Magma Series: IV (pt. I)

Fontes do inconsciente:

Neste post pretendo falar sobre as origens mais arcaicas de atitudes como inveja e gratidão. Voltando um pouco no tempo e analisando vários experimentos realizados por psicólogos, psiquiatras e até mesmo teses por, principalmente, Freud, que é o que estou lendo muito ultimamente.

“É inerente às descobertas de Freud ser a exploração do passado do paciente, de sua infância e de seu inconsciente, uma pré-condição para se compreender a sua personalidade adulta. Freud descobriu o complexo de Édipo no adulto e reconstruiu, a partir deste material, não apenas minúcias do complexo de édipo, mas, também a época de seu surgimento.” – Fontes do Inconsciente (Melanie Klein)

É importante lembrar ainda que, segundo Freud, a parte consciente da mente evolve a partir do inconsciente.

“O que buscamos é uma imagem dos anos esquecidos do paciente que seja simultaneamente digna de confiança e completa em todos seus aspectos essenciais… O trabalho de construção dele (do psicanalista) ou, se preferirem, de reconstrução, lembra muito a escavação feita por um arqueólogo em determinado local de residência que foi destruído e soterrado ou de um edifício antigo. Os dois processos são de fato, idênticos, salvo pelo fato do analista trabalhar sob condições melhores e ter à sua disposição mais material para ajudá-lo, visto estar lidando com algo que não foi destruido, mas, ainda vivo – e quiçá igualmente por outra razão. Mas tal e qual o arqueólogo ergue as paredes do prédio a partir dos alicerces que permanecem de pé, determinar o número e a posição das colunas por meio das depressões no solo e reconstrói as decorações e pinturas murais com os restos encontrados entre as ruínas, assim também o analista procede quando tira suas inferências dos fragmentos de reminiscências, das associações e do comportamento do analisado. Ambos tem um direito indiscutível a reconstruir por intermédio de suplementação e combinação dos remanescentes vivos. Ambos, outrossim, veem-se sujeitos a muitos dos mesmos óbices e causas do erro. De fato, conforme sabemos, pode-se discutir a possibilidade de qualquer estrutura psíquica ser vítima de destruição total. Só depende da técnica analítica conseguir-se trazer completamente à tona tudo aquilo que está oculto.” – Freud

Partindo de tais afirmações começo a minha análise sobre o começo da vida do infante, ainda na amamentação.

Tudo o que ronda o começo da vida do infante é de extrema relevância na formação de sua personalidade e até mesmo em desenvolver doenças psíquicas, desde a ansiedade à depressão.

Circunstâncias externas, por exemplo, desempenham papel vital na relação inicial com o seio da mãe. Se o parto foi difícil e dele resultaram-se complicações como falta de oxigênio, ocorre uma perturbação na adaptação quanto ao mundo exterior e o relacionamento do infante com o seio se inicia de forma desvantajosa. Em tais casos a capacidade do infante para experimentar novas fontes de gratificação, desde sua comida predileta, à masturbação e até mesmo ao sexo, é prejudicada. Freud já dizia que a amamentação é o protótipo para o prazer sexual e se tais problemas são impostos no que é considerado o seio bom (a gratificação total na amamentação) ele pode não ser capaz de interiorizar suficientemente um objeto primordial realmente bom.

Além disso, quer a criança seja ou não adequadamente amamentada e acarinhada, quer a mãe goste plenamente de cuidar do filho ou seja angustiada e tenha dificuldades psicológicas com o aleitamento – todos esses fatores influem na capacidade do infante para aceitar o leito com prazer a interiorizar o seio bom. Pois, ainda nas fases mais arcaicas, o anseio de obter prova constante de amor materno está fundamentalmente arraigado na angústia¹.

Juntamente com as experiências alegres, motivos inevitáveis de ressentimento reforçam o conflito inato entre amor e ódio – com efeito, basicamente entre os instintos de vida e de morte – e têm como resultado o sentimento de existirem um seio bom e um seio mau. Em consequência, a vida emocional inicial é caracterizada por uma sensação de perda e de reconquista do objeto bom. Ao falar de um conflito inato entre amor e ódio, dou a entender que a capacidade para ter impulsos amorosos e destrutivos, é até certo ponto, constitucional, embora varie individualmente em vigor e interaja desde o princípio com as condições externas.

A diferença entre: inveja, ciúme e voracidade. A inveja é o sentimento irado de outra pessoa possuir e desfrutar de algo desejável – sendo que o impulso invejoso é para tirá-lo de outro ou inutilizá-lo. Ademais, a inveja implica a relação do sujeito apenas com uma outra pessoa e provém da primitiva relação de exclusividade com a mãe. O ciúme baseia-se na inveja, porém, implica a relação com pelo menos mais duas pessoas; diz respeito sobretudo ao amor que o sujeito julga ser-lhe devido e lhe foi tirado, ou está sendo ameaçado de ser, pelo rival.

A voracidade é um desejo impetuoso e insaciável, que ultrapassa as necessidades do sujeito e a vontade ou capacidade de dar do objeto. No plano inconsciente, a voracidade visa primordialmente a apropriar-se completamente, a deixar seco de tanto chupar e devorar o seio: quer dizer, sua meta é a introjeção destrutiva; ao passo que a inveja não procura roubá-lo dessa maneira, mas, também por coisas ruins, sobretudo: fezes ruins e partes ruins do próprio eu na mãe, e antes de mais nada, no seio dela, a fim de inutilizá-la e destruí-la. Na asserção mais profunda isto significa destruir a criatividade dela.

Continua…

¹ – Melanie Klein

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