Conto silencioso do amaldiçoado #3

05:30

O tempo passa, mas meus desejos e anseios por mais daquilo que há pouco aconteceu não passam. Mas o código não me permite fazer muito disso, é uma forma de mostrar a mim mesmo que ainda tenho o controle sobre mim; sem o controle, eu sou apenas mais um número nas estatísticas, ou mais uma manchete do jornal sujo de sempre (televisivo ou não). A polícia já passou aqui em casa, procuraram por evidências, me fizeram perguntas; mas eu sou cuidadoso demais, tanto com as evidências quanto com minhas respostas. Tolos, nunca conseguirão nada de mim.

Uma de minhas maiores qualidades é ter a expressão facial que eu queira; pessoas nunca desconfiarão que eu sou aquele doente que matou o pobre garoto. Será que o sangue já foi lavado? Poderia ir lá, mas o segurança noturno só sai mais tarde, geralmente na hora em que a banca e a padaria abrem. Nunca parei para observar a beleza do rubro sanguíneo na alvorada. Adoro ver como as nuvens ficam rosa aos poucos.

Muitas pessoas me considerariam uma pessoa triste, sozinha…Um lobo solitário, há quem pense; mas, não acho, que seja tão difícil de entender que como eu nunca senti a felicidade, eu não sou capaz de não sentí-la, assim como em funerais, o sentimento do luto não é algo de minha pessoa. Eu entendo tais sentimentos, e suas derivações, mas, eu, de fato, não consigo é manifestar de forma real tais. Considero-me uma pessoa acima da média, me acho lindo e tenho insônia; como acabaste de ver, nobre leitor, eu não durmo há dois dias, isso que você saiba. Eu consigo ter as mulheres que eu quiser, mas é incrível que, diferente dos outros da minha espécie, eu não sinto a necessidade incontrolável do sexo, e eu não sou de me masturbar, a última vez que o fiz foi com meus 15 anos.

É estranho eu querer entender minha mente, estudei psicologia, psiquiatria e direito nas melhores faculdades do mundo, sou um ser que não quer sucesso, não quer mídia e não quer nada além do meu bem estar. Mas mesmo com todos esses conhecimentos sobre os seres de minha espécie, é difícil estudar a si mesmo, creio que seja essa uma das razões da vida: conhecer a si mesmo. Falando de vida, impressiono-me com o fato de pessoas acreditarem na vida após a morte, e me impressiono mais ainda com aqueles que querem provar que não há, são tolos, os dois grupos. Em minha visão, não há como saber se há vida após a morte, porque é algo fora de nosso alcance, mas há aqueles que querem impor de todas as maneiras suas verdades universais. Sou a favor da visão de Nietzsche sobre tal assunto: não há verdades universais. Nietzsche foi uma pessoa interessante.

As pessoas costumam a dizer que nessa vida é impossível viver sozinha. Não consigo concordar com isso, pelo fato de eu fazê-lo há anos e ainda assim estar satisfeito comigo mesmo. Talvez eu poderia experimentar uma vida a dois, experimentar uma família, filhos…Qualquer coisa, se a ideia não me agradar, é só matá-los. Geralmente pessoas de minha espécie não conseguem entender a profundidade de suas palavras, peço desculpas a você leitor, caso te choque, mas eu simplesmente não entendo sua surpresa, uma vez que, seu choque é a minha normalidade. Da mesma forma que há pessoas que estudam uma vida inteira sobre pessoas como eu (tais quais Illana Casoy), eu também me dedico a estudar a espécie de vocês. Teve uma época de minha vida que eu achava, de fato, que as pessoas ao meu redor fossem que nem eu, que eu era um ser normal, pensava que todos matavam um cachorro na infância, que era apenas uma fase. Eu aprendi a ler com dois anos, e com isso, eu comecei a ler jornal, e comecei a ver que pessoas que matam são repudiadas pela sociedade, são os lixos. Nessa época comecei a entender melhor o que os adultos ao meu redor diziam:

Se eu pegasse um desgraçado desses, eu matava sem piedade”

E comecei a entender os famosos suspiros femininos, aquele ar de surpresa me intrigava, até que entendi que é porque elas são doidas mesmo. A mulher é a criatura que mais me intriga: cheia de jogos, enigmas, metáforas, duplos sentidos e frescuras. É uma raridade achar alguma que não tenha medo de insetos tais quais a barata. O medo é um sentimento intrigante demais, a psicologia e a psiquiatria mostram o medo é um mecanismo de defesa e de eliminação de adrenalina. Entendo que a liberação de adrenalina, por parte, mas ela como um mecanismo de defesa? Nunca vi um medo dessa forma, elas sempre foram vistas por mim como um meio de te limitar, uma brincadeira sem graça do nosso superego. Aliás, o meu superego é totalmente controlado por mim. Ter a consciências de meu controle, de primeira vez, foi um susto, eu não entendia como as outras pessoas podiam ser diferentes, houve, de fato, uma negação de meu eu. Mas hoje em dia já me acostumo com a ideia. O id é onde nossos sentimentos primários se encontram, gosto de pensar que um dia eu já fui feliz, afinal, não há bebê que solte aquele sorriso que é, como diriam as mulheres, “fofinho”. Esse sorriso é um impulso, creio eu. Um dos instintos de um ser humano, da outra raça, seria o de procriar; não entendo o por quê de eu não querer fazer isso, talvez eu não queira deixar rastros do meu legado. Talvez a minha libido não seja a de procriar, mas não vejo um por quê de não fazê-lo, quem sabe com o tempo eu fertilize alguma mulher. Será que meu filho será da minha raça, ou da raça da mãe, que, provavelmente, pertencerá à outra raça? É estranho pensar sobre isso…psicólogos, em sua maioria, dizem que a psicopatia se manifesta mais pelo social do que pelo genético, mas parece que eu sou um caso a parte, já que minha criação foi perfeita, não houveram erros e nem desvios (como um pai autoritário; um pai que me abusou sexualmente). Ser abusado sexualmente, isso me lembra da vez em que beijei um homem, não sei o por quê, mas, depois daquele beijo, eu tive vontade de matar aquele ser que havia me beijado. Eu não sou homofóbico, apenas odiei aquele beijo, um beijo seco e sem graça. E a vontade se tornou realidade. Ter matado essa bicha foi engraçado até. Bons tempos de quando eu ainda experimentava de baladas e drogas. Tenho sorte de ser superdotado e que isso nunca me afetou em questões de pesquisas e estudos.

Sei lá, talvez eu seja mesmo tudo o que o livro “Mentes Perigosas” diz sobre mim, talvez eu seja a escória da humanidade mesmo. Mas quem disse que eu ligo? Eu quero mais é que o senso comum continue a ser espalhado por livros lixos como esse, quero mais é que o povo continue com medo de pessoas da minha raça, que todos pensem que eu sou um assassino sanguinário que só quer matar e sodomizar seus filhos…Desse jeito, pelo menos, eu não preciso perder meu tempo conversando com tais. Uma pena é que eu tenho que manter isso só entre nós, nobre leitor, as pessoas daqui não podem saber o que sou. Mas consigo imaginar seus rostos se soubessem. Talvez eu matasse a todos.

06:30

E o sol finalmente se mostra por detrás das montanhas. Preciso comprar meu jornal.

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Trilha do dia:

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Citação do dia:

“Cegante ignorâcia nos ilude. Ó miseráveis mortais abri os olhos”

Leonardo Da Vinci.

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