Livre arbítrio?

Estou devendo esse texto pro Felipe há muito, muito tempo. E sempre que ele me cobrara arranjara algum jeito de esquivar-me. Entretanto há algo além de que nisso. Até mesmo como um desabafo, precisei colocar pra fora algo que há muito mais tempo me consumiu durante as aulas de análise comportamental e antropologia (lembrando que são aulas distintas) e se converteu numa grande resolução de idéias que, embora não tenham nada de “cientifico” se mostraram válidas, pelo menos para uma reflexão. Não são ideias totalmente inéditas (claro, pois, como defende a própria tese, sempre há algo, um motivo, um pensamento, algo em que se basear que nos anteceda) mas nos trazem a tona algo bem diferente daquilo descrito e defendido em nossa sociedade pelo senso comum. Então eu coloco que disposição a seguinte frase-chave que nos serve de base para todo o texto:

LIVRE ARBITRIO PARA QUE?

Em algum momento de sua vida vc acreditou possuir livre arbítrio? Você acredita que seje capaz de tomar suas decisões baseadas na sua própria vontade? Você acredita que é livre para escolher o que seria melhor para você? Que suas roupas, seu gosto, seu estilo e ate mesmo quem você é, são escolhas unicamente suas?

A escola comportamental (na verdade a abordagem, fundada por Skinner, percussor do campo que visa estudar o comportamento humano dentro da psicologia) é bem clara (e na verdade simples a outros olhos): você não é livre; em termos comportamentais você sempre “escolherá” aquilo que seria mais reforçador para você. Em outras palavras: não somos livres, porque embora possamos ter a sensação de que “escolhemos” algo livremente, essa “escolha” sempre se dá baseada naquilo que há de mais reforçador, ou seja, aquilo que supostamente nos daria mais prazer, mesmo que a curto prazo as circunstâncias fossem menores que as de grande prazo.
Baseada nessa ideia poderíamos tomar como exemplo usuários de drogas (e na verdade é exatamente esse que o livro de minha leitura o proporciona): a curto prazo as contingências são reforçadoras e a droga o proporciona um prazer imediato, mas a longo prazo as contingências são extremamente coercitivas, para não dizer punitivas. Há quem diga que usuários de drogas “escolheram” esse “caminho” mas por que não dizer o contrário? A droga, num curto prazo, proporciona um certo prazer, fazendo com que o reforço imediato seja mais válido que a coerção, ainda que as consequências a longo prazo sejam muito piores. É difícil de acreditar que alguém escolheria, por seu livre arbítrio, seguir num caminho de percalços puramente. Ninguém “escolheria” morrer num hospital, infestado pelas drogas, desfalecendo de seus órgão, únicos que restam, já desgastados por cigarros e álcool (para não citar outras drogas). Mas é o que acontece depois de tantos “reforços” positivos, prazeres imediatos a longo prazo.
Pois bem, baseada nessa idéia da escola comportamental partiremos para um exemplo mais complexo (e espero que vocês estejam me acompanhando): relacionamentos. Há pessoas que se queixam de estarem “presas” num mesmo tipo de relacionamento há anos, quando na verdade as contingências coercitivas estão bem claras. Mas por que não dizer que as reforçadoras também? Há pessoas que passam anos num mesmo ciclo vicioso, sem se darem conta que elas mesmas o reforçam. Elas escolheram isso? Creio que não, mas a curto prazo as contingências podem parecer tão reforçadoras a ponto de suprirem os danos causados a longo prazo. Há maridos infiéis que juram nunca mais cometer o mesmo delito e podem até mesmo acreditar nisso enquanto proferem esse discurso de suas bocas, mas, ao primeiro reforço da secretária gostosa caem na sua própria lábia , se “esquecendo” de suas promessas. A própria infidelidade pode ser vista como reforço em termos comportamentais, visto que ainda que cause prazer a curto prazo, pode gerar danos mais gravemente a longo. Teriam os maridos (e esposas) infiéis “escolhido” pular a cerca? Dada tamanha complexidade ainda fica a pergunta: e se “escolheram”, por que o fizeram?
Entretanto o que eu gostaria de enfatizar no texto vai muito mais além de colocar em questão comportamentos humanos “escolhidos”. O que eu gostaria de enfatizar, antes de tudo, é o grande meio social em que se encontra o homem, até agora (pelo menos) único animal racional de um grande planeta, aquilo que chamamos de mundo. E isso, sem citar autores ou me basear em outras idéias além, eu afirmo com toda convicção : VOCÊ NÃO ESCOLHEU SER QUEM VOCÊ SE TORNOU! Isso porque você também está inserido nesse meio gigante, que, antes de tudo, se tornou um ambiente social construído pelo homem. O homem fora do ambiente social, perde totalmente sua identidade.
Toda identidade, toda pessoa, toda criança, todo ser, é constituído e moldado unicamente pelo ambiente. Ainda que pareça radical essa ideia; é de fundamental importância entender que, para sua formação a criança precisa antes de tudo de um outro, alguém que lhe influencie desde os primeiros momentos a ter as primeiras sensações e vivencias da infância. Você não escolheu nascer no seu ambiente social, e muito menos este te escolheria, mas a medida que vivenciou suas interações com o meio, este foi te moldando numa interação única, na qual, mesmo sendo participante ativo desse processo, você não teria nenhum controle sobre a cultura nem sobre as interações nesse meio. Pense que se você estivesse em uma cultura diferente, em uma época diferente, você se tornaria algo diferente do que você é hoje. Isso porque mesmo algo tão corriqueiro quanto usar talheres pode parecer estranho aos olhos de uma tribo nativa da Austrália. E se você fosse um deles certamente o acharia também e, mais que isso, a cultura ocidental pareceria distante e de alguma forma estranha a seus olhos.
Mesmo dentro de uma mesma cultura é possível se tornar alguém diferente; tendo em vista a classe social, família, hábitos, e a relação com o meio em que se encontra. Nascer numa família rica de um bairro luxuoso de São Paulo ou numa favela violenta do Rio de Janeiro pode fazer toda a diferença para vir a tornar-se uma “pessoa” qualquer. Um exemplo tão óbvio como esse não poderia deixar de ser descrito. E você jamais poderia escolher onde nascer.

