro da visão de Woyzeck. Essa é mais uma das razões de Woyzeck ser triste e sofrer: além de ser pobre e ter grandes dificuldades de conversar, ele age por instintos.

A visão de Woyzeck apresentada na peça acerca de Marie é a de que “Marie é bonita, mas a alma fede. Marie fede.” – nas próprias palavras do personagem. Marie é apresentada como uma senhora que cede aos seus intensos desejos pelo Capitão. A personagem sofre, ao decorrer da peça, numa luta interna intensa: ela deseja parar de se render ao Capitão, pois sente uma intensa vergonha de si mesma: diz que não vale nada; e, ao mesmo tempo, deseja deveras demais o Capitão. Esse é um dos principais motivos de Woyzeck dizer que “Marie fede”: ela se rende facilmente a seus desejos.

Devo dizer que não encontrei nenhum erro durante a peça, adorei a atuação de todos, adorei a trilha sonora (composta por Astor Pizzola), a cenografia, o figurino e a iluminação, simplesmente não há nada do que me queixar. Ressalto a belíssima atuação da Rosa Felix, que atuou com uma maestria que pude constatar em poucos atores e atrizes; seu poder de exprimir toda aquela loucura foi algo muito único. Pode-se perceber um pouco disso na própria imagem dos cartazes espalhados pelos corredores da “UFRJ”.

Se tiverem a chance de aparecerem na UFRJ para assistir à tal peça, vão! Não há como se arrepender.

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Trilha sonora do dia:

Um pouco de old school é sempre bom.

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Citação do dia:

“A morte, assim chamada, é algo que faz os homens lamentarem: e ainda assim um terço da vida é passado no sono”.

Lord Byron

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