O normal #10

Sobre o medo

Um dos assuntos pelos quais eu sou mais fascinado (como vocês já podem ter percebido) é o medo. Creio que este seja um dos sentimentos que possuem mais singularidades e peculiaridades que qualquer outro (seja ele o amor, a felicidade, a timidez ou a raiva). É no medo que há a chave para atingir o controle de si, o controle pleno do seu ser; desse modo, não havendo um “por que não fazer tal?”. Óbvio que tudo deveria estar dentro do círculo da razão. Por exemplo:

Por que não pular do vigésimo andar?

Afinal, isso não é ser um ser sem medo, isso é ser uma pessoa tola, manipulável e demente.

O medo tem como impulso o susto, e este, por sua vez, se manifesta a partir de coisas inesperadas (assim como a alegria tem como impulso o sorriso), e o susto não pode ser controlado, mas pode ser minimizado; basta você estar preparado para várias possibilidades e contratempos. O medo também pode ser controlado através de um método utilizado na neurolinguística: a ressignificação. A ressignificação se baseia em dar um novo significado àquilo que você já pôs um significado (por exemplo: a luz do sol me faz mal. A ressignificação mostrará que não faz)(é um tanto quanto óbvio tal conceito, o nome já diz tudo).

Existem teorias que afirmam (ou cogitam a possibilidade de) que o medo se situa no ID, afirmando que o medo é algo primário e irracional de qualquer ser humano, sendo ele algo impossível de ser controlado. Mas eu tenho que discordar veemente de tal teoria, pelo fato de todo bebê querer botar a língua na tomada.

Mas, Felipe, tal ação se dá pelo fato de ele ser ignorante, de ele não saber que aquilo matá-lo-á

Sim, concordo, mas como me explicaria que o bebê faz isso mesmo depois de a mãe ter-lhe falado repetidamente que não pode, recorrendo até a um tapa? O motivo de tal, é bastante simples, isso se dá porque o bebê ainda está formando o superego, que, no caso, seria o formado pela mãe (lembrando que ainda há o que será formado na infância (5-6 anos), o chamado Complexo de Édipo, tomando forma na adolescência), que é o superego limitante (pleonasmo), é aquilo que mais causa danos em um bebê, isso se ele tiver uma mãe acéfala, que beira a irracionalidade. É curioso perceber que em “Admirável Mundo Novo“, aquele que desempenha o papel de mãe, o condicionador da mente da criança, é o Estado, mostrando que a infância é o período de maior conturbação mental para uma criança; elas estão constantemente aprendendo e imitando outros (por isso sou contra pessoas que falam com bebês daquele jeito, por exemplo: ao invés de falar “Juju”, fala “Zuzu”…isso pode muito bem desencadear problemas fonoaudiólogos na criança, fazendo com que ele tenha que, consequentemente, ir para um (a) fono).

Khalil Gibran nos mostra, em seu livro “Espíritos Rebeldes“, que o medo também se encontra nas questões religiosas e amorosas. A religião, com sua onipotência e prepotência, dá o medo ao povo dizendo que se não forem laboriosos e derem parte de seus ganhos para a igreja deus, eles queimarão no inferno. No capítulo de “Khalil, o herege”, ele mostra muito bem isso, sendo ele um rapaz que foi contra isso tudo, e, por isso, expulso a pontapés e tapas daqueles que deveriam ser os representantes de deus na Terra. É simplesmente encantador a maneira como ele consegue destituir um rei em seu próprio palácio, usando apenas a retórica, para assim mostrar às pessoas as verdades escondidas nos recônditos escombros do clero.

O medo se mostra no amor a partir do momento em que você não ama mais seu companheiro, e assim se dá o medo de largá-lo e ser mal vista pela sociedade que a cerca; ser taxada de tola, por largar um rico por um pobre, pobre esse que ela sente afeição. Dá-se, então, o medo de ser feliz, o medo das consequências que tal felicidade possa trazer, afinal, poderia tal felicidade ser comparada à felicidade do drogado? Uma felicidade cega, efêmera e tola?

bla bla bla amor é energia bla bla bla

Tudo bem, amor é energia que se propaga de um corpo para outro, sendo assim possível sentir quando alguém a ama de verdade (apesar de eu achar isso a maior besteira que existe, afinal, a coisa mais fácil do mundo é você fingir estar apaixonado). Porém, não é essa a questão que quero levantar aqui, a questão é: até onde você iria para ser feliz? Não somente feliz, mas completo (não só de paixão, amor, dinheiro, comida).

Sou totalmente a favor da ideia de que o medo é um dos agentes mais limitantes e freiadores que existe, sendo ele, ao mesmo tempo, aquele que nos salva de boas enrascadas; porém, o medo de arriscar e tomar ações completamente novas para nós, é o que faz com que eu queira viver, é o que faz com que eu sinta um medo horrendo de perder a minha liberdade, é o que me faz ser mais racional que qualquer outra coisa.

Acho que é evidente a segmentação do normal e do anormal aqui.

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Trilha do dia:

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Citação do dia:

“Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz. Coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência do medo.”

Mark Twain

3 thoughts on “O normal #10

  1. O medo é uma constante inevitável de nós humanos, a questão é em qual intensidade ele se manifesta, a pergunta é o quê seria medo natural que é instintivo de qualquer um e o quê seria um temor excessivo. O medo pode nos limitar a certas ações mas pode nos freiar daquelas que são às vezes desmedidas por nós, portanto é necessário quando no momento e ocasião certa.

    Muito bom texto Felipe, filosófico e bem interessante, foi um prazer opinar a respeito aqui.

    Um abraço.

  2. O medo é um mal necessário. Ele pode atrapalhar nossa vida, bem como ajudar. Por exemplo, sei que o medo me atrapalha, pois por culpa dele não falo em público e nem me aventuro em grandes alturas, mas sei que já sai de grandes perigos por causa dele. O medo é um chato que tem a intenção de nos proteger, um chato com o qual não poderíamos viver sem.

    Adorei seu blog. Sou uma grande admiradora de Chaplin também. Tudo o que ele fez foi único.

    Parabéns pelo blog.

    Abraços.

    • Creio que é a partir daí que entra a racionalização do medo: algo irracional e limitante tornando-se consciente e, portanto, racionalizado. A questão é até onde esse medo nos limita, como disse o Luiz. Pode parecer um pouco clichê, mas, definitivamente, o melhor jeito de vencê-lo é através da contra-ação ao impulso medo, ou seja, ir contra o medo é vencer o medo. Muitas vezes temos medo de coisas que nunca fizemos e de coisas que já fizemos e que acabaram mal, sendo este último o que causa as fobias – o nível último do medo, em que ele se torna consciente, mas é o mais inconsciente de todos.

      Mas eu quero ir além disso, essa resposta não me satisfaz.

      E obrigado pelos elogios ^^

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