A priori gostaria de enfatizar essas questões. Sei que o Felipe (e talvez muito de vocês) discordarão de algumas das minhas idéias (para não dizer todas) mas deixo a questão em aberto. Aguardo um próximo texto com ideias agora da psicanálise (prometi agora vou ter que cumprir hahah) sobre livre-arbítrio em questão, mesmo que a psicanálise nunca tenha se dirigido com alguma teoria tão clara sobre o tema. Não sou psicanalista e, na verdade, nem poderia tão veementemente escrever sobre o tema, mas gostaria de enfatizar como os primeiros anos de vida da criança interferem sobre todo desenvolvimento emocional da pessoa, fato que discorre de nenhum livre arbítrio, visto que as primeiras vivencias infantis dificilmente podem ser ilustradas, sequer compreendidas pela maioria das pessoas.

9 thoughts on “Livre arbítrio?

  1. Não aprecio a psicologia comportamental, aliás, minha relação com ela é muito pouco amistosa, mas, enfim, não acredito nessa coisa de “somos determinados pelo nosso meio” como se isso implicasse numa ausência de liberdade. Não que o homem não seja fruto do meio em que vive (dirá a Antropologia que o homem é um ser cultural), e sim, que há uma tensão aí, uma relação de forças que não se resume a um meio determinante nem a um sujeito absolutamente senhor de si (como se só pudessemos escolher entre uma coisa e outra). Então, para mim, é reducionismo tacanho querer levar tudo para o campo social ou subjetivo puramente, como se não houvessem graus muito distintos de relação do sujeito com o meio em que está inserido. É possível também voltar-se contra esse meio, recusá-lo em algum nível (elevado ou não). A linguagem, é verdade, vem depois, embora sua estrutura seja a priorística, mas não é tão simples assim.

  2. Não concordo com quase nada do que vc disse. As pessoas tem sim o livre arbítrio de escolher o que quer pra vida, o drogado como vc falou, escolheu começar a se drogar, o que vem depois disso se chama CONSEQUENCIA, da atitude que ele teve livremente de se drogar.
    Todos temos livre arbítrio só que o que se planta se colhe, isso é uma lei do mundo. Mas vc teve o livre arbítrio de plantar coisas boas ou ruins.

  3. Óbviamente a liberdade parece ser utópica acerca deste texto, não que seja errado pensar assim, mas, a liberdade em si é um “termo” que de certa forma nunca terá seu significado universal e sim, adequado para cada pessoa que usá-lo.

    No nosso caso, os seres humanos, a liberdade é poder ter o que se quer? Por parte. Não é sempre que alguém sai na rua com o pensamento de comprar uma roupa de acordo com o seu pensamento (verde com faixas rosas e flores canadenses blá blá blá), pois, nós temos em mente que isso existirá, óbviamente, mas, talvez não ali na lojinha da esquina.

    Óbviamente, alguém sai de casa com o pensamento de comprar uma roupa, mas, quer ver, quer procurar, quer tocar, quer ver o preço, justamente pois essa é a liberdade imposta à nós.

    Óbviamente também não nascemos desejando nossa família, tampouco nosso âmbito social, cujo qual vivemos (ou não mais) e crescemos. Isto é uma variante, o ser humano é pura metamorfose, são várias camadas que caírão em meio ao tempo, nossas vontades mudam a cada olhar de um novo dia e é vero. Basta ver que o ser humano nunca está satisfeito.

    Minha conclusão é que tudo isto é um pensamento falho e variante. Assim como muitos discordam, somos de tamanha complexidade, que seria impossível impor uma verdade universal acerca de muitas das coisas, uma delas é esta, o livre arbítrio, nossas escolhas ou nossa tão desejada e às vezes até utópica, liberdade.

  4. É reducionismo pensar que só podemos escolher entre um certo determinismo e uma liberdade plena. Não somos nem livres de modo que a nossa consciência e nossa vontade correspondam a uma atitude autêntica, que não se relaciona com o meio em que o sujeito que age está inserido, nem completamente determinados de modo que não se possa falar em ações que vão de encontro com esse mesmo meio. Somos, ao mesmo tempo que produto, produtores do meio em que vivemos. Construimos a sociedade ao mesmo tempo em que ela nos constrói.

    Nietzsche dirá que a vontade é tão-somente a parte mais superficial da ação, que há coisas mais obscuras por detrás da vontade – e é verdade. E se partimos da psicologia sacerdotal – judaico-cristã -, o livre abítrio serve-nos (ou melhor, serve ao tipo sacerdotal) tão-somente para dizer que somos culpados, que precisamos ser punidos.

    O usuário de drogas não é nem o resultado de uma escolha inteiramente sua, nem um mero produto de forças externas. Há uma relação complexa aí. Desejo, vontade, poder, interesse, estruturas sociais, econômicas e políticas… não dá para reduzir isso a um simples “eu sou livre” ou um “eu não sou livre”.

    Aliás, cabe aqui uma observação interessante: eu posso escolher comer chocolate, mas, eu escolhi gostar de chocolate, ou, ao contrário, simplesmente gostei a partir do momento que o experimentei pela primeira vez? O gostar de chocolate foi um movimento racionalizado, consciente? Eu por acaso pensei “vou gostar de chocolate”, antes de gostar? E se somos tão livres assim, poder-se-á lançar um desafio: deixe de gostar, então, desse chocolate. Tente, e veja se consegue.

    • O grande problema é levar tal coisa (libertad) como uma superfície plana, sem o mínimo de prumo e/ou tino basear-se numa definição categórica de dicionário e acreditar no “sim” ou “não”.

      E sobre o que disseste:

      “Somos, ao mesmo tempo que produto, produtores do meio em que vivemos. Construimos a sociedade ao mesmo tempo em que ela nos constrói.”

      Foi mais ou menos a coisa que quis dizer com a metamorfose infinita do ser humano e suas camadas.

      Sobre o chocolate, o ato de gostar de chocolate pode ser antes de tudo, inconsciente, porém, também pode ser consciente.

      Vou dar um exemplo atual:

      Jovens vivem em um âmbito onde a bebida alcoólica é natural, pura tolice. Há quem realmente aprecie, assim como quem aprecia o café, entretanto, vejo que cada vez mais estas coisas são puramente tolas.

      Enfim, o que quero concluir é que, pelo anseio em parecer tão legal quanto outros garotos, o gostar da bebida pode tornar-se automático (psicológicamente), é como o condicionamento, segundo Pavlov.

      O mesmo ocorre com o ódio precursor à certas coisas. Como exemplo posso dar uma pessoa que odeia música atual por ser objeto de estupidez (como estas que fazem sucesso hoje em dia), o fazem sem sequer ter ouvido, e é usual, e o gostar tornar-se raro, já que, o ódio é precursor e já tomou conta de qualquer sentimento que venha à tona ao ouvir tal música.

  5. entendo…as vezes escolhemos ser o que os outros querem que a gente seja sem perceber. Eu falo da midia , do consumo , da conspiração que há por tras de tudo que nos cerca…

  6. Faz sentido. Eu, por exemplo, se tivesse condições estaria na França estudando Literatura, ou na Itália, apaixonado por um milionário que também me ama… Mas estou no Mato Grosso estudando Letras. De certa forma, foi o que escolhi, porque estava ao meu alcance. Se tivesse nascido no litoral, provavelmente meus contos falariam sobre o mar, mas não nasci e não posso escrever sobre o mar. Escolhi isso? Não. Faz muito sentido sim. Gostaria muito de ser um escritor renomado daqui 10 anos. Posso escolher ser isso e ser? Não. Ninguém me garante se no meio do caminho não me interesso mais por Linguística e abandone a Literatura (sem chance). Não escolhi ser pobre, por exemplo, e…

  7. Esse texto me desiludiu, a não ser que eu me jogasse a boiar em mar aberto para todo o sempre. Lá eu sou livre, longe de terra e civilização.

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